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Você já parou para ouvir as mullheres?

Você já se perguntou de onde vem a ideia de que as mulheres são complicadas, de que é impossível desvendá-las e de que — não bastasse! — são todas iguais? Cerca de 200.000 anos convivendo com elas e os homens ainda estão, really?, confortavelmente entoando o mantra « não entendo as mulheres » (me permito uma pausa ansiosa para lembrar que mulheres são indivíduos; não um clã organizado e de comportamento unânime). O que elas querem, o que tem na bolsa delas ou o que fazem no banheiro são alguns dos grandes enigmas (favor entender a ironia. Obrigada.) que a « homenidade » carrega em relação a esse ser meio « não-deste-mundo »  e que você, tanto quanto eu, ouviu a vida toda — e não poucas vezes. Mas a questão é: antes de tentar entender as mulheres, você já parou para ouvi-las?

Lá em 1931, a Virginia Woolf disse: “Quer dizer, o que é uma mulher? Juro que não sei. E duvido que vocês saibam. Duvido que alguém possa saber, enquanto ela não se expressar em todas as artes e profissões abertas às capacidades humanas”.

Li, não tão recentemente, essa crônica do Caetano Galindo sobre sua leitura do romance “A Amiga Genial”[1], em que a escritora Elena Ferrante dá voz a Elena Greco, que narra sua relação com Raffaella (Lila) Cerullo. Ele conta que ao ler o livro foi surpreendido ao encontrar ali, naquelas palavras daquela mulher sobre aquelas garotas, angústias que eram irmãs e espelho das dele. Nessa, que foi sua primeira leitura de um « romance de formação » assinado por uma mulher, entendeu (e aqui abro um pouco a leitura à minha interpretação) que as mulheres foram a vida toda um mistério em razão do mais simples — e óbvio, não fosse tão normalizado — motivo: ele não ouvia as mulheres.

Afinal como é que vamos ouvir as mulheres se é dado muito pouco espaço para que elas falem? As produções artísticas são tanto um reflexo do mundo quanto o que pode transformar ele, e a representatividade feminina em livros, filmes, composições e séries ainda é vergonhosa. “Mas o debate sobre a desigualdade de gênero não para de crescer. O espaço da mulher não está aumentando?”, me perguntaria o leitor conformado otimista. Sim, está. O espaço tem aumentado de quase inexistente para muito pequenininho. Quer ver?

No Top 100 dos discos mais vendidos do mundo, apenas 15 artistas mulheres aparecem no relatório do Media Traffic, e a presença masculina no Top 100 Artists 2016  da Billboard domina 75% da lista. Os mesmos 75% aparece no Top 100 Greatest of All Times. Nas plataformas de streaming a disparidade não fica pra trás. Dos 100 artistas mais ouvidos no Spotify em 2017, os homens comandam 75% dos plays. Se a gente considerar que, dessas artistas, poucas são compositoras das canções que interpretam — escritas quase sempre por homens — vemos que mulheres donas da própria narrativa ainda não conseguiram ter espaço no mainstream.

No cinema os números são ainda mais alarmantes. Um estudo realizado pela San Diego University, coordenado pela pesquisadora Martha Lauzen, avaliou os 250 filmes de maior bilheteria nos Estados Unidos. Dentre os blockbusters de Hollywood, que é boa parte do que acaba chegando no Brasil, as mulheres representam apenas — preparem-se — 7% dos diretores e 13% dos roteiristas. Se subirmos para o Top 500, os números sobem muito pouco: 11% de mulheres dentre os diretores e 14% dentre os roteiristas. No Brasil, a Agência Nacional de Cinema (Ancine) atesta que, segundo a pesquisa realizada, somente 20,3% dos filmes lançados no país em 2016 foram dirigidos por mulheres, contra os 14,7% de 2015.[2] E na literatura? É assim também? É.

Dentre os 100 livros mais vendidos de todos os tempos[3][4], 71% foram escritos por homens, considerando que, dos poucos assinados por mulheres, 7 são da mesma autora (J.K. Rowling, you rock! — e pensar que ela escondeu seu nome para que as editoras não soubessem que ela era uma mulher). De acordo com levantamento da Publish News, 72,7% dos livros lançados no Brasil em 2016 foram produzidos por homens. Quer ver a ~imprensa~ dando um empurrãozinho a mais pra baixo? A Rolling Stones divulgou uma lista indicando os 100 melhores compositores de todos os tempos: apenas 15 mulheres. A Dublinenses lançou a antologia “Porque ler os contemporâneos?”, que reúne 101 escritores de ~notável relevância mundial~ e incluiu apenas 14 mulheres na curadoria (preguiçosa, diga-se de passagem). A Revista Bula fez uma lista dos 100 livros que mais influenciaram a humanidade. Me pergunte quantas mulheres havia? Apenas a Simone de Beauvoir (e lá no final da lista).[5]

Voilà alguns números que contam a (in?)diferença dos homens em relação às mulheres. Ficou chocado? Nem eu.

