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Mulheres que correm com o fogo (e com o Queer)

Mulheres que correm com o fogo (e com o Queer)

Um entrevista entre a banda mineira Dolores 602 e Fernanda Polse, diretora do clipe Astronauta

A primeira vez que eu ouvi falar da Dolores 602 foi em 2014, em uma apresentação de uma das primeiras  peças da Bacurinhas – coletivo teatral feminista de Belo Horizonte. Uma banda de mulheres em cena, uau! E não em qualquer cena: em uma cena de absoluto e total desbunde, de uma história que estava só começando e que impactaria toda uma categoria artística da cidade. Depois disso eu escutava falar da banda, mas só fui ter um contato mais íntimo quando o amor essa força incontida me trouxe para perto, perto mesmo, delas, literalmente corpo a corpo com uma de suas integrantes, Isabella, minha namorada há alguns bons dezoito meses.

Uma banda de quatro mulheres. Uma banda de quatro mulheres feministas. Uma banda de quatro mulheres feministas e lésbicas. É uma formação importante, urgente, essencial. Mas não é só isso. Dolores é uma banda de mulheres que levam a poesia a sério, a arte a sério e que souberam se reinventar com a chamada dos tempos. Se no início ser uma banda de mulheres lésbicas era mais um detalhe sobre elas – que até então haviam apostado suas fichas em sua voz poética –, hoje isso é motivo de orgulho, espaço conquistado e uma forte voz política. 

A banda de quase dez anos de idade teve características que eu considero essenciais para se desconstruir, gerar mudanças e seguir construindo um trabalho de consistência nesses tempos de tantas mudanças tecnológicas, sociais, artísticas e políticas: resiliência e coragem. Foi preciso desapego, estudo e responsabilidade para entender o que significa ser feminista e lésbica hoje. E juntas e separadas elas estão envolvidas com frentes importantes do orgulho da experiência lés-bi-gay da cidade de Belo Horizonte, como o bloco de carnaval Truck do Desejo e as recém-nascidas sessions musicais na Casa Tina Martins, cujo lançamento está previsto para dia 18 de agosto com temática lésbica.

Isso tudo está mapeado e presente em seu álbum Cartografia, lançado em 2018. Astronauta é a terceira faixa do disco e também a minha preferida. Acho linda e triste. Forte como a redenção de uma chuva leve que vira tempestade. Digna como viver a dimensão da realidade sem negar que ela é dura, que existe melancolia, sem negar a dor. Mas conseguindo abrir uma janela para o infinito em meio ao caos. 

Lembro que em uma de nossas primeiras conversas, o balanço astrológico da banda formada por Débora Ventura, Táskia Ferraz, Camila Menezes e Isabella Figueira me chamou atenção. Aquário, peixes, gêmeos e libra. Basicamente todos os signos de ar e um de água. Eu brinquei que faltava o elemento fogo e acredito que meu inconsciente guardou essa informação preciosa e literalmente resolveu confrontá-las de uma maneira muito carinhosa ao propor o roteiro do clipe de Astronauta. Tudo aconteceu muito rápido, de repente eu tinha tudo aqui na caixola e resolvi soltar a semente. E germinou: elas toparam! O encontro poético de duas artes: eu imagética, elas sonora. Deu groove.

Eu propus então essa dança instável entre luz & sombra, com cenas indoor que fossem esse gesto ínfimo que propõe mudanças para o universo. E cenas outdoor com as quatro brincando com fogo e experimentando a política-poética alquimia do grito em um encontro marcado com sua identidade selvagem – como mulheres que correm com o fogo. 

Em uma entrevista/bate-papo ao Mulher na Música, as quatro contam sobre o clipe novo e suas deliciosas e desafiadoras experiências de viver no mundo hoje:
Meninas, no clipe vocês experimentam novos corpos e um estar no mundo alterado através de pequenos gestos, como tirar o sutiã, soltar a cabeleira, desenhar um bigode e gritar. Como vocês lidam com esses padrões chatos e insistentes impostos às corpas, principalmente às das mulheres?

CAMILA –– bom, você já disse que esses padrões são chatos e insistentes. Eu concordo. São mais que chatos. Por funcionarem como imposições que são às vezes sutis e às vezes ostensivas, visando controlar e restringir o “ser no mundo” das mulheres, são também violentos. Seres humanos são plurais. Isso deveria ser normal, e não motivo de estranhamento. No clipe eu coloco um bigode. Esta cena surgiu quando eu te contei que sonhei que estava no futuro e que cheguei de bicicleta numa casa, usando uma roupa de alfaiataria caqui e um bigode. Era comum nessa época futura as mulheres poderem experimentar algumas coisas que hoje ainda não são comuns, como bigodes. Quando acordei, fui ao espelho desenhar um bigode porque achei que fiquei “gatinha” e até um pouco parecida com o Hélio Flanders! rsrs…

Seres humanos são plurais. Isso deveria ser normal, e não motivo de estranhamento. (Camila Menezes)

TÁSKIA –– Acho que nenhuma de nós se encaixa nesses padrões, pra começar a gente é lesbica, não nos vestimos nos padrões femininos, os cabelos são fora do padrão também e principalmente nas atitudes. Nossas músicas denunciam isso muito bem!

