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Inspirada pelo movimento da maré, banda In Venus lança EP inédito, “Refluxo”

Maré: aquela que repuxa forte, fincando suas águas na areia, emaranhando algas e conchas, numa intensidade que só o mar é capaz de gerar. E que solta. Devolve  em suas ondas toda fúria por meio de espumas e mais ondas. O ir e voltar sem fim, que exige força e espaço para acontecer.  Foi nesse movimento natural e toda a poesia que ele carrega consigo que a banda paulista de post punk In Venus concebeu seu mais novo projeto, o EP inédito Refluxo, lançado hoje com exclusividade via Mulher na Música.

Gravado no QG do Hérnia de Discos, este foi o primeiro trabalho produzido no estúdio-garagem de Desirée Marantes – em São Paulo (SP) -, produtora do EP e uma das fundadoras do selo. Além dela, o produtor Leandro Anami também participou do projeto, ficando responsável pela captação, mix e master das duas faixas que formam Refluxo: “Sangue” e “Eu Era Ela”.

“Ambas as músicas vieram de momentos de muita internalização, pós Girls Rock Camp. Vieram de toda força que eu, Vinhão (baixista da In Venus) e cerca de outras 70 mulheres vivemos por lá, um momento importante de retroceder para voltar com força”, explica a vocalista e tecladista Cint Ferreira sobre o nascimento das canções do EP, que trazem muito desse novo momento da banda. Além de Cint, a In Venus é composta por Patricia “Vinhão” Saltara no baixo, Camila Ribeiro na bateria e Rodrigo Lima na guitarra.

Declaradamente feminista, a In Venus quer cada vez mais minas fazendo arte, mais minas fazendo tudo. E é algo que não se identifica apenas na temática de sua obra, que inclui aí o elogiado debut Ruína (2017) – ouça aqui, mas principalmente em ações práticas no dia a dia. Como, por exemplo, a quantidade majoritária de profissionais mulheres que a In Venus escalou para o show de lançamento do EP, no próximo sábado (26 de Maio), no Teatro do Sesc Belenzinho. Com produção executiva da Sinewave, além da equipe técnica – Cibele Minder (roadie), Carol Doro (técnica de som) e Drielly Oliveira (iluminação) – o grupo também leva outras mulheres ao palco, integrando à apresentação participações especiais de quatro poetas: Formiga, Jade Quebra, Pam Araujo e Luiza Romão.

De acordo com Cint, a ideia dessa junção se deu a partir de uma noção de “antagonismo cultural”, ela explica. “Trata-se da união de mulheres de diferentes espaços, que se respeitam pela suas representações. Aquela velha história de que ‘somos como água, crescemos quando nos juntamos’. Por isso chamamos esses nomes fortes da representação feminina da poesia atual para declamar seus poemas, que por sua vez tem uma conexão muito forte com a nossa música”, comenta a vocalista.

In Venus (foto: Carol Fernandes)

Você me contou de onde vem o nome e o conceito do EP, Refluxo, essa ideia do movimento da maré, de ir e voltar. Queria entender melhor em que sentido essas duas canções simbolizam este movimento dentro da própria banda e por que agora.

Cint: Quando a gente fala de menstruação, as pessoas concebem como algo nojento. Mas nosso fluxo nunca é pensado como algo ancestral, que gera vida, que dói em nós pra caralho, mas que é algo da natureza biológica da fêmea. “Sangue” fala um pouco desse olhar para o nosso corpo, de nos voltarmos pra nossa história. Já em “Eu era ela”, foi uma música escrita por uma grande amiga, a Bia Vivanco. Quando ela escreveu, ela estava morando na minha antiga casa, depois de um momento no qual ela se viu sem futuro, sem trabalho e sem grana para viver a vida dela de forma tranquila.
Sai pra uma reunião e quando voltei tinha um bilhete, um cacto e essa música escrita pra mim, como um agradecimento pelo acolhimento que eu tinha dado a ela. Fiquei bem tocada pela a música.
Apesar de falar sobre mim, é também sobre qualquer uma de nós, de nos vermos umas nas outras, de sermos realmente nossa imagem e semelhança.
Ambas as músicas vieram de momentos de muita internalização, pós Girls Rock Camp [acampamento em Sorocaba-SP focado em crianças e adolescentes meninas e sua introdução à música]. Vieram de toda força que eu, Vinhão (baixista da In Venus) e cerca de outras 70 mulheres vivemos por lá, um momento importante de retroceder para voltar com força.

Como se deu o contato da banda com as poetas que participarão do show? E como surgiu a ideia de inclui-las na apresentação?

