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All that ‘mess’: a estreia inclassificável de Giovanna Moraes

O cabelo curtinho e os gestos leves fazem parte do jeito simples de ser da paulista Giovanna Moraes. São também suas características mais evidentes para qualquer pessoa que a esteja conhecendo pela primeira vez, mas é só uma vibe, algo passageiro. Ao subir no palco e começar seu show, Giovanna cresce, se expande e toma conta do ambiente, utilizando para isso sua voz e suas composições.

Cheia de improvisos e brincadeiras vocais, sobre letras intimistas e extremamente sinceras, a apresentação de Giovanna, seja ela mais pro acústico ou toda plugada, viaja por camadas sonoras e universos distintos, levando o público do jazz ao blues, do pop ao rock, por meio de nuances performáticas inesperadas e comentários tímidos da jovem musicista entre uma canção e outra.

Formada em Neurociência Cognitiva e Artes Literárias, a aplicada Giovanna viveu um tempo fora do Brasil. Ao retornar, se reencontrou com a música e nela seguiu. Resultado: no último mês de Março lançou seu disco de estreia, o inclassificável Àchromatics, produzido por Thommy Tannus, do Tannus Estúdio (São Paulo – SP).

“Quando escuto as gravações do disco, vivo de novo o momento de criá-lo. É um registro de quem fui quando gravamos e, ao mesmo tempo, o processo que me leva a quem sou hoje. É uma coletânea de memórias, uma viagem, um registro da minha existência e estética de vida”, conta Giovanna sobre a concepção do álbum, cujo show de lançamento, financiado coletivamente com 122% da meta total obtida via Partio, já está confirmado para a próxima quinta-feira, 26 de Abril, no Jazz nos Fundos, às 21h.

Recheado de composições bastante íntimas, escritas a partir de vivências e memórias pessoais de Giovanna, Àchromatics é também seu alto falante pro mundo, sua ponte de ideias. “A grande diferença é que com música eu consigo me comunicar com muito mais gente. Não fico isolada em uma ideia maluca que no máximo dez outras pessoas no planeta iriam entender(…)Com a música não estou descrevendo uma teoria/emoção, estou mostrando/causando. Basta sentir”, reflete a cantora.

Em entrevista ao Mulher na Música, Giovanna discorre sobre essas e outras ideias, a atual fase de sua carreira, de como veio parar aqui e algumas outras mirabolâncias, que mesmo sem se explicar, dizem muito sobre ela e sua arte. Confira:

1.  Esses dias vi uma postagem sua sobre uma instalação artística assinada por sua mãe [a artista Bettina Vaz Guimarães] na SP-Arte 2018. Isso mostra que Arte é assunto de hora do jantar na sua casa, certo? De que modo você sente que sua mãe te influenciou, ainda que ela não crie na Música como você?

Adorei essa pergunta, risos. Minha mãe é treta, aprendi e ainda aprendo muito com ela. Somos bem diferentes em alguns aspectos (não peça para ela cantar, risos), mas em outros somos super parecidas. Nosso processo criativo, por exemplo, é bem igual. Somos criaturas intuitivas com uma ansiedade, uma vontade inesgotável de criar. Aprendemos testando, fazendo. Lógico que tem ideias que podem nos guiar como uma espécie de plano, mas não somos apegadas a essas ideias, a um ponto de deixar a criatividade estagnar. Ás vezes, nestes processos, descobrimos caminhos diferentes que nos ajudam a expressar algo que nem sabíamos que estávamos precisando libertar.

Tudo é teste, tudo é brincadeira. Sem essa pretensão de fazer algo, sinto que criamos coisas maravilhosas.

2. A pergunta anterior abre espaço pra outra, mas de modo mais íntimo: a música como seu principal espaço de criação, de liberdade. Queria saber em que sentido você entende que a Música te ‘curou’? Isto é, qual a importância que você deposita na música para as escolhas de vida e o atual momento que você vive hoje?

