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Linn da Quebrada coroa resistência feminina com “Pajubá”

Mulher na Música e MC conversam sobre o disco e a necessária descontrução

 

Estou procurando

Estou tentando entender

O que é que tem em mim

Que incomoda tanto você

(Submissa do 7° Dia)

 

Dias antes de começar esse texto, me mostraram uma foto da Linn da Quebrada, publicada no Instagram da própria, ostentando uma coroa de arame recém tatuada na testa. Pura ironia. Travesti periférica, a mc incomoda por existência, ou mais, por resistência. Talvez por isso Pajubá (YB Music, 2017), álbum de estreia de Linn, seja como um nó que saiu da garganta e quicou forte pelo salão –  o suficiente pra balançar os corpos e os valores morais.

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A quebra de paradigmas sexuais, de gênero e corpo, fica clara pelas 16 faixas de Pajubá. Não de um jeito puramente agressivo, mas com calor e alegria. “As pessoas às vezes encaram minha música com uma conotação sexual forte, mas eu falo mesmo é de afeto. De corpos preteridos que encontram formas de amar e (r)existir”, revela.

“O desejo e a sexualidade não são coisas dadas. Foram moldadas, criadas principalmente por meios como TV, cinema e música. Minha música vem como um espaço de intervenção dessas ideias, uma provocação em sua totalidade” (Linn)

Com elementos sonoros vindos de diferentes partes do mundo, a mistura de Pajubá dá num funk eletrônico direto e divertido. Subversivo? Muito, ainda bem. Em uma sociedade conservadora, precisamos de desconstruções como as da Linn – e elas, da nossa atenção. “Minha provocação não faço pensando só no outro ou nas pessoas TLGB., é veneno e antídoto para mim também”, ela nos conta.

crédito: Nu Abe

Sobre as composições, a cantora completa: “Pode reparar, nas músicas em geral, amor e afetos vem sempre numa mesma toada, emitindo as mesmas sensações. Eu desconstruo e me distancio disso, saio de perto do que envolve o desejo e as vontade do macho. Eu quero é falar desses corpos feminilizados, dessas mulheridades todas, voltadas as que praticam essa feminilidade si mesmas”.

Pajubá tem direção musical assinada por BadSista e produção de Nelson  D,  Carlos  NuneZ, Vincenzo  ​e  Diego  Sants, responsável também  pela  mix. “A BadSista é da quebrada também, o processo de criação foi direto, natural. Eu explicava minha ideia, ela traduzia aquilo em melodia e juntas, além do restante da Gig da Quebrada, íamos fazendo e refazendo até chegar no ponto ideal (que na verdade não existe). E a Bad, o Nelson D, Carlos NuneZ, Vincenzo e o Diego Sants, todos foram criando e pontuando do que ainda não tinha certeza”. Completam o disco a percussão de Valentino Valentino e as participações de Liniker, Glória Groove e Mulher Pepita.

crédito: Nu Abe

Com seu Pajubá, Linn da Quebrada provoca para poder(mos) gozar à vontade, coroando – mesmo com a dor do arame e da tinta que rasgam a pele – a feminilidade. “Estivemos sempre de joelhos dobrados nessa sociedade, senão diante da oração, da ereção. Em Pajubá eu refaço tudo isso: tiro o macho do centro e dou o foco total ​aos ​corpos ​de ​essência ​feminina ​e ​a ​seus ​desejos”.

 

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Escrito por

Jornalista, assessora de imprensa, escritora e produtora cultural, Flora vive de palavra e som. Tem foco de pesquisa e atuação em música independente, é integrante da SÊLA, escreve para o site Mulher na Música, comenta discos no canal Um Vlog de Música e nas horas vagas desata amarras sociais.

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