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Os recomeços de Uma Sey em seu primeiro EP solo, “Open Sea”

Os recomeços de Uma Sey em seu primeiro EP solo, “Open Sea”

A música como cura, gerando em quem escuta um poder de recomeço, de novos sentidos e sensações. É nesta atmosfera de acolhimento e renovação que a cantautora franco-brasileira Uma Sey estreia seu primeiro EP solo, Open Sea.

Disponível a partir de hoje nas principais plataformas digitais, o trabalho traz cinco faixas autorais de Uma, nas quais os idiomas inglês, português e francês dançam entre si embalados por melodias de tonalidades jazzísticas, bastante influenciadas pela MPB, a música pop europeia contemporânea e outras brisas sonoras respiradas por Uma entre a França e o Brasil.

“Concebi esse EP numa fase de transformações intensa, e de busca de mim mesma”, revela a compositora. “As letras refletem minhas descobertas, minhas dúvidas, minhas dores e êxtases nesses processos de recomeços de ciclos de vida. Além disso, o processo todo de fazer esse EP me segurou em horas sombrias, quando até a perspectiva de sair de casa para fazer compras era o fim do mundo. As músicas foram compostas aos poucos, em diferente épocas dessa fase de transformações e recomeços. São todas viscerais, escritas com meu sangue e minha alma”, relembra Uma.

Produzido entre São Paulo e Paris, Open Sea conta com teclados e guitarra do produtor francês Eliott Hosansky e baixo de Max Darmon, gravados lá na capital francesa. Já as vozes de Uma, a percussão de Raphael Coelho e os backing vocals de Fernanda Brito foram registrados por aqui, na terra da garoa.

“Com certeza foi demorado, mas gosto que o EP foi criado em dois países, como eu. E que tem um pouco dos dois países na produção”, comenta Uma, que nasceu e cresceu em Nice e se mudou para o Brasil em 2013, quando veio com sua primeira banda Anemoan, e desde então por aqui ficou. Com o fim do grupo, Uma foi moldando aos poucos sua sonoridade própria e desenvolvendo-se como artista solo, inspirada por nomes como Céu, Alt-J e Charlotte Gainsbourg, entre outros.

Conversamos com Uma para a Mulher na Música sobre o EP, seus caminhos e sentimentos. A dona do cachorrinho Ziggy nos contou sobre tudo isso e um pouco mais, o papo completo você lê abaixo. Dê o play em Open Sea antes de começar e bonne lecture!

Uma Sey (foto: Filipa Aurelio)

Este é o seu primeiro trabalho solo, certo? Mas não é sua estreia na música. Quando e onde você começou a cantar e quais projetos você já integrou até aqui?

Isso. Sempre gostei de cantar desde pequena e após uma banda de metal gótico (risos) que tive na adolescência, criei o projeto Anemoan em 2012, que era uma banda de indie rock, junto com Tito Chin e Flo Massé, minha irmã, em Paris. Convidados pelo selo paulista Label A, lançamos um primeiro álbum, em 2014, Luz in Disguise, no Brasil, para onde nos mudamos. Fizemos shows nos estados do Rio de Janeiro e São Paulo até 2017. Tínhamos um segundo álbum pronto para gravar, mas nos dissolvemos e eu decidi seguir minha carreira solo.

Open Sea traz letras em três idiomas – francês, português e inglês. Foi uma escolha proposital, de celebração da sua identidade franco-brasileira ou foi uma criação espontânea? Em qual destes idiomas você sente possuir uma maior facilidade de composição e por que? Para você existem particularidades de criação em cada uma dessas línguas?

Sempre escrevi em inglês, pois é minha língua de adoção. Morei dois anos na Inglaterra e me realizo mais nessa língua. O francês herdei do meu pai e o português é a língua da minha mãe, me são emocionalmente carregadas. Então inglês era, naturalmente, minha escolha mais neutra. Mas passei a querer abraçar minhas raízes e tentar escrever nessas línguas, onde antigamente eu travava. O processo foi mais fluido do que eu imaginava! Em francês, sinto que posso brincar mais com sintaxe, imagens, poesia. Umas frases que funcionam em inglês parecem super brega em francês ou no português, então sinto que tem que ter um cuidado extra. Em português brinquei mais com as sonoridades dentro de cada frase e elas parecem até mantras. Já em inglês, minha alma puxa para metáforas. As rimas fluem naturalmente, me sinto mais lírica em inglês (risos).

O EP foi gravado entre Paris e São Paulo, certo? Como foi o processo de produção deste trabalho a partir dessa divisão espacial: dois países, dois estúdios e duas equipes diferentes?

