Lendo agora:

Exclusivo: Luisa e os Alquimistas lança ‘Vekanandra’: da ancestralidade feminina ao meme

Um clima de rolê sem-fim e, ao mesmo tempo, super introspectivo, flow esperto e rimas cantadas em inglês sobre ser artista. Fazer o seu corre, buscar por amor e dignidade e uma garota isenta de vergonha e “happy to be ninguém”, permeadas por bases eletrônicas e samples. Estes são alguns dos elementos de “No Shame” que, das sete faixas de “Vekanandra”, novo disco de Luisa e os Alquimistas, é a preferida da vocalista, compositora e frontwoman, Luisa Guedes.

LEIA MAIS: Mostra SÊLA celebra mulhernamusica na Casa Natura Musical com Ana Canãs e Letrux

Poucos dias após tocar no Festival Dosol, em Natal, do qual a banda é conterrânea, e próxima do lançamento de seu segundo álbum, Luisa parece ter a calma e a segurança de uma monja. Ou de uma virginiana. Entre áudios e textos no WhatsApp, falamos sobre o grito da mulher, os encontros, os sonhos, a identidade (construção e desconstrução) e o que esperar de “Vekanandra”, seu segundo álbum, que lançado em parceria com os selos PWR Records e Rizomarte, e que sai todinho em primeira mão aqui no Mulher na Música.

A vida dá vários sinais de que não se deve julgar uma obra pela capa, mas a gente teima – e, às vezes, acerta. A composição imagética que estampa o disco dá pistas da riqueza de referências presente em toda a obra. Visualmente tem-se a união da arte urbana, quase sempre associada à cultura de margem, a elementos pop, como letreiro em neon, e uma taça gigante de Martini com a própria cantora dentro. No aspecto sonoro, o disco é igualmente recheado de pesquisas, alinhavando o eletrônico ao ragga ao hip hop ao underground ao dub ao soul – e contando – além da temática feminina, que é central.

Luisa Guedes (foto: Luana Tayze)

“Quando comecei a pensar no álbum e resolvi que a gente precisava fechar um conceito para o trabalho, percebi que estava querendo falar sobre essa questão da presença das mulheres nos palcos e toda essa coisa meio ancestral, desde as dançarinas, ciganas da Argélia, lááá atrás, em 1800”, conta a cantora. Se, por um lado, a pesquisa exalta estas entidades de séculos atrás, por outro, o tecnobrega e tecnomelody aparecem em peso – sem dever nada ao Pará, estado-mãe dos ritmos – logo no single de abertura, que leva o nome do disco.

Who is Vekanandra? “Essa é a história da menina que gostava de dançar”, começa a letra. A faixa-título, além de ser um hit digno de paredão e contar com o poder das rimas da pernambucana Jessica Caitano, tem um sample do histórico meme da Lohane Vekanandra Sthephany Smith Bueno de HAHAHA de Raio Laser Bala de Icekiss. Não entendeu nada? Clique aqui para assistir, porque recordar é viver.

Há anos Luisa se identificou com o meme e o apelido Vekanandra pegou. A vida imita a arte – e a internet – e, o que era uma simples brincadeira entre amigos deu nome ao disco, já que a cantora buscava um nome próprio, como se fosse de uma pessoa, para batizar o segundo filho. E, claro, tudo com muito conceito: no vídeo do meme original, a tal Lohane etc-etc não é senão uma personagem usada por João Pedro para extravasar e se libertar. E também um pouco de si, afinal. “A existência dela [Vekanandra] é muito acompanhada por todas as entidades dos samples que a gente traz no disco. São muitas referências: Vekanandra sou eu, é um processo meu de aceitação dentro de todo esse universo de descoberta na música, de estar à frente de uma banda, de trabalhar com a linguagem pop. Então a Vekanandra também é um grito de liberdade. É a exposição de vários medos”, diz.

O conceito e a unidade do disco são dois dos aspectos que mais diferenciam este segundo trabalho do primeiro. Para Luisa, a presença de Walter Nazário, que trabalha com as potiguares Mahmed e Igapó de Almas, foi muito importante para a evolução. No que se refere ao processo de composição, Walter enviava bases eletrônicas para Luisa, que, ou encontrava um ponto de partida para versos já escritos, ou tinha insights do zero. Por isso, o produtor assina a coautoria de todas as canções, com exceção de “Piece of Me”.

Na faixa “Brechó”, do álbum anterior, Cobra Coral, de 2016, Luisa canta: “me despi, quero estar só”. Perguntei a ela em qual faixa do novo trabalho havia se despido mais, no que respondeu que abrir o disco com um tecnomelody e terminar com “Barca de Oro”, que não possui letra, tampouco sua própria voz (há apenas samples, como de uma entrevista de Dercy Gonçalves e de áudios de uma senhora de 104 anos, vó de uma amiga da artista, falando sobre botar o grelo pra fora), faz com que o álbum, por si só, seja o ato de se despir. “É a faixa que é o foda-se para as expectativas, então acho que essa música fecha a ideia”, completa.

Bate bola, jogo rápido: um signo?

Virgem.

Uma larica?

Leite condensado com Ovomaltine (kkkkkkkkkkkkkkkk).

Mulheres inspiradoras?

Etta James, Lia de Itamaracá, Elza Soares, Joelma, Dona Onete, MC Carol, Princess Nokia, Rihanna, Amy Winehouse, Soom T, Karina Buhr, Lágrima Rios, Catarina Dee Jah, Dercy Gonçalves, Elke Maravilha, Marina Lima, Missy Eliot, Alice Coltrane, Nina Simone, Dezarie.

Uma conversa de buteco?

Acho que falar de teorias da conspiração, essas coisas assim.

Seu rolê preferido?

Gosto muito de sair para escutar música, seja de bandas ou musica eletrônica, então… Uma experiência com música, na natureza, com uma estrutura massa de som e tudo mais, esse esquema de festivais bem feitos, com line-up diverso, que você pode sacar várias bandas interessantes.

Um lugar que você sonha em tocar?

Num desses grandes festivais de música eletrônica como Burning Man, se for pra pensar alto. Mas eu gosto muito da coisa intimista também, então  eu acho massa estar na rua, tocar para uma comunidade periférica de qualquer região – seja daqui do nordeste ou no sudeste – e fazer um som com uma estrutura foda na periferia pra galera sacar. E, sei lá, tocar num trio elétrico ou num barco também, não seria nada mal. Risos.


*Luisa e os Alquimistas apresenta show de lançamento em São Paulo durante a Semana Internacional de Música. São duas datas: no dia 8/12, no Mundo Pensante, e 9/12, na Casa do Mancha.

Compartilhe
Escrito por

Escreve umas tranqueiras, caça shows e festivais interessantes pelo brasil-brasileiro afora, ama os prazeres da vida, é rolezeira. Detentora de uma memória terrível e dos piores trocadilhos da zona oeste.

Deixe um comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado. Os campos obrigatórios são marcados com *

Digite o que você deseja buscar