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“Sou sapatão e sou feliz”: BEL, ex Xanaxou, lança clipe no calor do Rio de Janeiro

Até hoje conheço gente que considera “sapatão” uma palavra “forte”. Como se a ideia de ser forte não soasse bem em se tratando de uma mulher. Inclusive tenho muitas amigas que no auge da infância se sentiram insultadas ao se depararem com um “sapatona!” nos corredores da escola. Muita coisa mudou de lá pra cá, inclusive o clima com verões cada vez mais intensos. Colocamos a cara no sol, tiramos a bunda do sofá e esfregamos na cara da sociedade. Essa causa é minha, sua, nossa e também da BEL: cantora, compositora, ex integrante da banda Xanaxou, que dirigiu o próprio clipe e a própria vida ao retratar seu posicionamento político a favor do empoderamento lésbico.

Veja com exclusividade para o mulhernamusica:

A canção “Esse Calor” feita em 2012 integra seu disco de estreia “Quando Brinca” e mantém a causa quente trazendo um aviso para a nova era: “Vou usar esse calor a meu favor”. Ao som desse mantra, vinte mulheres lésbicas performam uma coreografia construída coletivamente pelo elenco e mediada por Luna Leal.  “Em 2017, mais do que nunca, afirmei para dentro e para fora a minha identidade sapatão, que sempre foi muito presente em todas as minhas produções mas acho que de uma forma mais implícita e suave. Nesse vídeo, quis escancarar!” BEL para o mulhernamusica

Em pleno calor do Rio de Janeiro, o resultado é para além da causa LGBTQIs, porque ocupa espaços públicos como a Praça Luís de Camões (na Zona Sul), uma pedreira no Engenho da Rainha (na Zona Norte) e a boate La Paz, durante as cenas na festa Velcro. Na praça, por exemplo há um chafariz seco, com uma escultura no meio que soa sexual para a cantora: “É um espaço redondo e protegido, achei que fosse bom para a filmagem da coreografia”, justifica. Já a festa Velcro tem papel emblemático pra ela. Produzida por lésbicas e para lésbicas, a ideia é celebrar a “existência sapatão”, discurso que ela defende muito:

“Quero celebrar a luta, por que não? É uma parte muito boa disso tudo. É o que eu quero falar agora”

Pois, fique à vontade, BEL, a casa é sua.

MNM – Qual a importância de dizer com todas as letras “sou sapatão”?

BEL – Existe um apagamento das identidades lésbicas e transmasculinas, reflexo de misoginia e lesbofobia. As mulheres são obrigadas a servir feminilidade o tempo inteiro para que sejam abraçadas pela sociedade, pelo público, pelo mercado. falar baixo, ser delicada, não beber muito, não rebolar tanto (senão já vira puta), não ter a última palavra, não sentir raiva.

Existe um papel já preparado para você desempenhar na sociedade só porque você nasceu com uma xoxota.

 

MNM-  O que é ser mulher gay na música independente?

BEL – Na música, no caso, a feminilidade é abraçada também nas identidades gays e transfemininas, a gente vê uma ascensão e um reconhecimento forte de várixs artistas, vê esses trabalhos glamourizados pela mídia e inseridos no mainstream musical, mas não vê as pessoas falando sobre o quanto Martinália, Maria Gadu e Leci Brandão, por exemplo, desconstruíram gênero todo esse tempo. outro dia eu vi o documentário sobre a Whitney Houston, que foi evidentemente assassinada pela lesbofobia. foi obrigada a performar a diva feminina hetero e por isso viveu infeliz a vida inteira, sem poder assumir seu romance lésbico. Para além disso, o que esperam das mulheres artistas no meio musical é que sejamos vocalistas, que cantemos agudo e afinadas sempre (não vejo essa cobrança doentia sobre os cantores). no backstage, vão te convidar pra trabalhar como produtora, mas se você for técnica vai ficar desempregada e acabar desistindo da profissão – ninguém tem dúvida que isso já aconteceu com muitas manas, né?

Acho importante também corrigir o termo: não sou gay, sou lésbica. e diante de tudo isso, acredito ser importante ainda gritar algumas coisas para que elas possam ser naturalizadas em algum momento. por enquanto, não gozamos da mesma visibilidade e, portanto, vai ter grito sim.

MNM – Quais foram suas maiores influências para fazer esse disco?

BEL – Eu estava escutando bastante Little Dragon na época. Marina Lima, Ângela Rorô, Karina Buhr, Tracy Chapman me influenciam sempre. PJ Harvey, New Bloods, Fever Ray, Las Bistecs e Warpaint fazem muito minha cabeça.

MNM – Quais mulheres da cena que te ajudaram no processo de gravação ou criação do disco? De que maneira elas te ajudaram?

