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Conversamos com LaBaq sobre seu novo disco, Lux

Conversamos com LaBaq sobre seu novo disco, Lux

Breu total. Ouve-se um som e algo desperta. É uma luz. Ou como o nome do álbum anuncia, uma Lux. Assim, iluminado e expandido, o novo disco de LaBaq surge como uma lanterna, isto é, um farol: aquele que cada pessoa leva dentro de si.

Recém lançado, Lux será a base do repertório de um show especial que a cantora paulista apresenta na sexta-feira, 12 de Abril, no Sesc Pompeia, às 21h. É um novo trabalho, para uma nova fase, na qual a artista que despontou com seu debut Voa (2016), segue pairando sobre um pop experimental e ousado, timbrado de eletrônico.

Em entrevista ao Mulher na Música, a cantautora e musicista trocou uma ideia com Ana Larousse sobre processos de composição, sua estreia como produtora, a vida de viajante e outras piras a mais. Leia o papo completo a seguir:

Como foi o processo de gravação do Lux? Quais as maiores diferenças entre ele e Voa em termos de produção?

A gravação em si foi fluindo meio que junto à produção, tem coisas que gravei testando e ficaram assim, primeiro take mesmo. Vozes e guitarras eu gravei na Gargolândia, estúdio incrivelmente equipado que fica em uma fazenda animal em Alambari-SP. Como todo o restante veio de meios eletrônicos (por mais que sejam sons muitas vezes orgânicos), eu queria que esses elementos tivessem esse calor, essas texturas, por mais que muitas vezes entrem mil camadas de efeitos que já deixam distantes do real de novo. O Voa eu co-produzi com o Michi Ruzitschka, a gente fez todos os arranjos lado a lado, mixamos juntos também, só nos separamos em edição e master. O Voa tinha a mão do Michi guiando ali, por caminhos que eu gostava muito e outros que eu sugeria. Já o Lux foi uma eterna busca por não ir pelos meus caminhos mais cômodos e óbvios, em termos de composição e de produção. O Voa, por mais que essa alma ‘weirdo’ já existisse em mim, tem um pouquinho desse medo de ser estranho demais. O Lux é assumidasso, estranho mesmo e nem aí pra nada.

Você gravou o disco todo sozinha. Produziu, tocou, gravou, compôs, cantou. O que essa solidão toda do processo trouxe ao trabalho, tanto nas composições quanto nas escolhas de instrumentação?

Como falei, gravei esses elementos na Gargolândia e tem algumas participações também, que não foram gravadas por mim. De resto foi tudo sim. Foi maluco, não vou mentir. Mil vezes eu me encontrava ensimesmada demais, muito dentro de mim mesma, precisava de opiniões de alguns amigos: o que estava saindo ali, eu enviava para dois ou três que também se auto-produzem. Sei que entenderiam o drama e a linguagem.  Acho que eu amarrei minha linha de pensamento sempre com o show também, então produzindo eu já imaginava os silêncios que eu queria aqui e ali. Ter abraçado o show solo no último ano me fez também entender de outra forma a produção. Sobre composição, meu processo de compor é solitariozíssimo. Embora eu pire na ideia, consigo contar em uma mão as pessoas que foram minhas parceiras na vida. Eu tinha uma lista de temas, de coisas que eu queria muito falar sobre, aí às vezes vinham frases que eu anotava para construir depois, sentava no computador e fazia qualquer doiderinha com um beat ou um synth e deixava fluir a melodia que fosse. Duas ali nasceram canção de guitarra no colo, “Vento” e “Infinita”, o restante foi desconstruindo minhas manias e fórmulas de compor de antes.

O Voa, por mais que essa alma ‘weirdo’ já existisse em mim, tem um pouquinho desse medo de ser estranho demais. O Lux é assumidasso, estranho mesmo e nem aí pra nada.

LaBaq por Laís Aranha

Nos últimos dois anos, você rodou (sozinha!) por mais de 15 países se apresentando. Esses processos longos de estrada, de proximidades efêmeras a culturas muito diferentes e pouca casa contribuíram de que forma para a elaboração do conceito do Lux? O disco fala muito de ar. Estar no ar é estar longe do chão, da terra, das raízes. Essa associação faz sentido pra ti?