A Pam eu conheci através da “Chega de Assédio”. Na época ela participava bastante das atividades da coletiva, já era uma poeta que eu admirava muito. A Jade eu vi desabrochar, literalmente, também pela “Chega de Assédio”.
Ela chegou na coletiva muito menina, acho que tinha uns 17 anos, estava começando a se interessar por feminismo. Um dia eu, ela, o Rodrigo e a Helena, uma amiga nossa em comum, colamos no Slam das Minas – projeto que também é idealizado pela Pam junto com outras manas muito zikas – que rolou na extinta Casa Goiaba: a partir dali vimos uma ‘monstrona’ crescer. A Luiza eu conheci através de uma mana, a Pichuru, quando estávamos participando da construção do “Fora Cunha”, em 2015. Fiz um vídeo dela declamando e interpretando um poema e me apaixonei. A Formiga sempre cola nos shows, um dia a gente tava trocando ideia e ela pediu espaço no nosso show pra recitar um poema dela, dali em diante também foi amor. No meio disso tudo eu fui apresentando as coisas pra banda e todo mundo ficou chocado com as minas, porque elas realmente são MUITO fodas.  Quando fechamos o show, por se tratar de um teatro, achamos que fazia sentido convidá-las, porque apesar de estarem correndo em outra via da arte, elas têm muito a ver com o que sentimos e com o que estamos falando. Trata-se da união de mulheres de diferentes espaços, que se respeitam pela suas representações. Aquela velha história de que ‘somos como água, crescemos quando nos juntamos’. Por isso chamamos esses nomes fortes da representação feminina da poesia atual para declamar seus poemas, que por sua vez tem uma conexão muito forte com a nossa música.

“…nosso fluxo nunca é pensado como algo ancestral, que gera vida, que dói em nós pra caralho, mas que é algo da natureza biológica da fêmea.’Sangue’ fala um pouco desse olhar para o nosso corpo, de nos voltarmos pra nossa história.”

 

Deu pra sentir uma correria muito grande na produção desse trabalho novo, mas ao mesmo tempo uma certeza muito forte por parte da banda em aproveitar esse show para o lançamento de algo inédito. Queria entender melhor como foi todo o processo de gravação do EP, me conta?

Foi foda, a gente fez esse EP na doidera. Eu e a Desi (Desirée Marantes, produtora) compramos uma mesa de som junto com a Mari (Bloody Mary/ Una Chica Band) e queríamos testar até onde conseguiríamos ir com as produções caseiras. Quando recebemos o convite do Sesc, foi a deixa com data marcada para acontecer. Foi um processo bem difícil, foi a primeira produção da garaginha do Hérnia de Discos, vários aprendizados, mas também  tiramos algo concreto e, sem modéstia, bem feito.

Queria saber mais dos sons que mexeram com vocês durante a criação do EP e quais influências você sente que estão presentes neste novo projeto também.

Eu ouvi muita coisa, mas muito do que eu ouvi não tem nada a ver com o som que a gente faz. Claro que tem umas referências como Kleenex, Suicide, Wire, Slint, Delta 5, slits, Lydia Lunch, esses não saem das minhas playlists, mas também ouvi muito rap, principalmente rap de minas, Rap Plus Size, Gabi Nyarai, Anarka, Tassia Reis, Sistah Chilli, Bivolt, Karol de Souza. A Camila [Ribeiro, baterista] também tá na mesma vibe de coisas diferentes, tem ouvido muito Khruangbin, Delvon Lamarr Organ Trio, SixKicks, Dilly Dally, Sher Mag. A Vinhão [baixista] resolveu atacar de DJ no projeto “Pixtinha da Vinhão”, então tem ouvido muito clássicos dos anos 80/90, e tá atenta ao rolê das minas de hoje em dia, como Chastity Belt, La Luz, Shopping, Land of Talk, The Babies, Aye Nako, Bully, Brilliant Colors e Camp Cope. O Rodrigo [guitarrista] tá na pegada do The Chameleons, Lydia Lunch, Wire, JDilla, Madonna, Sky Down, A place to Bury Strangers, My Dad is Dead, Flying Lotus, lorn, Afro Hooligans, The Screamers, Devo e FKA Twigs.

In Venus (foto: Carol Fernandes)

Um ano desde o lançamento de Ruína e agora um EP novo. Acha que esse primeiro aniversário do disco de estreia levou a banda para um momento e ambiente diferentes? Em que sentido você acredita que Ruína catapultou a concepção de Refluxo?

Acho que a gente só evoluiu sonora e esteticamente nas composições. A gente ama o resultado do Ruína, as últimas composições dele já deram a deixa do que estava por vir por que já estávamos numa esfera diferente, já estávamos com outra pegada do que era o começo da In Venus. O fim dele tem muito do Refluxo, uma estética “pixtinha-dançante-dark-80’s-começo dos 90”.

In Venus – show de lançamento Refluxo (EP) no Sesc Belenzinho
data: 26 de Maio de 2018
horário: 21h
valor dos ingressos: R$20/R$10/R$6 –  site do Sesc SP
endereço: Sesc Belenzinho (Teatro) – Rua Padre Adelino, 1000 – Belém
classificação etária: 12 anos

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Escrito por

Formada em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero, no momento Izabela trabalha como assessora de imprensa musical. Viciada no assunto, consome música o tempo todo, seja em discos, livros, filmes e ingressos. Muitos ingressos. Feminista e fã de Patti Smith, Izabela colabora no Mulher na Música a fim de escrever boas histórias sobre mulheres incríveis, exatamente como você e todas nós.

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