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Ouça o EP de estreia da banda queercore Hayz: “Não Estamos Mais em Casa”

Ouça o EP de estreia da banda queercore Hayz: “Não Estamos Mais em Casa”

Entrevista e texto: Carime Elmor

Era sábado de carnaval quando cheguei ao meio-dia no ensaio da Hayz, em um estúdio no Barra Funda. Tocavam não somente as faixas do primeiro disco lançado hoje, “Não Estamos mais em Casa”, mas já começavam a ensaiar uma canção inédita, que estará no setlist dos shows que farão nos próximos meses. A bateria furiosa de Roberta Bergami, com o chimbal posicionado bem acima da caixa, fez com que ao final do ensaio ela jogasse várias baquetas quebradas no cesto mais próximo, contando alto: “Um, dois, três, quatro, cinco pares se foram hoje”.

Josie e Roberta se conheceram por correspondência, na época em que se descobria bandas trocando cartas. “Josie Lucas, do Gritos Aflitos”, era o destinatário de Roberta. As duas tinham uma fanzine, e Roberta, que toca bateria desde os 16 anos, escreveu pedindo as demos da primeira banda de Josie, por volta dos anos 1996/97. Após a Gritos Aflitos, Josie conta que tocou na Cosmogonia, e no início dos anos 2000 passou a ser integrante da Sundae, até que em 2007 foi tocar na Dominatrix. Josie e Bruna se conheceram quando a banda foi para Juiz de Fora, MG, tocar no Festival Mulheres no Volante, que em 2017 completou 10 anos, e é organizado pela baixista.

A Hayz nasceu há menos de um ano, e escolheram o 8 de março, dia de luta feminista, para lançarem o primeiro EP, gravado em Janeiro, em apenas 7 horas de estúdio. “Dorothy”, segunda faixa do disco, já havia sido escrita por Josie em momento anterior à banda, e acabou sendo o fio condutor para que definissem uma estética musical para o projeto, que tem como principal referência a Team Dresch, banda de Punk Rock norte americana.

Anteriormente, no início dos anos 2000, Roberta havia sido baterista da Pulso e da La Paliza, Bruna tocava guitarra na Big Hole, em 2001, e anos mais tarde na Top Surprise, duas bandas mineiras. Já em São Paulo, foi guitarrista da Santa Claus. As três estavam em momentos muito parecidos quando formaram a Hayz, todas há pelo menos cinco anos sem tocar. E, pela primeira vez, Josie e Bruna tornaram-se vocalistas, acompanhando a ideia dos vocais sobrepostos de bandas como Longstocking, Hazel e Third Sex, citadas como influência para o som.


Arte da capa: Jorge Kuriki

“Não Estamos Mais Em Casa”, EP composto por seis faixas, vem de um processo muito particular de cada uma delas, reforçado pelo tumultuado momento político do Brasil. “Tem a ver com desconforto. Em não nos sentirmos bem em determinada situação. Mas serve também para o momento do país. Acho que todo mundo está desiludido. Dá essa ideia de que precisamos nos organizar, colocar tudo de volta no lugar e ter a certeza do que precisamos fazer. Está todo mundo meio perdido ainda”, explica Josie. Ao que Bruna complementa: “A gente estava vivendo estas angústias, e a situação do país também foi caminhando para esse estado atual. Dessa forma, as músicas foram ficando com um tom um pouco mais político. Elas ficaram mais pesadas, e isso tem a ver até com as novas que ainda não estão neste primeiro registro”.

“Dorothy” soa como uma resposta para a música de mesmo nome da norte-americana Alkaline Trio, porém Josie explica que é mais um diálogo, uma conversa com a letra anterior. “É pensar uma outra possibilidade para a história da mina que não estava sendo contada ali”. “Kings” fala sobre o machismo na música e assim como “Pax”, são as mais Hardcore, estética que foge ao que a banda tem feito hoje. “Apodrecendo” e “Plena”, primeira e última track respectivamente, são mais recentes, e delineiam, mesmo que inconscientemente, uma narrativa para o álbum. Enquanto a primeira fala sobre escolhas erradas e dias ruins nos quais nos afundamos, descritas pelas palavras pouco usuais de Josie, a última parece ser o suspiro de uma mulher, que enfrenta as dificuldades do dia-a-dia, como “as duas horas de metrô até o trabalho”, com um olhar de resistência. “Plena é uma reação. Depois de passar por todo caos, ainda há resistência. A mulher está encontrando uma saída no disco”, reflete Bruna.

