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O que a diretora do clipe feminista “Mulamba” tem a nos dizer?

É impossível não se emocionar. As imagens desse clipe abraçam a canção com uma força e intensidade de tirar o fôlego. Com roteiro e direção da cineasta Virginia de Ferrante, o clipe “Mulamba”, meio documentário meio videodança, é uma obra feminista dessas que fazem a gente sentir que sim, estamos cada vez mais fortes. Um respiro de força para a luta não parar.

A banda curitibana Mulamba, que mal nasceu e não pára de crescer, chegou gritando voz que ainda é silêncio com letras pra lá de impactantes, linguagem escandalosamente poética e performances grandiosas. As compositoras e cantoras Amanda Pacífico e Cacau de Sá são das vozes mais potentes da nova geração e das mais necessárias.

Virgínia não veio com menos potência e poética para dirigir e conceber o primeiro clipe da banda. Já conhecia a canção que já me rasgava tanto o peito e não parecia necessário um clipe dela, pois tudo já estava ali. Ledo engano! Ao assistir o vídeo reconhecemos, dentro daquela mesma, uma outra canção, que meio doía e muito salvava. E que raro e poderoso é sentir isso!

Conversei com a Virgínia para entender um pouco mais do processo de gravação do clipe e conhecer essa guria que já chegou se mostrando uma brilhante diretora e roteirista da nova geração!

Você começou no cinema, mais precisamente roteiro e direção. Como foi tua trajetória profissional? Quando entendeu que seria essa tua dedicação profissional?

Quando eu tinha 19 anos, depois de ter começado uma faculdade de direito e fazer aulas de teatro, eu morei 1 ano em Nova York estudando atuação e percebi que eu não queria trabalhar em escritório e que eu era péssima atriz. Lá eu entrei em contato pela primeira vez com o mundo atrás das câmeras e me apaixonei. Voltando pro Brasil fui para São Paulo onde me formei em cinema e tive a sorte de conseguir trabalhar em algumas produções grandes como do filme “O Lobo Atrás da Porta”, dirigido por Fernando Coimbra, ou da série “Menina Sem Qualidades” da MTV, entre outras. Nos últimos anos, eu vim para Curitiba novamente para focar em projetos autorais.

diretora e roteirista Virgínia de Ferrante

 

Recentemente você dirigiu o primeiro clipe da banda Mulamba. O clipe é muito forte e o feminismo que tem ali emociona e tem emocionado muita gente. Como foi o processo de gravação e criação desse trabalho?

Eu já conhecia a Caro, baterista da banda, há algum tempo. Já tivemos uma banda juntas – que durou 3 ensaios rs – e dirigi o clipe de outra banda dela, a Watch Out For The Hounds. Quando ela me chamou para fazer o clipe, as ideias estavam ainda bem abertas e, com algumas reuniões com a Amanda, vocalista, fomos lapidando qual era a intenção com o clipe e a partir dali eu criei um roteiro e a personagem “Mulamba”. Eu sempre falei pras gurias que pra mim era importante que o processo do clipe também fosse transformador para nós. A princípio, houve um certo medo com a parte do documentário, pois iríamos abrir as feridas de cada uma e por isso fizemos uma prévia do exercício que seria proposto antes com uma psicóloga, que foi a mesma que acompanhou e conduziu a experiência que gravamos. Lógico que houve uma imensa diferença entre o dia do teste e da filmagem em si. A Caro, que também trabalha com fotografia de cinema, já tinha uma equipe praticamente montada. Eu trouxe pro time algumas pessoas por exemplo o Fernando Kopp, que criou a máscara, e a Ana Carolina Vedovato, que se apresentou para trabalhar no clipe em um post que procurávamos, e acabou se tornando uma grande amiga e essencial artisticamente para o clip. Como não tínhamos verba nenhuma, houveram algumas dificuldades, tanto técnicas quanto de organização. Tivemos, por exemplo, que abrir uma diária a mais, foram várias pessoas operando câmera, etc. O trabalho com a bailarina Nayara Santos também foi muito bacana, pois ela esteve no dia da filmagem do documentário e pôde usar o movimento das mulheres como inspiração para a coreografia. Foram 5 meses de trabalho no total.

Eu sempre falei pras gurias que pra mim era importante que o processo do clipe também fosse transformador para nós.

O processo de gravação e elaboração desse clipe foi bem intenso. Como é para você a parte da criação do conceito de um trabalho e a importância dele?

