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“Extrapolar formatos, enlouquecer, mas dentro da canção”, Linna Karo

Em cima do palco, Linna Karo é conexão. Fora dele, também. Em qualquer espaço e narrativa que se coloque a cantar, a atriz, cantora e compositora paulistana que abrir diálogo. Construir pontes. Mas também pode ser que ela mande o papo reto e, num som que retoma a teatralidade típica da Lira Paulistana, te coloque contra a parede. Te questione. 

Formada em Artes Cênicas na ECA-USP, Linna Karo vem despontando na cena autoral da capital paulista a partir de uma performance potente que mescla música e teatro. Seu canal de YouTube inclui videos ao vivo e clipes personalizados – como o recente “Eles Nus”, veja abaixo -, que apresentam uma artista ainda em desenvolvimento, mas já bastante madura em suas escolhas criativas.

Talvez pela própria carreira que já construiu até aqui: na faculdade, Linna era a vocalista da banda Faísca, que mesclava um repertório autoral com canções de Itamar Assumpção. Ou então pela sua recente volta a São Paulo – e o abraço apertado que tem dado em tudo e todos que vem junto dela.

“Morava num sítio em Minas Gerais, com parceiro e filha. Quando me separei e voltei para São Paulo, me reconectei comigo mesma e com a cidade. Daí o processo de composição veio numa avalanche”, explica Linna sobre a criação de Aos Mesmos, seu primeiro disco solo, atualmente em fase de produção e com um financiamento coletivo em aberto. “O álbum é claramente um comentário a São Paulo. É ácido, jocoso e filosófico. Às vezes lírico de leve. Todas as canções são muito paulistanas e no geral, irônicas”, completa.

No novo trabalho Linna também explora o uso da palavra, do gesto e da teatralidade, compreendendo uma continuidade na música cênica paulistana. “Mas é também um título aberto e ambíguo, pode ser provocativo para ‘os mesmos de sempre’ e pode ser destinado mais amplamente, a todos os meus pares, meus caros”, diverte a artista.  Aos Mesmos é um disco produzido por Linna em parceria com Dustan Gallas e Bruno Buarque e terá músicas dela e de outros compositores, como André Sztutman, Livia La Gatto, Barulho Max e Juliano Costa.

Pra falar dessas pauliceia desvairada toda, a Mulher na Música trocou um papo com Linna sobre tudo isso e mais um tico. O papo na íntegra você lê a seguir.

Aos Mesmos é um nome interessante para um disco novo: pode ser um convite amigável, pra’quelas pessoas de sempre, como também pode ser uma crítica, também direcionada a pessoas específicas. Pelo que entendi a ideia do álbum é essa, né?

Linna: A ideia do nome Aos Mesmos tem muito a ver com uma inquietação interna, e dessa condição externa de dizer coisas extremamente relevantes na maior velocidade possível, a dificuldade de capturar a atenção atualmente é às vezes sufocante, mas se é a única opção me lanço nesse jogo da prontidão. Ao mesmo tempo, não quero jogar o jogo do emburrecimento, o título é cativante, mas com várias possibilidades de interpretação, a pessoa pode sair do automatismo das coisas prontas, e deitar uma pequena investigação sobre os diferentes significados de “Aos Mesmos”. É de fato dedicado aos pares, é também uma provocação aos mesmo de sempre, é a visão de uma continuidade na música cênica paulistana de Itamar, Arrigo, Mutantes. É um título que se move. É destinado. Quer chegar ao encontro. Não bastava um título substantivo ou adjetivo, não se basta enquanto produto encerrado em si. É movimento, são diversos compositores da cena paulistana, o que temos pra dizer?

No comunicado à imprensa você diz que o disco é resultado de uma reconexão pessoal sua com a cidade de São Paulo. Essa reconexão seria com a cidade em si ou a vida que você retomou por aqui? E neste processo, quais etapas, acontecimentos, mais te fizeram refletir e consequentemente, compor?

Linna: A reconexão é com a cidade em si. Sou muito paulistana de formação, mas com 10 anos saí de São Paulo e morei no interior, no Nordeste, uma cidade a cada ano, e voltei com 18. Com 24, fui pro mato. Fui ser mãe, foi uma imersão. Sabe quando você fica um longo tempo de olho fechado, intencionalmente, e quando você abre, a imagem do mundo enche seus olhos de um jeito virgem? Minha percepção de São Paulo tinha um misto de distanciamento e apaixonamento. Reinventei minha estética paulistana, o jogo de palavras afiado, o humor ácido, Itamar, Mutantes, a loucura jovem, a roupa performática. É desde então uma pesquisa minha como atriz, eu interpreto conscientemente essa personagem paulistana, forçando os limites, até porque São Paulo é essa monstra cosmopolita, posso vestir mil roupagens, inclusive emito mil sotaques no meu dia-a-dia.

Quais as principais influências artísticas a gente pode esperar sentir – ou conectar – com o novo disco? O que ele traz de momentos anteriores da sua carreira?

