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O que ganhei sendo voluntária no Girls Rock Camp Brasil

“Meus pais sempre me perguntam o que eu ganhei, financeiramente, fazendo trabalho voluntário e é legal entender que o que a gente ganha é muito além e mais valioso do que o dinheiro”. A Bia tem razão. Assim como ela, fomos ao Girls Rock Camp Brasil 2018 sentir na pele o que é fazer parte do maior acampamento de rock para meninas do país.  Eu nunca tinha sido voluntária antes e o fato de ter começado com música e empoderamento feminino mudou a minha vida. E lá fomos nós, eu, Ana Larousse e outras tantas mulheres, viver a aventura mais séria e divertida dos últimos tempos.
Fotos: divulgação GRC

Eu e Ana Larousse durante as atividades no Camp

Eu e Suy ensaiando com com a vocalista da nossa banda Violetas Valentes

Ana Larousse dando oficina de composição

Imagine um acampamento musical de férias exclusivo para meninas de 7 a 17 anos que se ensina em apenas de cinco dias a tocar um instrumento, compor uma canção e se apresentar numa grande noite de shows. Incrível, né? E tudo na maior vibe do “você pode, garota!”. As crianças também tem aulas instrução de guitarra, baixo, bateria, teclado e voz, além de participar de oficinas de composição, fanzines, performance, yoga e defesa pessoal. Quem eram suas instrutoras? Nós, mulheres na música.

Aulas de instrução de guitarra

Ensaio Alto

Yasmin dando oficina de fanzines

Vale dizer que o Girls Rock Camp chegou ao Brasil graças à socióloga (e rockeira) Flavia Biggs. Nas férias escolares ela ocupa a escola em que dá aulas de sociologia para receber meninas e mulheres todos os anos em Sorocaba, SP. Em janeiro 2018 foram aproximadamente 75 voluntárias convivendo quase que 24h durante 7 dias seguidos. Quinze bandas foram formadas entre as 90 crianças presentes, sendo que cada grupo é instruído por uma dupla de voluntárias, empresária (como foi o meu caso) e a produtora musical. Foi onde conheci minha dupla Suy que virou irmã e, inclusive, vai participar do processo de gravação do meu próximo disco.

Flávia Biggs sempre atenta

Eu e Suy tocando juntas no intervalo do almoço durante o Camp

Eu e Suy com nossa banda Violetas Valentes

Eu, Suy e Violetas Valentes no grupo “Rock da Roça”

Além dela, outras conexões maravilhosas me mostraram mulheres (e artistas) incríveis: Katze, Lets, Lari, Ariel, Marcela, Raquel, Lui, Cinty, todas integrantes do nosso querido alojamento “Sindigatas” (um codinome carinhoso que inventamos para o Sindicato dos Metalúrgicos). Entre as voluntárias estavam integrantes de bandas como Ventre, Drosophila, Não Não Eu, Cora, Weedra, The Biggs, The Weird Family, Bloddy Mary Una Chica Band, Alambradas, InVenus e outras tantas que nos faziam pensar a cada instante: “Só tem mina f*da aqui!”.

Ouça algumas delas nessa playlist da Ana:

E aqui você confere uma “bateria” de fotos captando o momento dessas artistas maravilhosas sendo também educadoras:

Oficina de ritmo com Larissa e Stela

Livia ensaiando com sua banda

Patrícia e Cint acompanhando sua banda

Nicole trazendo bom humor com aprendizado

Lets com sua banda

Helena dando instrução de bateria

Lui dando instrução de baixo

Pamela dando instrução de guitarra

Dessa maneira compreendi que estar entre tantas mulheres maravilhosas era um privilégio. Assim como poder plantar uma sementinha do amor em meninas tão novas, tão cheias de si, tão prontas para tudo nessa vida. Sozinha com certeza não vou conseguir expressar o quão grande foi o saldo dessa experiência. Por isso separei alguns trechos de depoimentos de outras voluntárias. Só rolar pra ver suas maiores recompensas.  