Este processo da criação é importantíssimo e muitas vezes negligenciado. Para mim, o conceito de que “o filme se faz na pré” é essencial para criarmos um projeto consistente que na hora da filmagem possa fluir bem com tudo que já foi pensado antes. No caso do videoclipe em si, a criação depende muito da relação entre banda e diretor/roteirista. Algumas bandas já sabem exatamente o que querem, outras gostam de ver seu trabalho sob o olhar do outro e dão mais liberdade para a criação, que foi o caso da Mulamba. Eu acredito que o produto final não deve ser o único objetivo de um projeto e acho importante que o fazer do filme seja também transformador ou provocador de novos pensamentos e atitudes. Afinal de contas, para quem trabalha com isso estamos na maior parte do tempo produzindo o filme e o que leva meses ou anos para ser realizado terá, no final, apenas alguns minutos. Acho interessante lembrarmos que o cinema também se encaixa no leque das artes e, por isso, a parte de reflexão, pesquisa aprofundada, desenvolver, apagar, refazer, repensar e entender é essencial.

O clipe que você dirigiu da Mulamba alcançou uma visibilidade bem legal em pouco tempo. Isso te trouxe abertura para outros trabalhos?

Sim! Foi muito bacana pois esse clipe é muito “eu”. A banda me deixou muito livre para criar e conceitualizar, ou seja, ele acabou se tornando um bom cartão de visita do meu trabalho. Recebi muitos feedbacks positivos e fico muito feliz sempre que dizem que se arrepiaram ao assistir o vídeo. Algumas pessoas entraram em contato comigo logo em seguida para realizar outros projetos. Por exemplo, o Festival Curta 8 de Curitiba me convidou para dirigir um clipe da mostra, o que me proporcionou a incrível experiência de fazer um clipe em super 8 para a Ana Larousse (você, no caso rs).

Mulamba, da esquerda para a direita: Caro Pisco (bateria), Nat Fragoso (guitarra), Naíra Debértolis (baixo), Cacau de Sá (voz), Amanda Pacífico (voz) e Fer Koppe (cello). Foto de Luciano Meirelles – HAI Studio.

Às vezes eu sinto que diretores ou diretoras de clipes são muito pouco valorizados. O crédito do trabalho costumeiramente recai sobre a banda e é esquecido que, além da música, existe uma linguagem fortíssima que foi criada e elaborada com muito trabalho pela equipe cinematográfica, que está desvinculada da banda. Você sente ou percebe isso?

Percebo e acho de certa forma triste que isso aconteça pois acredito que o ideal seria que os artistas dessem suporte uns aos outros, mas tudo depende de como o clipe é visto. Ele pode ser uma forma de publicidade da banda ou um meio artístico de expressão. Eu prefiro a segunda opção, pois é mais colaborativo e relevante. Porém, às vezes o objetivo é somente a autopromoção e divulgação, daí funciona muito mais como uma relação de cliente com prestador de serviço. Eu acharia muito interessante que o clipe ultrapassasse essa barreira e fosse entendido como a “união dos poderes” de duas artes poderosas do áudio e do visual. Fora do Brasil, os diretores são mais valorizados, inclusive muitos fazem carreira como videomakers de clipes. Uma artista que eu admiro muito por exemplo é a Floria Sigismondi diretora de clipes do David Bowie, White Stripes, Marilyn Manson, etc. É bem bacana perceber que os artistas escolhem a Floria com o objetivo de realmente ter a assinatura dela no vídeo, como é o caso da parceria com a Christina Aguilera na música “Fighter”, que resultou em um clipe super sombrio e bem diferente da linha pop.

Ser mulher em qualquer contexto profissional é complicado e exige muita força. O cinema é uma arte que inclui muito pouco as mulheres (nesse estudo da San Diego University podemos ver o tamanho disso). Você sofre incredibilidade por parte dos homens na área em que atua? Tem alguma vivência tua que gostaria de compartilhar?

Essa é uma área predominantemente masculina e que tem muitos homens que acham que são super desconstruídos mas que reproduzem atitudes misóginas e machistas com as colegas de trabalho. Pelo que vemos, só é realmente permitido espaço para a mulher nos departamentos “aceitáveis” como figurino, maquiagem e atuação por exemplo, ou seja, no que é intitulado como departamento feminino. E no caso das atrizes ainda é pior, pois há a exigência de ser bonita e as personagens quase sempre são rasas e clichês. Histórias sobre homens são vistas pelo público todo, já histórias sobre mulheres geralmente são “filmes de mulher”. Os homens ainda não sabem não ser os protagonistas da obra e também têm grande dificuldade de considerar relevante uma história predominantemente feminina. Em termos de equipe, as dificuldades ficam bem claras através do constante mansplaining, a pouca confiança em mulheres que trabalham na parte técnica e a exigência velada de que uma mulher precisa se esforçar mil vezes mais do que um cara para convencer sobre um projeto ou ideia. Além disso, há aquilo que cada vez mais está vindo para a superfície que são os assédios em sets de filmagem ou no processo de contratação. Já ouvi muita bobagem em rádio de produção sobre “a assistente bonitinha” ou também já me senti extremamente desconfortável com “massagens não solicitadas” de chefes. Também muito comum atrizes serem tratadas sem respeito por parte da equipe em cenas de nudez ou sexo. Frequentemente a sensação é de que se ela escolheu estar ali tem que aguentar a plateia masculina passando dos limites profissionais.

