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Soledad visita o poço de dentro em “Revoada”, seu novo disco solo

Soledad visita o poço de dentro em “Revoada”, seu novo disco solo

Em uma de suas obras mais comentadas, “Poemas aos Homens de Nosso Tempo”, a poeta Hilda Hilst diz assim:

“Ávidos de ter, homens e mulheres caminham pelas ruas.
As amigas sonâmbulas, invadidas de um novo a mais querer,

Se debruçam banais, sobre as vitrines curvas.
Uma pergunta brusca, enquanto tu caminhas pelas ruas.
Te pergunto: E a entranha?
De ti mesma, de um poder que te foi dado
Alguma coisa clara se fez? Ou porque tudo se perdeu
É que procuras nas vitrines curvas, tu mesma,
Possuída de sonho, tu mesma infinita, maga,
Tua aventura de ser, tão esquecida?
Por que não tentas esse poço de dentro
O incomensurável, um passeio veemente pela vida?”

Entranha. Possuída de sonho. Poço de dentro. O incomensurável. Tudo aquilo que a gente sente, a subjetividade que nos compõem e que, mesmo assim, não conseguimos explicar por completo. As sensações e imagens infinitas das quais o mais próximo que podemos chegar é a partir daquilo que criamos. Os nós que desatamos em forma de uma boa conversa entre amigos. Por meio da escrita, música ou poesia, acionando todas essas nossas doses diárias de expressão.

Há quem encontre este espaço num bom livro. Indo ao cinema. Ou escrevendo um diário. Há também quem voe e faça desse movimento algo coletivo e acolhedor, como no caso da cantora Soledad, que lançou recentemente seu novo disco – o segundo da carreira -, Revoada. De traços roqueiros e explosivos, o álbum poderá ser conferido ao vivo nesta próxima quarta-feira, 5 de Junho, no Teatro Cacilda Becker, em São Paulo, de graça, às 21h.

Cearense de Fortaleza, terra da Praia do Futuro, Soledad nos evoca este presente complexo e dilacerante, cujas beiradas vão sendo tragadas pelo ódio muitas vezes inexplicado, mas que segue em frente praticando uma resistência pautada no amor e na recusa de uma volta ao passado.

Em Revoada, o mundo gira de acordo com os sentimentos dos diversos compositores presentes no álbum – Alzíra Espíndola, Alessandra Leão e Xico Sá, Jonas Sá, Negro Leo e Santiago Botero Rodriguez, Junio Barreto, Otto e Bactéria, Giovani Cidreira, Luis Capucho, Vitor Colares e Fernando Catatau -, este último que também é responsável pela produção musical do disco.

“Precisei sair de Fortaleza para vivenciar outros sentimentos e encontrar uma consciência nova do ‘chegar até mim’, me aprofundar nas relações comigo mesma e com a vida coletiva, com o tempo e o meio”, comenta Soledad sobre os sentimentos motriz por trás de Revoada.

Atualmente radicada em São Paulo capital, a cantora também revela a importância da cidade nesta fase de sua carreira, de acordo com trecho retirado do comunicado de imprensa: “Esta cidade me colocou dentro de um espaço/tempo/desejo diferentes. Andar nas ruas, a Casa do Povo, as manifestações, os filmes embebidos de vinho no Cinesesc, as amizades que me abraçaram, o Loki Bicho, o Ocupeacidade, a saudade do mar, de minha mãe… Tudo é um atravessamento poético e se encontra no meu desejo pela música. Revoada é o coletivo de pássaro. É o voo desse bando. Esse disco fala sobre a minha arribação. Sobre voar junto, compreendendo as necessidades coletivas e as nossas relações/necessidades afetivas. sobre a libertação da mulher e de nossos desejos”.

Em entrevista ao Mulher na Música, Soledad reflete ainda mais sobre essas mudanças, suas inspirações, a política em sua arte e outros voos. Ou remetendo à Hilda, novos a mais quereres.

Soledad (foto: Julia Moraes)

Revoada, como você diz no press release, é sua “arribação”. Em que sentido sua mudança de Fortaleza para São Paulo influenciou neste movimento? Além dessa questão, o que mais você colaria na conta deste processo de transformação?

Precisei sair de Fortaleza para vivenciar outros sentimentos e encontrar uma consciência nova do “chegar até mim”, me aprofundar nas relações comigo mesma e com a vida coletiva, com o tempo e o meio. Minha cabeça política, o ser mulher (e nordestina) ganhou uma outra dimensão aqui, houve/há uma expansão disso.

A lista de compositores de Revoada é um prato cheio dos principais nomes que temos atualmente na composição brasileira. Como aconteceu essa seleção de letras? Você que foi atrás das(os) autoras(es) ou elas(es) que te procuraram com as canções?

