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“Música tem valor porque preenche o coração”: Rita Oliva, ou PAPISA, publica manifesto sobre a importância da produção musical e artística

“Música tem valor exatamente pelo fato de não ser um produto concreto, material, mas sim um meio, um canal para que algo maior do que a gente se manifeste”. Em tempos de precariedade democrática no país, ameaças aos direitos humanos e negligência à produção artística, a multi instrumentista, cantora e compositora Rita Oliva, à frente do projeto PAPISA, escreveu um manifesto autoral, delicado e necessário sobre a importância fundamental do fazer artístico e musical.

Publicado com exclusividade Mulher na Música, confira abaixo o “Manifesto Musical” na íntegra e também as informações do próximo show da artista, que acontece nesse dia 26 de outubro, véspera do segundo turno eleitoral, no Sesc Santana, em São Paulo, às 19h, com entrada gratuita. Convidando as artistas Luna França e Laura Wrona, que integram sua banda, para apresentar canções de seus respectivos projetos solo, o show pretende ser um sopro de autoconsciência, reflexão e conexão com a natureza feminina e ancestral.

 

Manifesto Musical – por Rita Oliva

Para você que acha que música não tem ‘valor’ porque não é ‘trabalho’

“Apesar do equívoco enorme nesse pensamento (que infelizmente existe), o que quero dizer é que o valor da música não está no fato de ser trabalho ou não. Pra mim, música tem valor porque expõe nossa natureza íntima e conecta as pessoas. Está muito além de trabalho.

 

Música tem valor porque preenche o coração. Música tem valor porque une as pessoas em comunidade, assim como alguns tipos de trabalho, mas não todos. Música tem valor porque coloca a gente em contato com um universo mágico que é o sentir, que é o se colocar vulnerável, que é o de se abrir em conexão com os outros. Música tem valor porque pode ampliar a percepção e nos fazer enxergar outros ângulos. Música tem valor exatamente pelo fato de não ser um produto concreto, material, mas sim um meio, um canal para que algo maior do que a gente se manifeste.

 

Me sinto extremamente privilegiada por poder ser canal para a música. Por poder manifestar o que sinto pelo som, poder me comunicar com outras pessoas, e assim, também me tornar mais receptiva para o que elas sentem e dizem. Desta forma, a música me movimenta pelo amor. Sim, é amor que me move. E é amor que desejo para todos que não conseguem ver ou sentir isto.

 

Como diz o Lama Padma Samten, a compaixão surge da lucidez. As duas coisas caminham juntas. A partir disso, entendo que quando conseguimos enxergar mais adiante das realidades criadas por nós mesmas, além do que percebemos como nosso ambiente, nossas relações, nossos conceitos, quando conseguimos olhar além da gente mesma, temos clareza o suficiente para não querermos agredir ninguém. E desse estado lúcido brota a vontade de que todos partilhem desse sentimento que transborda com sutileza.

 

Também entendo que, por ser este um estado tão sutil, é preciso uma intenção bem clara e definida para não nos deixar levar pelas marés da emoções e pensamentos que nos habitam. Eu treino todos os dias, e muitas vezes falho. Mas é esse o caminho que escolho para mim, e a música faz e sempre fará parte dele, porque o reforça e o sustenta.

 

Para você que acha que músicos ‘não trabalham’

Sabe aquela coisa que você coloca no som do seu carro para ouvir, que sai no seu fone de ouvido quando você corre ou vai à academia, que você coloca pro seu nenê dormir, que te faz dançar, aquilo que te embala quando você canta na igreja, ou que tocou no seu casamento? Tem uma pessoa de carne e osso que passou horas e horas da sua vida estudando, pensando, criando, lapidando, testando e lidando com diversos fatores (de ordem emotiva e prática, diga-se de passagem) para que essa música chegasse até o seu celular, seu rádio, sua caixa de som, sua vida.

 

Por isso, dizer que músicos não trabalham é no mínimo, injusto. Além de ser uma frase ingrata. Trabalhamos, e muito. Pode ser que muitas das pessoas que trabalham com música não ganhem tanto dinheiro quanto outros profissionais. Da forma como enxergo a vida, isso está longe de ser um motivo de desvalorização mas sim um desafio diário. Tanto no sentido de educar as pessoas sobre o valor da arte, da música, e portanto do sensível, do subjetivo, quanto no sentido de gerar renda a partir da atividade musical. E isso significa converter a quantidade enorme de tempo e energia direcionados para o fazer musical em dinheiro – que também é energia, para que o ciclo se perpetue.

 

Portanto, se você se identifica com algum dos dois pensamentos acima, repense. Vivemos em uma sociedade doente, em que as pessoas sofrem de depressão e ansiedade, confinadas em seus mundos limitados. Precisamos expandir nossas realidades e começar a ver as coisas de outra forma, e a arte é um instrumento poderoso nessa direção.

 

Sou eternamente grata a todos os professores e professoras que passaram pelo meu caminho e pela oportunidade de fazer música nessa existência curta. Deixo aqui meu profundo respeito e admiração por todas as pessoas que seguem trabalhando com música e arte, mas acima disso, se comunicando, ensinando, aprendendo e se conectando com outras através do som. Vamos juntas.”

 

Assista PAPISA ao vivo nesse sábado, 27/10, no Sesc Santana. Confira o serviço completo:

 

SERVIÇO – PAPISA convida Luna França e Laura Wrona

Data: 27/10, sábado

Local: Sesc Santana – Av. Luiz Dumont Villares, 579, Santana, São Paulo

Horário: 19h

Valor: entrada gratuita

 

OUÇA PAPISA:

Site oficial: papisabrisa.com

Spotify: https://goo.gl/yrjG75

Soundcloud: https://goo.gl/4n54Ng

Youtube: https://goo.gl/79FRNc

facebook.com/papisabrisa/

Instagram: @papisabrisa

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