Cint Murphy – Empresária, vocalista da InVenus

Cint com sua banda

“Você não sabe como eu me sinto quando você me critica. Eu posso e vou amar meu corpo como ele é”  Esse refrão foi criado pela banda Sad Girls, produzida pela Letty e empresariada pela Carol Marinho Martin durante a semana do Girls Rock Camp Brasil em Sorocaba.

Eu ouvi o refrão das Sad Girls a primeira vez e segurei a emoção, fiquei chocada, arrepiada por que parecia que elas estavam cantando diretamente pra mim. Sabe quando você tem medo do espelho? Quando aquilo que você olha não é o que você gostaria de estar enxergando? Então. A primeira coisa que aprendemos no treinamento é que não deveríamos nos depreciar na frente das crianças, e satanás como isso é difícil né? Por que não é apenas dar o exemplo pras crianças, é dar o exemplo pra nós mesmas, entre nós. A música é só um pano de fundo pra que essas relações se fortaleçam.

Aprendi a falar, aprendi a ouvir, aprendi a respirar fundo no meio da estafa, aprendi que tudo tem seu momento certo pra ser feito, aprendi que precisamos/devemos ter cuidado ao falar, a famosa comunicação não violenta. Aprendi na prática o que é empatia. Aprendi a pensar nas companheiras e a deixar o egocentrismo/arrogância de lado, aprendi que não precisamos ser BFF, mas que é nosso dever ouvir, observar, relevar o que é feito em momentos nos quais a emoção está extremamente aflorada e falar sobre o que nos chateia no momento apropriado E NUNCA DEIXAR DE FALAR AQUILO QUE NOS INCOMODA. aprendi também que nem sempre os feedbacks serão como a gente espera.

Aprendi na prática o que é empatia. Aprendi a pensar nas companheiras e a deixar o egocentrismo/arrogância de lado

Beatriz Vivanco – Empresária

Bia com a vocalista de sua banda

Foram três acampamentos: Girls Rock Camp Brasil em Sorocaba, que já é amor e comprometimento eterno, Girls Rock Camp Curitiba, em sua primeira edição, e Girls Rock Camp Porto Alegre, em sua segunda. em cada um desse lugares dinâmicas, mulheres e climas diferentes,
o que eu vivi naquele primeiro ano reverbera na minha vida até hoje, porque eu nunca mais olhei pra outras mulheres da mesma maneira. a capacidade de realização, a potência interna de cada uma, as individualidades que contornam diferenças e semelhanças tão profundas fazem impossível não sentir a magia que acontece quando mulheres se unem. O norte comum que é a construção de um futuro equânime, autônomo, horizontal e feito por nós mesmas faz com que a gente supere cansaço, distância e todo tipo de saudade ou empecilho.

Juntas tudo se faz possível. O privilégio e a sorte de poder ter estado na presença de cada uma das meninas e mulheres durante esse quase um mês de viagem não cabem no meu peito. A oportunidade de olhar pra mim pelos olhos de vocês me fortalece, me dá coragem e energia pra encarar qualquer coisa. Celebro a mulher que sou pelo encontro com cada uma. hoje eu sou inteira feita de amor por vocês.

A oportunidade de olhar pra mim pelos olhos de vocês me fortalece, me dá coragem e energia pra encarar qualquer coisa.

Marcela Guimarães – Fotógrafa da Equipe de Registro

Marcela em ação!