Me curou acho forte, não sei se descreveria assim. Não sou uma pessoa diferente fazendo música vs. pesquisa acadêmica. Sou intensa, detalhista, esforçada, tanto faz o que estou fazendo. Antes de fazer música sinto que pulei de lá para cá tentando achar a profissão “perfeita” pra mim. Quando me permiti fazer algo no meio artístico percebi que isso não existe. Porque aqui estava eu, finalmente seguindo um sonho reprimido meu e ali estavam os mesmos problemas que eu encontrava sendo pesquisadora. Não sou, necessariamente, uma pessoa mais feliz fazendo música. E nem tenho uma vida mais balanceada, risos. Vivo no mesmo mundo das ideias, buscando as mesmas questões que buscava em Neurociência Cognitiva ou Literatura/Filosofia. Só mudei o approach, o veículo, sabe? Antes usava a Neurociência para conduzir minha pesquisas, hoje é com a Música, mas o propósito de explorar e tentar entender o movimento de quem sou, isso segue igual.
A grande diferença é que, com música, eu consigo me comunicar com muito mais gente. Não fico isolada em uma ideia maluca que no máximo dez outras pessoas no planeta iriam entender. Tem muito mais retorno, consigo explorar uma teoria, as questões que acho interessante e expor elas de um jeito que qualquer um possa entender. Não existem barreiras de linguagem, educação, jargão técnico. Com a música não estou descrevendo uma teoria/emoção, estou mostrando/causando. Basta sentir. Acho isso muito mais interessante.

Com a música não estou descrevendo uma teoria/emoção, estou mostrando/causando. Basta sentir.

3. Quantos anos no total você morou fora do Brasil? Em quais cidades você viveu? Esses locais também te influenciaram de algum modo, isto é, sente que trouxe alguma bagagem artística dessa experiência/época que te faz criar de um jeito diferente, hoje em dia, aqui no Brasil?

Quase 6 anos. Morei cinco anos e meio quando estudava na Brown, que fica em Providence, RI. E aí, depois, alguns meses em Nova Iorque, quando estudei web development (para desenvolvimento de aplicativos e sites) e pesquisa acadêmica freelancer. Em Providence confesso que não explorei muito a cena artística local. É uma cidade muito pequena, eu teria que ter ido mais a Boston, mas não era o foco. Eu sou meio tudo ou nada e na época estava convencida de que Música não era pra mim. Quando fui pra Nova Iorque já era outra história, eu já sabia que queria fazer Música, mas ainda estava digerindo a ideia e tomando coragem de dizer isso pro meu pai. No meu tempo lá, fui ver varias peças na Broadway (que eu adoro) e fui a vários eventos no Spotify, que misturavam música e tecnologia. Nesses eventos conheci uma galera muito legal, inclusive uma menina que também fez faculdade Ivy League e ela me ajudou a perceber que existem vários jeitos de se fazer música, e que por isso não estaria jogando minha educação fora. Fizemos algumas jams e também fui a alguns shows.
Acho que meu trabalho tem um certo toque de  dramático, influenciado pela minha temporada assistindo musicais na Broadway. São músicas que contam histórias, criam um clima, uma experiência multissenssorial.

4. Seu primeiro disco, composições escritas em diferentes momentos e situações. Àchromatics, mesmo com sua personalidade de transformação e movimentos, pode ser vista como uma obra registro deste momento de vida da Giovanna Moraes? Se sim, como você explica isso?

Com certeza! Quando escuto as gravações do disco, vivo de novo o momento de criá-lo. É um registro de quem fui quando gravamos e o processo que me leva a quem sou hoje. É uma coletânea de memórias, uma viagem. Completamente um registro da minha existência e estética de vida. Acho isso ainda mais verdade se consideramos Àchromatics como um todo, incluindo as fotos, vídeos e o conto que escrevi.
Quando tive a ideia do conto [ficcional, que acompanha o disco] achei que estava escrevendo uma crítica à sociedade por meio do meu personagem protagonista, o Tim. No processo de escrever me reconheci nele e percebi que contava uma história sobre meu processo nesse último ano.

Era uma crítica à mim mesma, a história do meu amadurecimento durante o percurso de me tornar uma artista independente.