Eu que fui atrás delxs. O processo de escolha das canções foi bem delicado, houve uma primeira leva que me fez entrar em crise por achar tudo meio paulistano, desisti de todas e reiniciei a pesquisa. Então escolhi outras quinze, datilografei cada uma delas, cortei verso por verso, embaralhei tudo para então reestruturar e ver como se comunicavam, a partir disso fechei as que mandaria para o Fernando [Catatau] e depois as oito que estão no disco.

No seu disco anterior – Soledad (2017) – a gente ouve o Catatau numa guitarra. E agora em Revoada, ele assume a direção musical do disco. Como foi criar e pensar esse trabalho com ele? O que Revoada não teria sem o Catatau?

Fernando me saca bem e é de uma sensibilidade e escuta impressionante. Trocamos algumas referências, músicas e conversas sobre a PI, uma praia de Fortaleza, ou astralidades. Tivemos pouco tempo de pré produção, quando nos encontramos já foi para gravar. Nessas algumas coisas foram surgindo, desde o uso de equipamentos que não são muito comuns em gravação, aos ruídos de 2013. Haja aprendizado. Olhe, não seria REVOADA se Lobis não estivesse junto.

Te acompanho nas redes e vejo que você é envolvida com projetos variados: Bloco Pagu, shows tributo de Gal e Bethania, atividades com o pessoal do Loki Bicho e por aí vai. Acha que essas atividades todas também vem te transformando enquanto artista nesses últimos tempos?

Me transformam no lugar mais profundo da vida. A existência quente de um corpo só é possível diante de outro. Impossível não se contagiar, ainda mais em meios tão potentes e que sublimam a mente. Sempre me sinto agradecida por poder viver esses lugares e essas pessoas.

Uma vez você publicou um vídeo extremamente sensível de sua mãe declarando seu amor por você. Lembro dela chorando e cantando uma música do seu primeiro trabalho. E é recorrente suas citações a respeito dela também. Como você explicaria o efeito da sua mãe sobre sua arte?

Uma mulher que criou quatro filhos sozinha e que transcendeu qualquer sinal de dificuldade em nossas vidas. Que sempre nos falou da importância de sermos sensíveis ao outro sem julgamentos, da revolução que seria ler um poema de Pessoa,  ouvir uma canção de Belchior, ou assumir meus cachos. É impossível não pensar nela a cada vez que me mexo, ela sempre estará em cada pedaço de mim. Pense num ventre potente!

Seu posicionamento político também é algo que fica em evidência. No momento em que vivemos, há quem não se posicione por temer perseguição ou censura. Mas você não, você bate de frente. Este posicionamento declarado vem do seu ofício ou você se coloca antes de tudo como um corpo político?

Não acredito na “emancipação” da arte da política. A arte é política, arte-política, poderiam ser uma palavra só, dado o momento político que vivemos e a necessidade de uma resistência. Sou um corpo político pelas minhas experiências de vida e a maneira que me relaciono, se nego esse corpo, nego minha história. Ficar em cima do muro é uma irresponsabilidade social.

Por último, queria falar de poesia. O que tem lido atualmente? Quais poetas tem te inspirado mais? Qual verso não tem saído da sua cabeça?

Esses dias tenho relido “A Dificuldade de Ser”, do Jean Cocteau e “Um Aprendizado ou o Livro dos Prazeres”, da Clarice Lispector. Sinto que os acontecimentos diários da cena política deste “Brazil” me pediram isso, e também algumas relações. Ambos são livros que puxam, nos atentam e nos provocam para a condição humana, dos desejos e de nossas “lapidações”, de uma existência em um só corpo, porém múltipla.

Para a importância do “estar” com calma e numa escuta ativa,  galgando a compreensão das linguagens todas que nos relacionamos e evocamos dentro de uma sociedade engendrada no patriarcado, num estado não laico e em um falso moralismo quase que estrutural. Todos os dias leio algo de Hilda Hilst e Ana Cristina Cesar, é um vício, um ritual. Waly Salomão também faz bastante em minha vida. E tenho procurado muito a Adília Lopes, uma poeta portuguesa.

Os versos que saem da minha boca espontaneamente quando ando pelas ruas são de um dos meus poemas preferidos de Ana C, “samba-canção”:

“taí, eu fiz tudo pra você gostar,

fui mulher vulgar,

meia-bruxa, meia-fera,

risinho modernista

arranhado na gatganta,

malandra, bicha

bem viada, vândala,

talvez maquiavélica,

e um dia emburrei-me,

vali-me de mesuras,

[…]”

amo

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Escrito por

Formada em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero, no momento Izabela trabalha como assessora de imprensa musical. Viciada no assunto, consome música o tempo todo, seja em discos, livros, filmes e ingressos. Muitos ingressos. Feminista e fã de Patti Smith, Izabela colabora no Mulher na Música a fim de escrever boas histórias sobre mulheres incríveis, exatamente como você e todas nós.

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