Estar em tour tão intensamente me alimenta, criativamente falando agora. É inevitável passar por tantos lugares e não traçar paralelos com o lugar que a gente vive. O Lux quer evocar uma luz nossa, trazer amor e coragem, quer também ser compreendido como um negócio que tá incomodado, saca? Não importa qual a língua de quem tá ouvindo, queria traduzir meus incômodos, medos, angústias, alegrias, amores, tudo ali naquelas mil atmosferas. Estar perto das pessoas para as quais eu quero falar, mas que não falam a mesma língua que eu (literal e não literalmente), me ajuda a entender como a gente pode se comunicar. Eu me liguei no Voa que os elementos que eu uso pra compor são ar e terra. Nunca falo de mar, tenho medo dele. Fogo é meu elemento da vida, mas o ar parece que me leva. Meus pesadelos são com ondas gigantes e essa coisa de ficar sem ar me dá muita angústia. Talvez respirar tranquila seja uma das sensações mais lindas, pra mim. Estar longe do chão não é tanto a minha pira, acho que é mais estar entre chão e ar e não ter muita vontade de ter raízes muito profundas em lugar nenhum por agora.

Lux é não somente seu primeiro trabalho autoral como produtora como também teu primeiro trabalho como produtora! Como é estrear este ofício, já de forma tão grande, num lançamento importante para a tua carreira?

Eu me tremo toda só de pensar, viu? ‘Brinks’, mas é verdade. Tentei não deixar que isso venha com esse peso todo pra não pirar e fui só fazendo. Acho que tá tudo bem, rs.

LaBaq por Laís Aranha

O Lux quer evocar uma luz nossa, trazer amor e coragem, quer também ser compreendido como um negócio que tá incomodado, saca?

Quem te acompanha desde Voa, viu teus dreads caírem, tua estética se aprimorar gigantemente, o azul e rosa darem lugar ao preto e a imagens galácticas, viu você muito mais fora do Brasil do que por aqui e viu uma banda de apoio dando espaço à uma estação de looping. Como você enxerga, agora em Lux, toda essa transformação que aconteceu em ti?

Penso que seja uma coisa que vai estar constantemente em mutação, sabe? Não considero que achei o que eu exatamente queria e agora já era, só seguir a partir daqui. Existe essa inquietação, essa vontade de andar por caminhos que não andei ainda, imageticamente ou musicalmente. É uma eterna busca versus uma adaptação às vontades, necessidades dos momentos. Fogo no rabo mesmo, resumindo.

A escolha de incluir no disco canções em inglês e espanhol vem de uma motivação de investir numa carreira no exterior ou foram resultados espontâneos vindos desse tempo todo na estrada?

As duas coisas, as canções foram nascendo em tempos que passei por outros países e em constante contato com inglês ou espanhol. Por ter vontade de continuar mexendo naqueles mercados ali, deixei que elas ficassem.

Qual foi a parte mais difícil desse processo de produzir um disco inteiro sozinha (e pela primeira vez)?

Acho que sacar se tava tudo bem, essa ou aquela ideia faziam sentido ou era muita pira pro que eu tinha como objetivo deste álbum. Foi divertido compor e arranjar, um pouco mais complexo mixar/masterizar à distância com o Paulo estando em Portugal, mas fluiu bastante, ao meu ver.

Não considero que achei o que eu exatamente queria e agora já era, só seguir a partir daqui. Existe essa inquietação, essa vontade de andar por caminhos que não andei ainda, imageticamente ou musicalmente. É uma eterna busca versus uma adaptação às vontades, necessidades dos momentos. Fogo no rabo mesmo, resumindo.

capa do disco Lux

Você também é conhecida por ser uma das idealizadoras do Festival Sonora e por ter movimentado muito a cena musical feminina. Agora que o Sonora e você tomaram rumos distintos, tem planos de movimentar essa cena novamente como produtora cultural e curadora ou tem outros focos no momento?