Hayz se auto-intitula queercore. “Eu acho que a gente pôs esse rótulo porque todo mundo é sapatão e toca hardcore”, define Josie, dizendo que as referências que as rodeiam estão no universo de bandas punks, lésbicas e feministas. Artistas do Chainsaw Records, gravadora independente dirigida por Donna Dresch, bem como bandas do Kill Rock Stars (Bikini Kill, Sleater-Kinney) as influenciam na sonoridade, mixagem e escolhas de timbres. “Excuse 17, da Carrie Brownstein, foi a primeira banda que a gente parou e pensou: E se a gente fizesse alguma coisa assim? É punk, feito por uma mina, é bonito e tosco ao mesmo tempo. E a gente foi nessa linha”. O disco foi gravado no estúdio Papiris, em São Paulo, e mixado e masterizado por Caio Monfort.

Buscando compreender a pesquisa particular de cada uma pelo som de seu próprio instrumento na Hayz, perguntei uma a uma quais musicistas admiram e tentam absorver um pouco para si. O disco gravado ao vivo deixa imperceptível a impressão de que tocam há pouco tempo juntas. A ideia foi fazer exatamente como nos ensaios e shows: sem dobras de guitarra e voz. Para além da admiração unânime que as três têm pela sonoridade da Team Dresh, que acaba de anunciar a volta da banda, Roberta, Josie e Bruna não tem somente o Hardcore e o Queercore como repertório. Josie, inclusive, é fã da cantora e compositora neozelandesa Lorde. “Na verdade, minha cantora favorita da vida é a Nina Simone, mas para cantar rock eu gosto da Kaia Wilson [Team Dresch]”.

Roberta Bergami, bateria: “A Débora Biana [Dominatrix] sempre foi uma inspiração, mesmo quando eu ainda nem tocava bateria direito. E agora tem muitas bateristas na cena, como a Letícia Figueiredo [Bioma] que é incrível. A Fernanda Terra [Nervosa / Food 4 Life / Feya], é maravilhosa, uma baterista profissional. E na gringa tem bateristas fodas, como a Melissa York [Team Dresch], e a STS [Cadallaca] uma das melhores sempre”. Além disso, Roberta cita a Cindy Blackman, baterista do Lenny Kravitz como referência.

Bruna Provazi, baixo: “Eu sempre toquei guitarra em bandas punks, na Top Surprise tinha o noise, então a gente usava muitos pedais, mesmo na Santa Claus, que era eletrônica, eu usava efeitos. Quando eu fui para o baixo, fiquei um pouco sem referência, até porque minha banda preferida é a Sleater-Kinney, que não tem baixista. Mas quando a Josie me chamou, eu pensei que queria muito voltar a tocar, ainda com uma mina que eu admiro. E eu não queria ficar apenas reproduzindo o que a guitarra da Josie fazia, então peguei alguns métodos que já usava na minha guitarra, e fui colocando no baixo”. Como referência atualmente, ela tem a baixista Jenny Lee, do Warpaint e também a Carla Boregas, do Rakta, além da Jody Bleyle [Team Dresch].

Josie Lucas, guitarra: A Donna Dresch [Team Dresch] é a minha guitarrista favorita, e eu também gosto da Donna Kether [Sisters MindTrap], que é brasileira. Tem muita guitarrista legal agora. A Célia Regina do Miêta, eu gosto, e também a Marianne Crestani [Bloody Mary Una Chica Band / As Mercenárias / Human Trash]”. Seu pedal preferido é o Marshall ShredMaster, fabricado na década de 1990, com efeito de distorção.


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