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Gika Bacci no The Voice Brasil: uma mulher lésbica na Globo

Estudei com Gika no colegial. Recentemente a convidei para participar da Mostra SÊLA de Ribeirão Preto (SP), nossa cidade natal e cenário da nossa antiga escola classe média-alta na região do Jardim Irajá nos anos de 2004, 2005 e 2006. Lembro de alguns episódios trágicos que passamos juntas, desde a derrota em último lugar na gincana da escola e até a humilhação por sermos chamadas de “mina-macho” por alguns meninos da escola. Sim, o bullying passava despercebido entre os adolescentes burgueses e não havia nada que pudesse ser feito em relação a isso. Aquilo a Globo não mostrava.

Gika Bacci – divulgação Rede Globo

Mais de dez anos depois Gika Bacci sobe ao palco do The Voice Brasil e eterniza o seu timbre-janis-joplin na emissora do plim plim. Para acompanhá-la na primeira aparição ela levou ninguém menos que sua mulher, Sarah. “Confesso que fiquei num impasse quando precisei decidir quem levar, até mesmo ouvi comentários homofóbicos. Mas ela é minha esposa e merece estar ali comigo! Muitas pessoas vieram falar comigo depois que o programa foi ao ar, agradecendo a coragem por levar a minha mulher e não ter vergonha disso.

Teve gente que saiu do armário pra mim, se assumiu, dizendo que tinha muito medo, ou que enfrentava situações humilhantes, conta

Ela que participou das seletivas cantando Elis (Regina), Aretha (Franklin), Rita (Lee), Gal (Costa) e Tina (Turner), virou as quatro cadeiras dos jurados e escolheu Ivete Sangalo pra ser sua mentora no programa: “Ela é aquilo que ela transmite; uma mulher de opinião, respeitada em todos os lugares, conquistou seu lugar com muita batalha num meio que a gente sabe que tem muita indiferença com as mulheres, e ela conseguiu! Além de cantar pra caramba né?”, justifica a escolha.

Já em sua segunda aparição no The Voice, Gika foi parar no Time do Lulu Santos através do quadro “Peguei!” (uma espécie de repescagem) e não poderia estar mais satisfeita: “Quando eu li (no instagram do Lulu sobre estar namorando um homem) lembro de ter pensado “arrazou”.Ele não teve medo de se assumir mesmo com o programa (The Voice 2018) começando. Só provou mais ainda que é um músico de verdade à frente do seu tempo! Estou muito feliz por ele, afinal ‘consideramos justa toda forma de amor!’”

Essa música do Lulu já foi trilha sonora de muitas festinhas que eu e Gika frequentamos na época da escola. Que loucura ela agora estar no time dele num momento tão especial e importante para a comunidade LGBTQ+. Quando pergunto se ela pretende usar sua visibilidade para expor a causa, ela responde na hora: “Claro! Estive na parada do orgulho gay aqui em Ribeirão neste último domingo, queria usar a minha “exposição” no programa pra falar de um assunto sério; homofobia e eleições. Recebi muuuitas mensagens depois que eu passei na TV de gente que tinha medo.

Só queria dizer que HOMOFOBIA MATA, e tem gente chegando no governo que não quer deixar nossos DIREITOS serem exercidos. Só queria lembrar as pessoas disso!”, desabafa.

Gika conta que além de ter sofrido bullying na escola por ser lésbica, também sofria por ser gordinha: “Eu sofri muito preconceito da própria Coordenação que falava que era uma fase”, relembra. Daria tudo pra ser um mosquito e ver a reação dos meninos, dos professores e da Coordenação da escola quando viram ela incendiar a Rede Globo na última quinta-feira sendo ela mesma, como sempre foi e como nunca deixará de ser. Gika tem uma arma poderosa nas mãos e sabe disso: “Meu sonho através da música é poder mudar alguma coisa; alguma vida, algum pensamento, algum lugar. Me espelho muito na Shakira, Bono e até no Slash que através da música, fazem campanhas em prol de causas muito nobres. A comunidade LGBTQ+ sofre grandes perdas por causa da homofobia e a falta de aceitação. Eu gostaria muito de poder dizer a essas pessoas ‘Existe uma saída!'”. Vai lá e brilha, Gika, porque essa gincana nós não vamos perder de jeito nenhum.

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Quando criou a SÊLA, Camila entendeu que duas artistas tinham mais força que uma. E que três artistas tinham ainda mais força que duas. Desde então sua carreira solo como cantora e compositora ganhou outra dimensão e por isso tem se preparado para lançar o novo disco como GALI, seu novo nome artístico. Como empresária acumulou funções de publicitária, jornalista, apresentadora, palestrante e articuladora. Criou o mulhernamusica.com.br para estimular o conteúdo feito por elas e está aberta a quantas outras funções forem necessárias para fazer mais por elas.

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