Lendo agora:

Faixa a faixa: Flávia Ellen comenta as músicas do novo álbum, “Desperta”

Faixa a faixa: Flávia Ellen comenta as músicas do novo álbum, “Desperta”

Desperta. Esse é um convite, um aviso e uma súplica especial às mulheres. Olhar para si, encarar a luz e a sombra, entendê-las e aceitá-las. É muito difícil. Um processo de vidas inteiras. Mas é o único caminho.


Assista o teaser 3 de Desperta com exclusividade para o Mulher na Música

O primeiro álbum de Flávia Ellen já está disponível em todas as plataformas digitais. O trabalho tem como mote o verbo Desperta, assim mesmo, no imperativo, processo que todxs passamos em algum momento da vida que – para a mineira – começou há 10 anos junto com as composições do disco.

O trabalho marca o retorno da cantora e compositora com 10 composições autorais entre as sonoridades do pop, blues e mpb. Ouça aqui.

A força e o poder da mulher é pauta do disco da artista, mas o tema também é presente diariamente em sua vida. Além do trabalho musical, Flávia é uma das fundadoras do coletivo Mulheres Criando, vencedor do Prêmio Profissionais da Música 2018 na categoria Projeto Cultural Musical, e também uma das idealizadoras do SONORA – Festival Internacional de Compositoras que já ultrapassa mais de 10 edições realizadas no Brasil e no exterior.

Acompanhe o faixa a faixa escrito pela cantora e compositora. Destacamos três canções:  No Fio da Navalha, com a rapper Tamara Franklin;  Perto, parceria com Larissa Horta e , parceria com Maíra Baldaia.

Transborda

“Transborda” nasceu a partir dos versos de um parceiro, o Rafael Guimarães Tavares da Silva (ou Rafa). Ele havia feito um soneto que tinha “Aquele beijo estala em minha face (…) bate como se o beijo não queimasse”. Eu achei um absurdo de lindo e comecei a música em cima disso. Ela retrata esse sentimento voraz da paixão que existe também entre mulheres, apesar de insistirem em achar que essa postura “ativa” é masculina. Tudo bobagem. Tá aqui dentro de mim bem forte, e quis colocar pra fora. Transbordou.

Flerte

“Flerte” é exatamente seu nome: a descrição de um flerte real que me ocorreu. Com pitadas de fantasia, falei de uma situação que começou no Carnaval. Uma curiosidade sobre a música é que mostrei a letra para uma amiga querida que pontuou um verso, que poderia ser mal interpretado. Ele carregava um resquício de machismo. Admito que realmente passou despercebido e eu o modifiquei assim que percebi a gafe. Outra coisa curiosa é que esse flerte nunca foi pra frente. Hehehe.

Harmônico

Essa é uma música pela qual tenho um carinho especial. Ela foi feita em 2008, é uma das mais antigas do disco. Foi escrita quando eu estava tomada de sentimentos muito fortes. Mesmo assim, nunca havia me sentido tão leve. E “Harmônico” veio traduzir toda essa leveza. Considero ela como uma das músicas mais afetivas, água com açúcar, que traz aquele quentinho gostoso no peito. Parece café com pão de queijo pra mim.

Delicado Abril

É uma das minhas músicas preferidas. Não só do disco, como de tudo que já fiz. Ela tem uma melodia muito bonita, uma letra que carrega muita poesia, algo que eu adoro. É uma música feita para a primeira mulher por quem me apaixonei. Então tem uma ligação afetiva. Uma coisa legal sobre ela é que tocamos em banda desde 2015, mas o Richard Neves (Pato Fu) propôs algo muito novo, com elementos do reggae. Ele foi ousado em mudar tanto assim, mas eu não sou apegada. Achei incrível, forte, trouxe um movimento que não imaginava. Assim que escutei, me lembrei imediatamente da música “O amor não sabe esperar”, do Paralamas (com participação da Marisa Monte). Eu amei.