Linna: As influências são Os Mutantes, minha paixão de infância, todas as fantasias, todo o frescor, toda ironia despretensiosa, a dramaticidade, o fuzz, a conexão de banda, a loucura. Daí entra Itamar Assumpção, grande pesquisa de faculdade, quando tive uma banda que fazia o repertório dele, explorar novos formatos de canção, brincar com os tempos, muitas convenções, jogo de palavras, Leminski, universo narrativo, personagem. Posso dizer também que lá no fundo em mim moram Kurt Cobain e Jim Morrison, alucinei na adolescência, essa loucura performática existe mim. Sou viciada em fazer show. E por fim, diferente talvez de todos esses, sou de fato uma atriz que pesquisa texto e gesto, não é um show de música o que faço, não sei dizer o que é, tem muitas cenas.

É seu primeiro financiamento coletivo, certo? Como tá sendo essa experiência de abrir o projeto dessa forma, pluralizá-lo entre tantas pessoas?

Linna: É incrível mostrar o trabalho para tantas pessoas, os feedbacks são os melhores. As críticas das pessoas de direita nesse momento de eleição também são um incômodo que eles manifestam e que desse lado vem como uma confirmação de que está tudo certo.  Outra coisa que gosto muito de confirmar, porque já era uma pesquisa desde o início, é perceber como o trabalho é acessível e gostável em termos de canção. Minha pesquisa era extrapolar alguns formatos, enlouquecer, mas dentro da canção. Não é uma música experimental, mas são canções que trazem alguns experimentalismos dentro de si. E isso parte de uma vontade minha de não me descolar do mundo, de querer de fato me comunicar com as pessoas, falar a língua dela, e no momento que elas estiverem envolvidas, gerar os estranhamentos. Acho isso muito potente.

Conferindo seus vídeos, notei que sua presença de palco traz muito da sua formação em Artes Cênicas, dos seus estudos em performance. Neste sentido, como você sente a importância de uma presença de palco elaborada num show musical? Tem alguma diferença em relação a uma apresentação teatral, por exemplo?

Linna: Presença de palco para mim é algo inevitável. Se estamos presentes no palco não temos outra opção, se você está sem vida em palco, escondido atrás do instrumento, essa é uma opção, e todas as opções são válidas. Eu vejo riqueza nas variações, se você está disponível, pode ter um momento sem vida e um momento explosivo em seguida. Isso é um corpo-mente flexível e tônico ao mesmo, que se deixa atravessar pelo entorno. Para o público salta uma riqueza de imagens, ideias, gestos, possibilidades de narrativas que ele pode construir. Torna o acontecimento artístico muito mais significativo. Não me cabe a caixinha “show de música”, porque não é. É uma cena. Agora como eu sinto a diferença em uma apresentação teatral: é um grande desafio casas de show mais dispersas, barulhentas, baladas. Sinto que em um show eu tenho muito mais a provocação do público, a liberdade do público, e isso eu amo. É incrível instaurar a concentração de um teatro em uma balada. Você tem certeza que as pessoas estão atentas porque querem, e não porque precisam ficar em silêncio. E além de tudo elas respondem quando você fala com elas, diferente do teatro que costuma ficar aquele túmulo. E elas dançam, é maravilhoso. No entanto eu gosto muito do palco de teatro, porque o recurso da iluminação é muito importante pra dramaturgia que eu penso, e os espaço do palco é ideal pra movimentação. Inclusive com chão de madeira ou linóleo que permitem maior exploração do corpo. Mas aí me entristece um pouco o lugar da platéia, sentado, quietinho… Ainda não sei bem como resolver, são poucos os lugares com estrutura boa mas que o público esteja de pé com liberdade. Esses lugares também trazem um problema além (para os meus ideais), que é o nível mais alto do palco, e a disposição frontal. Enfim, não acho que exista um formato perfeito, não mesmo. Qualquer formato é limitador de algum jeito. Por isso a presença é a única via, é lidar inteiramente e criativamente com o espaço que se tem. Pode ser incrível estar apertadinho, com o guitarrista e o baixista de cada lado, e você mal consegue mexer os braços. As soluções que se encontram a partir disso revelam pro público um artista em estado de jogo.

Pra finalizar, o que anda saindo dos seus fones de ouvido atualmente?

Linna: Adoro Negro Leo, acho ele um gênio genuíno. Ele é true. Isso é raro. O show dele é pedrada na têmpora. A pesquisa de linguagem é real e pessoal. Aprendo muito. Bom, eu amo Letrux, me afino muito com a pesquisa atriz performer. Também sou fã do Thiago Nassif, guitarra letras eletrônicos que soltam tintas numa tela. Gostei do disco novo do Bolerinho, rola essa aproximação da sonoridade teatralidade Mutantes. Gosto do trabalho da Luiza Lian, da Maria Beraldo, da Quartabê. Sou bem ligada na Lívia Nestrovski, admiro muito sua profundidade com a voz, inclusive ela que me indicou minha atual professora de canto.

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