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Ao som dos tambores, música, história e luta se mesclam no coletivo Cores de Aidê

Ao som dos tambores, música, história e luta se mesclam no coletivo Cores de Aidê

“Somos Aidê, todas Aidê, filhas de Aidê, cores de Aidê”. Cantar a trajetória da figura mitológica dos cânticos de capoeira do Brasil Aidê, mulher negra africana traficada no período escravocrata do país, e cuja proposta de se casar com seu “senhor” em troca de liberdade foi recusada (conta a história que ela fugiu para o quilombo de Camugerê e encontrou, ali, o amor), é o motor que impulsiona o coletivo musical Cores de Aidê. Formado em Florianópolis, SC, o projeto idealizado por Sarah Massí une percussão e dança para promover a potência artística e política do samba-reggae, se configurando hoje como um dos mais relevantes grupos de difusão da cultura afro-brasileira do Sul do país.

Ao lado de Sarah (caixa e timbal), Be Sodré (repique), Carla (surdo fundo), Laila (surdo fundo), Nattana (surdo contra), Nine (surdo marcação), Cris (xerequê), Dandara (voz e repique), Cauane (voz e surdo marcação) e Fernanda (dança). O coletivo, que luta pela liberdade de ser quem se é e para que mais mulheres ocupem os espaços que desejam, lançou recentemente o disco “Quem é essa mulher?”, homenagem e resgate da memória de Aidê. Em entrevista exclusiva ao Mulher na Música, a cantora e percussionista Cauane Maia fala sobre racismo, machismo, lesbofobia, patriarcado, música, cultura afro descendente e luta. Confira a conversa na íntegra abaixo:

O objetivo de vocês é influenciar mulheres a ocupar o espaço que desejam, utilizando letras sobre feminismo, cultura afro-brasileira, a história do samba reggae (ritmo confundido com “axé music”). Como toda essa estratégia é aceita em um país tão preconceituoso ?
O Brasil foi o último país das Américas a abolir a escravidão, cujo sistema escravocrata vigorou por mais de 300 anos. Depois do racismo científico do século XIX, o país se amparou no ideal de branqueamento, no mito da democracia racial e na fetichização da mestiçagem. Quando o samba-reggae surge, através dos blocos afros de Salvador-BA, maior cidade negra fora do continente africano, entre a década de 1970/80, para falar de um “mundo negro”, ele trás o protagonismo, a estética, o conhecimento, os ritos e mitos, a corporeidade da população negra, que é sistematicamente negligenciada. A potência desse ritmo reside no seu caráter político, social e artístico, que transgride, em essência, o status quo. No momento que Cores de Aidê assume o samba-reggae como linguagem artística, há um comprometimento e respeito com o seu legado e trajetória. E essa escolha também foi sedimentando a identidade das Cores de Aidê, que estabeleceu o combate ao racismo, as violências de gênero e relações de dominação como premissa básica para tocar os tambores, assumir os microfones e subir aos palcos. Mais que aceitação, hoje há uma identificação com o que propomos nos palcos e espaços que atuamos. Antes de mais nada, somos também essas mulheres que cantamos e contamos nas composições. Nossas existências são atravessadas por construções sociais que muitas vezes nos aprisionam, como o racismo, machismo, lesbofobia, patriarcado, por exemplo. E é por meio da arte e da coletividade que, em grande medida, também vamos nos libertando.

O grupo é presença certa nos eventos de  cultura afro e feminismo de Santa Catarina. Qual é a responsabilidade de levar essa força a todas mulheres e a driblar a fama de que só homens sabem carregar instrumentos de percussão? 
É proposital também ocupar a percussão, hegemonicamente masculinizada. E, assim como a Banda Didá, que nos inspira, criamos um espaço de aprendizagem e criação musical feito por mulheres, respeitando a nossa corporeidade. A lógica da força relacionada ao masculino e fragilidade ao feminino fica abalada quando nos apresentamos, e isso é importante para questionar os lugares estabelecidos com base no gênero.

É mais frequente encontrarmos grupos de samba-reggae na Bahia, como Olodum, Timbalada, Margareth Menezes. Como foi a escolha para levar o ritmo ao sul do país? Vocês encontram barreiras para difundir a cultura afro-brasileira na região?
A escolha do ritmo foi fruto de um sonho de infância da Sarah Massí, que se apaixonou por um álbum do Olodum, lançado na década de 1990, e em 2015 assumiu, em conjunto com outras mulheres, o compromisso de tornar real esse objetivo. É interessante pensar que em 2015 o samba-reggae já não tinha tanta difusão no sul do país, como teve na década de 90. Mas, ainda assim, a retomada desse ritmo teve grande aceitação. As barreiras ainda existem, desde a compra dos instrumentos, figurinos e equipamentos até a logística de deslocamento para os eventos. Além dessas questões de ordem prática, há ainda muito o que fazer para melhorar a valorização da cultura popular, sobretudo dos grupos formados por mulheres, que ainda esbarram no machismo. Há muito profissionalismo no que nos propomos a fazer, desde a construção musical, cênica e do repertório, até as pesquisas sobre temas que abordamos. Todas as integrantes possuem carreiras paralelas à Banda Cores de Aidê e cada uma traz consigo seus aprendizados e, como se não bastasse, ainda criam outros espaços de integração, troca e aprendizagem coletiva. Mas conciliar essas diversas jornadas torna-se uma barreira, ao passo que, também, é reflexo de outra: não poder viver da arte, num país em que cada vez mais se desvalorizam os artistas e a cultura assume um caráter supérfluo.

Cores de Aidê por Toia Oliveira

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Agenda:

23 de Fevereiro – São José (SC)
28º Destaques da Raça Negra
Abertura: 14h
Show Cores de Aidê: 17h30
Endereço: Rua Doutor Constâncio Krummel, 1894 – Praia Comprida
Ingressos: R$ 20,00
Venda pelo telefone (48) 98424-0317
Classificação: livre
Capacidade: 1000 pessoas
Outras atrações: Beth Moreno e Convidados 

* Em breve o grupo anunciará as atividades no Carnaval 2019.


 

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Escrito por

Jornalista, assessora de imprensa, escritora e produtora cultural, Flora vive de palavra e som. Tem foco de pesquisa e atuação em música independente, é integrante da agência SÊLA, escreve para o site Mulher na Música, comenta discos no canal Um Vlog de Música e nas horas vagas desata amarras sociais.

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