Confesso que foi um pouco tenso, mas queria muito trabalhar com o Eliott (francês), como produtor, e com Raphael Coelho (brasileiro), na produção da percussão. Fiz a pré-produção em Paris com Eliott e essa parte foi muito fluida, onde definimos claramente as estruturas e arranjos de cada música. Ter feito a pré-produção de maneira caprichada e fisicamente junta a Eliott fez com que a gravação em dois países fosse possível. Gravamos voz e percussão aqui em São Paulo enquanto em Paris o Eliott gravou guitarra, drum machine, teclados e o Max Darmon, baixo. Gosto de me envolver em cada parte dos processos, inclusive na mixagem e masterização, então foram muuuuuitos e-mails ida e volta, skypes… Com certeza foi demorado, mas gosto que o EP foi criado em dois países como eu, e que tem um pouco dos dois países na produção. Afinal, foi muito interessante, porque envolvendo outras pessoas na hora de gravar vozes e percussão aqui no Brasil, enriqueceu o processo. Mas não sei se faria essa loucura de novo (risos).

Uma Sey (foto: Filipa Aurélio)

Amadurecimento. Emancipação. Liberdade. Open Sea traz temas de autoconhecimento e autoaceitação bem evidentes. Em que sentido este EP te auxiliou em processos pessoais? E artísticos? Ainda que na arte tudo acabe sendo uma coisa só…

Concebi esse EP numa fase de transformações intensas e de busca de mim mesma. Essas faixas fazem simultaneamente parte do processo e do resultado dele. Fiz um trabalho terapêutico que mudou minha vida, que se chama “Voice Dialogue”, onde você explora e aceita as diferentes vozes dentro de você e faz elas dialogarem entre si, para tomar decisões mais conscientes para você. Foi incrivelmente empoderador. As letras refletem minhas descobertas, minhas dúvidas, minhas dores e êxtases nesses processos de recomeços de ciclos de vida. Me permitiram processar emoções. Afinal, quando você treina para gravar vozes e canta várias e várias vezes a letra, você passa a mergulhar fundo nas suas emoções, para, aos poucos, ressignificá-las. As letras versam também sobre a necessária desconstrução de padrões herdados das gerações anteriores, além das curas encontradas a partir de estudos do Sagrado Feminino. Além disso, o processo todo de fazer esse EP me segurou em horas sombrias, quando até a perspectiva de sair de casa para fazer compras era o fim do mundo. As músicas foram compostas aos poucos, em diferentes épocas dessa fase de transformações e recomeços. São todas viscerais, escritas com meu sangue e minha alma.

Na miscelânea de referências musicais, quais são aquelas que você apontaria como as principais, as que mais te motivaram – ainda que indiretamente – de ir atrás do seu próprio som?

A primeira referência moderna que vem na mente é Alt-J. Eles tem um identidade musical incrivelmente forte, seja nas batidas, no jeito de cantar, ou no jeito de construir movimentos nas canções, estruturas diferentes e melodias inusitadas. Eles demoraram 5 anos para fazer o primeiro álbum, que eu acho uma obra prima. A Alisson Mosshart, do The Kills e a Letrux, cujas vozes e entregas são sempre fontes de inspiração. Céu também me fascina, com um jeito de cantar próprio, construções melódicas muito interessantes, letras fofas e poéticas, e essa busca de sempre se renovar em cada álbum. Last but not least, Ella Fitzgerald, que admiro tanto, e cuja voz aquece meu coração sempre que precisar, uma mistura de ternura e força incrível, um timbre único, uma interpretação impecável, e um poder de improvisação sem igual. Esses artistas que me inspiraram para achar minha própria identidade musical.

O que mais podemos aguardar de Uma Sey para 2019?

Estou montando um show que quero impactante, visualmente e emocionalmente. Quero que seja uma experiência, uma vivência, começando já início de Julho com show de lançamento na Fau-haus, em São Paulo. Além disso, já tenho ideias de clipes que quero realizar, que provavelmente vão dialogar entre eles para ser quase um curta-metragem musical, uma viagem iniciática, quase xamânica. Os focos vão ser esses, além das oportunidades que o universo sempre providencia.

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Escrito por

Formada em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero, no momento Izabela trabalha como assessora de imprensa musical. Viciada no assunto, consome música o tempo todo, seja em discos, livros, filmes e ingressos. Muitos ingressos. Feminista e fã de Patti Smith, Izabela colabora no Mulher na Música a fim de escrever boas histórias sobre mulheres incríveis, exatamente como você e todas nós.

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