Passar 10 dias no Girls Rock Camp junto apenas de mulheres é:

– Enxergar as múltiplas capacidades que temos mas que nos são negligenciadas a partir do momento que falamos nossas primeiras palavras na vida.
– É ver como somos diversas e como nos completamos em nossas diferenças quando trabalhamos juntas.
– É se desentender uma com a outra sim, mas acima da questão “mulher”. Em um ambiente apenas de mulheres nós passamos a ser humanizadas e as relações entre nós ganham outros significados.
– É perceber que todas as coisas acontecem COMPLETAMENTE e INTEIRAMENTE a partir das nossas mãos, do nosso trabalho, uma ajudando a outra.
– É nos reeducar para educarmos e incentivarmos as campistas de uma forma nova, empoderada. É agir e falar de forma diferente do que nos foi ensinado, e que nós sabemos muito bem a diferença que cada detalhe fará na vida dessas meninas daqui alguns anos.
– É muito mais aprender do que ensinar.
– É renovar as esperanças através das meninas.
– É ouvir, aprender e viver intensamente com várias mulheres que você nunca viu ou conversou na vida, mas que na loucura desses 10 dias você acaba descobrindo várias irmãs de alma.
– É ver que juntas nós podemos e conseguimos qualquer coisa!

É muito mais aprender do que ensinar.

Ana Pimentel – Produtora Musical
(*depoimento de 2014 quando participou pela primeira vez)

Ana Pimentel esbanjando amor e humor

Minha vontade era de largar tudo e correr para ser voluntária desse projeto, de resgatar esse sentimento tão sublime que a música proporciona e ainda espalhar esse amor tão genuíno para essas garotas. Lembrei do que realmente amo fazer e que precisei abandonar por questão de sobrevivência na selva capitalista. Te digo que ser mulher no mundo corporativo também não é mole não. Você se sente na obrigação de se esforçar o quádruplo para, além de sobreviver em um meio inóspito e degradante para a mulher, desconstruir essa maldita dominância sufocante do patriarcado, que sempre encontra meios de te manter rebaixada, nunca tratada ou vista com os olhos da igualdade. Acho que estou chegando aonde queria. Meu último e definitivo desejo seria estar ali, tocando guitarra e cantando, sendo mais uma dessas meninas sorridentes, sentindo a alegria mais pura da minha vida novamente. Sem desejar nada mais.

Meu último e definitivo desejo seria estar ali, tocando guitarra e cantando

Yasmin Faria – Oficineira de Fanzines

Yasmin e fanzines!

Em meados de 2014 eu conheci Marcela Mattos e Gigi Louise, juntamente da CasA de família (casa do coração❤ que me acolhe e me ensina) que me mostraram que eu tava certa em lutar, que o rock é lugar de mina sim, o d.i.y., a empatia, a força coletiva e tantas outras. Foram elas que me falaram e me incentivaram a ir nesse projeto mágico que é o Girls Rock Camp Brasil, onde eu pude somar falando um pouco sobre fanzines, cartazes, fazendo coreografias freestyle e mais do que isso, onde me fortaleci e fiz fortalecer. É incrível ver a potência que somos juntas e o que criamos em uma semana. Agradeço imensamente à todas as manas que fizeram mais esse camp acontecer, principalmente as que me acolheram e me fizeram acreditar: Flavia Biggs, Marianne Crestani e Carol Fernandes

Grata por reacenderem a riot grrrl que existe em mim!

***
Para ser voluntária do Girls Rock Camp Brasil fique de olhos nas inscrições pelo site.

Voluntárias do Girls Rock Camp Brasil 2018

Campistas do Girls Rock Camp Brasil 2018

Show de encerramento Girls Rock Camp Brasil 2018

Show de encerramento Girls Rock Camp Brasil 2018

Voluntárias <3

“Todas as meninas reunidas, vamos lá!”

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Quando criou a SÊLA, Camila entendeu que duas artistas tinham mais força que uma. E que três artistas tinham ainda mais força que duas. Desde então sua carreira solo como cantora e compositora ganhou outra dimensão e por isso tem se preparado para lançar o novo disco como GALI, seu novo nome artístico. Como empresária acumulou funções de publicitária, jornalista, apresentadora, palestrante e articuladora. Criou o mulhernamusica.com.br para estimular o conteúdo feito por elas e está aberta a quantas outras funções forem necessárias para fazer mais por elas.

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