5. Queria entender mais do processo de produção do disco, o que veio de você, o que veio do Tannus e o que veio dos músicos. Conta pra gente?

Para responder isso preciso explicar um pouco mais sobre quem eu era antes de gravar. Não sabia muito de música e nem era uma grande consumidora, nunca tinha tocado com banda, nem entre amigos. Tocava pelo prazer de cantar. Roubava música do iTunes do meu primo, Pedro, e ouvia o que estava na radio. Não tinha Spotify, nem nada, risos. Minha sorte foi que ele sempre teve um gosto musical excelente e fui exposta a vários clássicos do rock e da música brasileira, do movimento tropicalista, obras que eu passei a amar.
Quando cheguei no Tannus Estúdio, o Thommy me fez várias perguntas sobre o som que eu queria criar. Músicas curtas vs. compridas, vocal na frente vs. junto, que tipo de timbre… Uma chuva de perguntas que eu não sabia responder. Eu não apostava na opção banda porque não acreditava que minha musicas rolavam de tocar com uma banda: eram mais ideias do que músicas  e, ao estrutura-las e tentar toca-las com outros, virava uma coisa muito menos dinâmica, pelo menos na minha experiência até então.
O Thommy me mostrou algumas referências e me convenceu a tentar a estratégia da banda. Comecei a escutar música igual lia livros ou artigos científicos, como pesquisa mesmo. Gostei muito da experiência e sentia que cada disco novo contava uma história nova e expandia o universo do que era possível, me apresentando a diversas ideias que não estavam no meu vocabulário musical.

Comecei a escutar música igual lia livros ou artigos científicos, como pesquisa mesmo.

O Thommy foi um amigo e em muitos aspectos um mentor, que me ajudou a engatar no meu caminho musical acreditando em mim e no meu potencial, muito mais do que eu mesma acreditava. Estruturamos as músicas e gravamos as guias. Aí veio o Re [Renato Lellis] que completamente mudou minha opinião sobre banda, expandindo meu universo na questão musical. Ele ouviu a faixa “Dark” umas três vezes, deu uma risada e falou: “já saquei, só quebradeira, bem doidona” e fez um arranjo na batera que nem se eu quisesse saberia explicar. Fiquei tão empolgada que gravamos o vocal dela em cima da guia, com a bateria dele no mesmo dia. Enchi o Thommy por um bounce e fui para casa empolgada, inspirada. Gravei várias cenas de mim dançando ouvindo a música na mesma noite, no terraço na frente do meu quarto e esse material acabou virando a maior parte do lyric video que fiz para “Dark”. Se não fosse pelo Renato, Àchromatics não seria do jeito que é, porque antes da contribuição dele eu nem imaginava que pudesse fazer algo tão legal. O Lucas e o Thommy também foram incríveis nos seus instrumentos, mas o choque foi menor, risos. Cada um trouxe suas referências, sentamos juntos e conversamos muito pelo feeling da música. Criamos juntos, palpites aqui e ali, mas sem restrições, foi algo bem solto e super colaborativo.

6. 2018 da Giovanna Moraes: o que podemos esperar de você este ano ainda em relação ao disco – e à música?

2018 da Giovanna Moraes, adorei! Em relação ao Àchromatics tenho que ver, porque muitas coisas não dependem só de mim, mas da minha parte pretendo levá-lo para vários outros lugares, em modelos e arranjos diversos, para que tenha uma versão para tudo e todos (risadas maquiavélicas). Tenho outras ideias também, musicas novas e piras audiovisuais que pretendo desenvolver e (começar a) lançar ainda esse ano. Mas veremos, como disse, tem muitas coisas que não dependem só de mim… Mas com um pouco de sorte será mais do que só 2018 da Giovanna Moraes!

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Escrito por

Formada em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero, no momento Izabela trabalha como assessora de imprensa musical. Viciada no assunto, consome música o tempo todo, seja em discos, livros, filmes e ingressos. Muitos ingressos. Feminista e fã de Patti Smith, Izabela colabora no Mulher na Música a fim de escrever boas histórias sobre mulheres incríveis, exatamente como você e todas nós.

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