Celluloid Ceiling Report conduzido por Martha Lauzen do Center for the Study of Women in Television and Film pela San Diego State University

A luta pelo espaço feminino tem aumentado. Você já consegue perceber essa abertura no cinema ou produção de clipes?

Sim. O véu está caindo e não estamos mais ficando em silêncio. Algumas atitudes já foram tomadas como a criação de editais específicos para realizadoras mulheres, mesas de debates em festivais que falam sobre a mulher profissional no cinema e a formação de coletivos como o “Mulheres do Audiovisual”. Ainda temos muito o que fazer, ainda somos uma minoria assustadora nos quesitos de premiações por filmes, referenciais de bons profissionais e contemplação por editais. Quando observamos as escolas de cinema há uma grande quantidade de mulheres estudando porém o número diminui significativamente ao compararmos com o mercado. A premiação do Oscar, por mais limitada que seja em termos artísticos, é um referencial para muita gente, e foi somente em 2010 que, pela primeira vez, uma mulher levou o prêmio de melhor direção (a Kathryn Bigelow  pelo filme “Guerra ao Terror”). Não sei se é o caso, mas recentemente saiu um texto muito interessante sobre o movimento recente de busca por espaço das mulheres e vale a pena a leitura: aqui 

Ainda temos muito o que fazer, ainda somos uma minoria assustadora nos quesitos de premiações por filmes, referenciais de bons profissionais e contemplação por editais.

Você está trabalhando em algum projeto nesse momento? Quais são os planos para o próximo ano?

Atualmente eu estou retomando um projeto de documentário que iniciei em 2014 e que teve alguns obstáculos pelo caminho. É um longa-metragem sobre os impulsos que temos de adquirir autoconhecimento e identidade através das nossas origens. Eu me uso de cobaia nesse experimento, pois a narrativa é guiada pela minha busca em conhecer melhor o meu pai que faleceu quando eu tinha 4 anos. Além disso, estou escrevendo projetos como diretora e diretora assistente.

Se você pudesse realizar teu projeto dos sonhos, qual seria? Tem algum projeto mirabolante e grandiloquente querendo sair do papel?

Nossa! São tantas ideias engavetadas. Tenho até realmente uma pasta no HD que se chama “gaveta de ideias” onde eu vou escrevendo aleatoriamente alguns rascunhos de projetos. Creio que por enquanto meu sonho é conseguir ser remunerada adequadamente pelo meu trabalho e não ter mais que explicar que a produção de vídeo não é simples, rápida e barata. Além disso gostaria de poder utilizar diversas plataformas além do cinema, como projeção em teatro, performances, obras de arte, etc e transpor o vídeo para além da tela numa caixa escura.

Quer deixar algum recado para as garotas que estão começando a trabalhar com cinema? O que você diria para você se você pudesse falar com a Virgínia no início da carreira?

Hmmm, vou tentar ser o menos clichê possível, mas seria basicamente acreditar no potencial da sua ideia e da sua dedicação ao trabalho. Não se deixar sentir intimidada nas conversas pelas vozes masculinas que sobressaltam como se houvesse uma competição de quem é mais cult e sabe mais sobre cinema. Procure se espelhar em outras mulheres que estão há mais tempo na profissão e tente sempre avaliar a presença de machismo nas escolhas de equipes, criação de personagens e filmes preferidos. A nossa união tem uma enorme força se formos sinceras, verdadeiras e acolhedoras umas com as outras.

A nossa união tem uma enorme força se formos sinceras, verdadeiras e acolhedoras umas com as outras.

 

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Ana Larousse é compositora, cantora, escrevedora de poesias e violonista-doida-pra-ser-guitarrista, formada em Artes do Espetáculo pela Université Paris 8. É ateia, vegana, gestora da própria carreira musical e completamente viciada em dicionários, mapas, livros de história e literatura feminista.

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