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Entrevista Da Cruz: “Eco do Futuro é um álbum que, como o Brasil, cambaleia entre resignação e rebeldia” 

A cantora e compositora Mariana Da Cruz tem se firmado como uma potente representante da música brasileira na Europa. Recentemente, seu álbum “Eco do Futuro” chegou também ao Brasil. No disco, a artista radicada na Suíça há mais de uma década é urbana, dançante e – em máxima instância – política.

Reconhecida também pelo trabalho de difusão da cultura afro-brasileira, Da Cruz vem consolidando um percurso que aborda de forma direta temas como racismo, violência contra as mulheres e a falsa liberdade de ir e vir do corpo negro. Temáticas embaladas em uma viagem eletro acústica ambientada nos enfumaçados estúdios de gravação e clubes ingleses.

Viagem que ainda funde Kwaito, Baile Funk, Afrobeat, Dub e Hip Hop e que apresenta um Brasil de sentimentos ambíguos, que oscila entre revolução e resignação, raiva e alegria, esperança e desespero – traduzidos em canções de pista, de dança. Pra saber mais sobre “Eco do Futuro”, conversei com a artista. Confira na íntegra e dê o plâi.

Crédito: Ane Hebeisen

Você é uma artista que vê na música uma possibilidade de ação política e isso fica explícito no seu disco. Sua obra sempre foi assim?

Da Cruz: Eu sou uma pessoa atenta e crítica. Claro que essa atitude também se reflete na minha música. Já negociamos esses tópicos em nossos primeiros álbuns. Família negra com sete irmãos crescemos todos em um bairro branco com poucas famílias negra na cidade. Não é que eu tenha tido uma juventude caracterizada pelo racismo. Foi um sentimento sutil e percebível de não-igualdade. Isso me moldou.

Eu vejo o Mundo com os olhos e na pele de uma mulher negra. E vejo que eu e meus irmãos Afro descendentes ainda não temos as mesmas chances e direitos  dentro da Sociedade até hoje. Em um país de maioria com descendência negra e indígena, não ocupamos os espaços que deveríamos ocupar dentro da sociedade por direito. O machismo predomina desde da época da minha avó: as mulheres “são” para casar, procriar e esperar pelo marido, aceitando de seus parceiros uma vida alienada e agressões sem direitos a fala e a instrução.

A liberdade e independência tomavam conta da minha cabeça pra ser livre e transformar todos os Nãos recebidos em Sim. Eu não busco o confronto com minha música. Eu observo e absorvo as sensações que tenho na minha música. “Eco do Futuro” é um álbum que, como o Brasil, cambaleia entre resignação e rebeldia. Eu pertenço à geração dos desiludidos. Tantas promessas de política não foram cumpridas. Nesse álbum minha reflexão é de ver o futuro acontecer agora, hoje. Não temos tempo para esperar, eu vejo o futuro repetir os erros do passado, mas temos forças para mudar se trabalharmos e ajudarmos no coletivo.

Vê no seu trabalho uma ferramenta de combate à desigualdade social? Pra você, de que maneiras isso pode ser feito?

Da Cruz:  Como eu disse: Minha música não é uma arma e não quer ser um confronto. Eu posso iniciar pensamentos como uma artista. Posso deixar ou fazer as pessoas pensarem e refletirem  , posso criar uma atmosfera de cosmopolitismo e tolerância. No nível político, é difícil no momento encontrar um equilíbrio no Brasil. Mas no Brasil a música sempre foi importante. Na mediação. No transporte de novas idéias. E também em conforto. Talvez eu possa fazer uma pequena contribuição. Não esquecendo de minhas Origens , mas buscando acesso plataformas , visibilidade  buscando parcerias que desbravam o caminho e que lutam por tempos melhores para todos.

Como foi feita a escolha de morar fora do Brasil? Falar de seu país no exterior é uma espécie de denúncia?

Da Cruz:  A curiosidade me expulsou do Brasil. Eu queria conhecer outras culturas e outros países,    e eu amo meu país. Eu nasci no Brasil, minha família mora lá, eu visito com frequência. A visão de fora do meu Brasil me dà a possibilidade de ser livre para Criar e misturar ritmos . Mas não tenho vontade de transfigurar o que acontece aqui. Não tenho vontade de mostrar um cartão postal do Brasil e fingir que está tudo bem. Para cantar o céu azul e as garotas de biquíni, deixo isso para os outros. Estou muito consciente de como a população no Brasil está lutando. Como o humor mudou. Como a política se afasta das pessoas. Como o racismo se inflama de novo. Como nosso país está perdendo seu sorriso. Quando eu descrevo isso, não faço isso agressivamente. Eu faço isso com uma grande dor no coração.

 

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Escrito por

Jornalista, assessora de imprensa, escritora e produtora cultural, Flora vive de palavra e som. Tem foco de pesquisa e atuação em música independente, é integrante da SÊLA, escreve para o site Mulher na Música, comenta discos no canal Um Vlog de Música e nas horas vagas desata amarras sociais.

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