O Sonora foi parte importante demais da minha visão do mercado hoje, me fez crescer e amadurecer mil coisas aqui e me fez achar irmãs que pensam como eu, que estão comigo nesse front. E isso é inspirador. O Sonora Soma (Sonora SP) vai passar por umas mudanças e existir com mais segurança, estamos nessa busca de apoios e projetos para editais. Tudo isso entendendo que não é um momento fácil de se mexer com iniciativas feministas e, justamente por isso, não queremos dar passos para trás, pois toda voz que tivermos precisa gritar que existimos. Para já, tô fazendo a curadoria do Projeto Nuas, que estreia dia 5 de Maio no Circo Voador, no Rio, com minas incríveis tomando aquele palco!

Ouvindo o disco a gente consegue perceber que ele já foi pensado para um show solo onde você sozinha com tua guitarra, pedais e estação de loop dá conta de tudo. No entanto, existe vontade de trazer participações aos shows ou é teu momento de solitude mesmo?

Eu quis mesmo desenhar um show solo e minha vontade pra já, pelo menos no próximo ano, é firmar esse show sozinha, essa identidade de estar sozinha em palco, não importa o tamanho dele. Eu sempre quero participações, vejo totalmente possível em um futuro somar uma ou duas pessoas chave pra esse show ficar um pouco mais ‘freak’. Por mais que meus processos sejam bem solitários e eu ame estar em palco só, eu sou totalmente de um coletivo, desde que pensando em uma mesma direção, no caso, artisticamente.


Tem pouquíssimas mulheres produtoras musicais atuando no Brasil (ainda que esse número venha aumentando) e você é uma inspiração para essa geração nesse sentido. O que você gostaria de dizer às garotas que querem explorar essa carreira também? Você poderia deixar um recado a elas?

Aquela coisa que todo mundo diz, de fazer, não importa se você não tem aquele software mara que usam por aí ou o seu controlador seja o teclado do computador, fazer sempre, do jeito que dá. É muito incrível passar por esses processos todos, olhar pra trás e ter orgulho do seu caminho, que nunca vai ser fácil, por mil razões. Tô sempre aberta a conversar com minas que queiram produzir, minas que estejam afim de estar na música e não sabem como, minas afim. Falem comigo no labaqmusic@gmail.com!

Termino com uma pergunta bastante pessoal: como é construir sua vida dentro da estrada, longe de conseguir fincar raízes geográficas ou afetivas? Não é todo mundo que consegue abraçar essa solidão, esse excesso de movimento. O que exige de ti tocar a vida assim?

Eu acho que moldou muito da minha música e da minha personalidade essa coisa de não estar fixa em lugar nenhum há tantos anos. Começo a sentir vontade de rotinas, de ter espaço pra desenvolver os próximos álbuns, de receber amigos em casa pra jantar, essas coisas normais da vida que eu até tenho, mas no meio da correria e inconstância de não ter casa e estar sempre empurrando uma mala. Não reclamo, eu busquei e trabalho muito pra isso e o que eu vejo de resultados desse trabalho todo me satisfaz bastante. Exige abrir mão de estar perto de amigos e família – mas fazer novos amigos e encontrar novas famílias em todo canto. Abrir mão do conforto de casa – mas ter confortáveis experiências em cidades que eu não estaria se não fosse a música e essa abdicação. Abrir mão de estabilidade, mas quem é estável hoje, mesmo tendo casa? Eu me propus a começar a rodar lá em 2011 e não parei mais. Já já deve vir o momento de ter que parar pra respirar e não pensar em horários, logísticas, shows. Pra agora, eu não abro mão dessa estrada por nada.

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Escrito por

Formada em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero, no momento Izabela trabalha como assessora de imprensa musical. Viciada no assunto, consome música o tempo todo, seja em discos, livros, filmes e ingressos. Muitos ingressos. Feminista e fã de Patti Smith, Izabela colabora no Mulher na Música a fim de escrever boas histórias sobre mulheres incríveis, exatamente como você e todas nós.

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