Janela da alma

“Janela da Alma” é nome de um documentário que vi após indicação de uma amiga. É lindo ver quanta vida um olhar carrega. O nome teve essa influência Mas a música foi inspirada nos olhos de uma artista norte-americana. Na época que a compus, eu estava escutando muita música pop (especialmente Fifth Harmony). Fui captada pelos olhos verdes de Lauren Jauregui, que me transmitia muitos sentimentos. Foi bem coisa de fã mesmo escrever essa música, mas quando escutei o resultado final fiquei muito surpresa. O Richard foi um mágico e colocou um solo no meio que todo mundo achou maravilhoso. Parece algo do Roberto Carlos, agradou bem ao papai (e a mim também!).

Perto

“Perto” é um xodózinho. Foi a primeira parceria que fiz com Larissa Horta, em 2015. Ela me entregou a letra em um ensaio. Não demorou muito eu já devolvi com a música pronta, a banda comprou a ideia e começamos a tocá-la. Acho ela gostosa, bem leve. Considero-a uma das mais maduras do disco exatamente por isso. Uma coisa interessante que aconteceu é que sempre achávamos que faltava algo nela. Fazíamos com vozes, violão, guitarra, piano, bateria e baixo. De repente, em um ensaio, o Chico Amaral (autor de sucessos da banda Skank) fez um improviso. Rolou um deja vu coletivo. Ali a gente soube que a música seria daquela forma. Ficou!

“Nó” é uma das minhas parcerias com a querida Maíra Baldaia. Fizemos ela na época do Projeto Canta Comigo. Maíra chegou pra mim e falou pra escrevermos duas músicas inéditas para o projeto, ao invés de cantar nossas próprias composições. Topei o desafio e ajeitamos Nó e Febre. É uma música que traz muito das semelhanças que nós temos, que é a positividade perante a vida. Basta enxergar os sinais que tudo vai bem.

Insensatez

Mais uma música fruto dos versos do Rafa. Com alguma frequência, lá perto de 2007, nós passávamos um tempo juntos em um dos cafés da cidade, onde ele sempre me mostrava uma poesia. Ele me entregou esses versos e, em 2009 (salvo engano), escrevi a música. Para o disco, ela foi uma das escolhidas para dar um “respiro” do trio de metais. Ao mesmo tempo, é uma das músicas que traz uma guitarra bem marcante e bonita.

No fio da navalha

De todas as músicas do disco, “No fio da navalha” é a única que eu não vivi diretamente. Essa música nasceu das provocações que tive nas aulas de Direito Penal na UFMG. A professora Daniela Marques, que também foi minha orientadora (sim, sou bacharel em Direito!), estava falando sobre a Lei Maria da Penha. Foi a primeira vez que percebi o tanto que a violência contra a mulher mexia comigo. A partir daí, meu radar para essas situações ficou aguçado, nem sempre fazia bem. Anos depois, eu escrevi essa música pra ser um samba. Mas sabia que precisava falar disso no disco novo. Propus à rapper Tamara Franklin, uma rainha da nossa cena, que usasse um gap que deixei na música pra acrescentar algo que era próprio dela. Quando escutei, só arrepiei. As programações eletrônicas são um dos destaques para prestar atenção dessa música.

Desperta

A última música que escrevi para o disco deu nome a ele. Não tive a intenção, mas saiu. “Desperta” é uma música sobre o descobrimento de mim. Perceber como o machismo e a homofobia me oprimiu não foi nada fácil. Mas com coragem eu fui soltando as amarras, desatando os nós que me impediam de ser quem eu sou. Nossa força e as respostas estão dentro de nós. Elas podem ser provocadas por outras pessoas, mas estão aqui dentro. “Bicho solto” é um termo que meu irmão e minha mãe usam para se referirem a mim. Eu adoro e coloquei na música. E tem tudo a ver. A gente tem um lado selvagem que impulsiona a evolução. Eu me sinto assim hoje.

Compartilhe

Deixe um comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado. Os campos obrigatórios são marcados com *

Digite o que você deseja buscar