BEL – A maior parte das músicas foi composta em parceria com a Bruna Baffa. A gente namorava na época e fazia muito som juntas, em casa, gravando assim com celular mesmo. As composições que não foram abraçadas pela banda que eu tocava eu trabalhei para gravar esse disco solo. A troca com a Bruna era muito linda, eu estava passando por uma fase muito difícil onde perdi minha mãe e ela me resgatava lá do fundo do poço com aquele violão. na gravação, tive o prazer de contar com a Larissa Conforto, que até hoje toca bateria no show, e que é uma das melhores bateristas em atividade no Brasil, na minha opinião – entre homens e mulheres. As músicas ganharam muito com ela, e a nossa relação também ganhou muito com as músicas. Uma mana que amo muito, taurina, talentosa, faca na bota, do jeito que eu gosto! Além da Lari, Mari Romano, Rafaela Prestes e Laura Lavieri gravaram vocais para a faixa Fica Fácil Assim. As quatro faziam parte da banda Xanaxou, que eu integrei também. Essa banda já não existe mais, mas acabou sendo um ponto de encontro entre artistas mulheres da cena que reverberou em outros projetos.

Qual o conceito do seu primeiro disco de estreia? Qual é a mensagem final?

Olha, não sei bem se existe um conceito específico, ou uma mensagem final. as pessoas perguntam isso, ou sobre o quê as letras falam, e eu entendo que o disco fala mesmo sobre mim. Minha relação com a cidade e com os seres, meus humores, meus desejos, minhas dúvidas. Eu não tenho muitas pretensões sobre que mensagens passar, prefiro ouvir das pessoas sobre o que elas receberam. A gente é tão diferente umas das outras, né?

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Formaram a equipe do clipe: Bel Baroni (concepção, direção e coordenação de produção), Pedro Cabral (produção e assistência de direção), Luna Leal (preparação corporal e mediação coreográfica), Gabriela Ribeiro (assistência de direção), Vê Carvalho (produção de arte) e Clarissa Ribeiro (montagem e finalização). As câmeras foram operadas por: Marina Novelli, Lucas Canavarro, Giovana Cianella, Paula Garcia, Pedro Cabral e Bel Baroni. E a produção de set foi realizada por Lia Sarno, Samia Oliveira e Renata Furtado. O clipe contou com apoio do MOTIM, da Festa Velcro, da Aramista, da Build Up Media e do Paintball Rio. O elenco é composto por: Aline Miranda, Ana Claudino, Anna Jones, Fernanda Farias, Helena Assanti, Isabel Scorza, Julia Oliveira, Juliana Castro, Letycia Mattos, Luísa Tapajós, Luiza Gullino, Luiza Saturnino, Natali Barbosa, Nathalia Atayde, Pâmela Souza, Paula Damaso, Rebeca Mafra, Samia Oliveira, Sanny Purwin, Sofia Laureano e Thaís Catão.

Esse Calor (Bel Baroni / Bruna Baffa)

direção, roteiro e argumento – Bel Baroni
produção – Bel Baroni e Pedro Cabral
preparação corporal e mediação coreográfica – Luna Leal
assistência de direção – Gabriela Ribeiro e Pedro Cabral
câmeras – Giovana Cianella, Lucas Canavarro, Marina Novelli, Paula Garcia, Pedro Cabral e Bel Baroni
produção de arte – Vê Carvalho
produção de set – Lia Sarno, Renata Furtado e Samia Oliveira
montagem – Acácia Lima, Peg e Pedro Cabral
finalização – Alexandre Marcondes

performers – Aline Miranda, Anna Jones, Ana Claudino, Fernanda Farias, Helena Assanti, Isabel Scorza, Julia Oliveira, Juliana Sales, Letycia Mattos, Luísa Tapajós, Luiza Gullino, Luiza Saturnino, Natali Barbosa, Nathalia Atayde, Pâmela Souza, Paula Damaso, Rebeca Mafra, Samia Oliveira, Sanny Purwin, Sofia Laureano, Thaís Catão

apoio – Aramista, Build Up Media, Festa Velcro, I Hate Flash, MOTIM e Paintball Rio

agradecimentos – Ana Pujol, Avenida Bar, Clarissa Ribeiro, Contêmpiranha, Daniel Pandeló, Elilson Duarte, Fernanda Ribeiro, Francisco Costa, Gabi Vianna, Heitor Mota, Julia Vommaro, Letícia Lopes, Lina Kaplan, Lívio Leite, Marcela Barroso, Maria Gabriela Gomes, Maria Isabel Iorio, Mayara Yamada, Miguel Jorge, Nathália Pandeló, Nilo Ribeiro, Paula Loffer, Rafael Turatti, Serge Erege, Susana Costa Amaral, Yasmin Zyngier e Yohanan Barros

Rodado nos bairros da Glória, Inhaúma e Centro da cidade do Rio de Janeiro (RJ)

2018

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Escrito por

Quando criou a SÊLA, Camila entendeu que duas artistas tinham mais força que uma. E que três artistas tinham ainda mais força que duas. Desde então sua carreira solo como cantora e compositora ganhou outra dimensão e por isso tem se preparado para lançar o novo disco como GALI, seu novo nome artístico. Como empresária acumulou funções de publicitária, jornalista, apresentadora, palestrante e articuladora. Criou o mulhernamusica.com.br para estimular o conteúdo feito por elas e está aberta a quantas outras funções forem necessárias para fazer mais por elas.

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