Nesse cenário catastrófico, onde a visibilidade de mulheres criadoras é significativamente reduzida, a representação das mulheres na maioria (ou, como brincaria minha irmã, em mais que a maioria) das produções artísticas que consumimos é produto e manipulação da cultura masculina. O sintoma desse contexto onde tudo é criado por uma perspectiva quase sempre do homem é, para além da “invisibilização” quase que total da mulher, a elaboração desleixada de perfis femininos em que a pessoalidade das mulheres é nada elaborada. Como elas são costumeiramente representadas em filmes, séries e novelas? Pois é. São personagens bidimensionais e nada complexas, tendo sempre o homem como cerne de sua trajetória (cf. o conceito de Manic Pixie Dream Girl, Teste de Bechdel, dentre outros).

A manipulação simbólica — portanto também ideológica — da representação da mulher em produções artísticas expressa estereótipos cuja compreensão ultrapassa a estória do sujeito fazendo com que a figura feminina termine por perder sua dimensão real.

Esses perfis reducionistas de mulheres, sendo sintomáticos de uma produção predominantemente masculina, não surpreendentemente aparecem em outras esferas artísticas. Como foram escritas as mulheres criadas pelos mais brilhantes (e pelos mais medíocres) romancistas? E pelos poetas? E pelos letristas das canções — majoritariamente escritas por homens — que interpretam as cantoras mais ouvidas? Não somente é superficializada toda a complexidade psicológica, emocional e intelectual que as personagens femininas deveriam ter — porque, pasmem!, as mulheres têm; mas nenhuma dessas figuras femininas vive sem o amor de um homem e eles são a única e ó! soberana razão de suas existências.

Parece piada pensar que homens escrevem personagens femininos em filmes, livros e canções dando voz a mulheres para, no fim das contas, falarem deles mesmos.

Num lugar onde o egocentrismo masculino impera, é traída a verdade da mulher — esse grupo incompreensível que faz sabe deus o que no banheiro —, que é feita por sua individualidade, e não por um estereótipo concebido. A manipulação simbólica — portanto também ideológica — da representação da mulher em produções artísticas expressa estereótipos cuja compreensão ultrapassa a estória do sujeito fazendo com que a figura feminina termine por perder sua dimensão real.

Em nada me espanta que homens achem tão complicadas as mulheres reais — e que rejeitem as que não correspondem às qualidades e atributos que foram definidos pelo homem. Oras! O que não conhecemos por sequer buscarmos conhecer certamente nos será muito complicado.  Lá em 1931, a Virginia Woolf disse que só entenderíamos quem são as mulheres depois que tivessem se expressado em todas as artes e profissões abertas – e estamos chegando lá, Virginia! A visibilidade e a escuta ainda são mínimas, mas o fato é que temos muito mais mulheres se expressando em todas as artes e profissões do que imaginamos.

Pensando nisso tudo e estarrecida com esses números, fiz aqui uma playlist com algumas das inúmeras compositoras nacionais maravilhosas de todos os gêneros musicais. Playlist cheinha de mulheres donas da própria narrativa (como logo — bem logo, né? — todas serão).

Tem muita mulher falando! Falta a gente ouvir.

Play!

NOTAS DE RODAPÉ:
[1] “Amiga Genial” é o primeiro dos quatros livros da série napolitana de Elena Ferrante. Leia tudo! Faça isso por você.
[2] A diretora da Ancine, Debora Ivanov, pontua que, dos 29 filmes dirigidos por mulheres no ano passado, 14 foram documentários. O dado, segundo ela, mostra que as mulheres estão presentes em filmes de menor aporte financeiro.
[3] Contabilizar a vendagem de livros é complicado. Por isso os números variam nas listagens e pesquisas. Tendo analisado várias delas, digo que a variação do percentual de presença feminina entre os diferentes rankings é nada relevante. Google it!
[4] Perceba que boa parte desses 29 livros são literatura infantil ou infanto-juvenil, universo no qual a mulher foi confinada.
[5] Ela morreria mais 100 vezes se visse isso. Ou daria um jeito de viver mais 100 anos pra ajudar a consertar essa bagunça – o que é mais a cara dela.
[6] “Profissões para mulheres”, publicado postumamente em “A morte da mariposa”, 1942,  a partir de um discurso proferido por Virginia Woolf na Sociedade Nacional de Auxílio às Mulheres em 21 de janeiro de 1931.
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Escrito por

Ana Larousse é compositora, cantora, escrevedora de poesias e violonista-doida-pra-ser-guitarrista, formada em Artes do Espetáculo pela Université Paris 8. É ateia, vegana, gestora da própria carreira musical e completamente viciada em dicionários, mapas, livros de história e literatura feminista.

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