DÉBORA –– Na adolescência eu tinha o cabelo grande. Ele vivia preso, não sabia muito bem o que fazer com ele e o volume dos cachos incomodava, não tava dentro dos padrões, era considerado bagunçado e feio. Daí certa vez fiz um relaxamento químico pra reduzir esse volume, “domar” os cachos. Lembro de chegar na escola e receber muitos, muitos elogios dos colegas: “nossa, como tá maravilhoso seu cabelo, usa ele assim pra sempre! Nossa, você está linda etc etc etc.” Eu não saquei muito bem o que isso significava na época, demorei um tempo pra entender que isso era racismo, preconceito, imposição de um padrão branco cabelo liso. Sei que em pleno 2019 é possível ouvir a expressão “cabelo ruim” para se referir ao cabelo crespo, negro. Entretanto, me orgulha demais e me dá muita esperança ver as crianças e adolescentes, principalmente as mulheres se orgulhando do cabelo, entendendo e assumindo suas identidades e lutando firme na desconstrução de padrões e estereótipos. Soltar a cabeleira é libertador!

BELLA –– Nunca me vi como um corpo dentro dos padrões, especialmente padrões de feminilidade. Quando eu era criança, morando no interior de Minas, perceber isso me trouxe muito sofrimento de não estar correspondendo a uma expectativa que outras pessoas tinham sobre “ser menina”, mas ao mesmo tempo eu não conseguia mudar meu jeito de me vestir, meu jeito de brincar, meu jeito de falar. Com o tempo, e com a mudança pra capital, e com as relações com outros corpos “anormais”  que a cidade me apresentou, comecei a me perceber como um corpo queer e a entender meu corpo como um potência política. Quando eu nego códigos de feminilidade e masculinidade padronizados na sociedade capitalista contemporânea, estou negando também as tecnologias de normalização das identidades sexuais impostas. E pra mim isso é libertador porque me abre um campo extenso pra criação de outras formas de estar no mundo. 

No que vocês querem tacar fogo?

Queremos tacar fogo no sexismo, no racismo, no patriarcado. No preconceito, no julgamento, na desigualdade, na mesquinhez. No fascismo, na politicagem, no puxa-saquismo. Nas fofocas e nas formalidades dos vestidos de casamentos e formaturas.

O clipe foi gravado no bairro Fernão Dias em BH, um bairro que vive um drama de desapropriação em massa. Qual a relação de vocês com esse local e com a cidade como um todo?

DÉBORA ––Vários bairros de BH e outras grandes cidades passam por esse drama da desapropriação, né. Eu nem imagino como deve ser ter que abandonar um lar pra dar lugar ao “progresso”. Eu morei próximo ao Fernão Dias durante muitos anos, mas está mais para um local de passagem pra mim. Belo Horizonte é a cidade que nasci, que sempre morei. Posso morar em outros lugares mas sinto que aqui tenho a minha referência de casa. Gosto do clima, do relevo. Ir ver o pôr do sol em algum lugar alto da cidade dá um respiro no dia, e temos vários lugares pra ver o horizonte da janela. As pessoas são acolhedoras, geralmente. Mas é doido porque é uma cidade que cresce sem ter pra onde mais, parece. A estrutura e logística parecem não acompanhar esse crescimento, principalmente para as pessoas que moram nas periferias e/ou cidades vizinhas.

Também existem muitos padrões a serem quebrados. A tradicional família mineira com suas coisinhas, seu olhar ultrapassado e preconceituoso sobre várias questões. (Débora Ventura)

Camilla, você é uma instrumentista foda, uma compositora foda. Te vejo dedicada e entregue em tudo o que você faz, mas tem um aspecto seu que me encanta muito, que é como você vive a dimensão – digamos – sagrada da música. Você tem um trabalho lindo como regente do coral da casa espírita Olhos da Luz e eu acho incrível como você faz o balanço disso tudo na vida, porque você não divide as coisas, você integra tudo! Na tradição do Kundalini Yoga a gente tem uma premissa que diz que é na vivência do finito que encontramos o infinito. É estando aqui no mundão mesmo, vivendo as diversas e contraditórias realidades que podemos nos encontrar com o infinito. Não é a única forma, mas é uma que eu considero muito consistente. Como você pensa isso? Tipo, como é viver essa experiência transcendental no coral e depois tocar na noite, com suas bandas autorais ou suas diversas GIGs?

CAMILA –– Obrigada! Não me acho foda… Sou uma curiosa e realmente me entrego e me dedico e isso já começa a responder a questão. Houve um tempo em que eu dividia as coisas – acho que todo mundo que começa uma nova vivência, e não digo apenas uma vivência espiritual, tem a tendência de separar muito. Nosso mundo separa muito tudo: ciência e religião, popular e erudito, mulher e homem… Acredito que estamos já no fim dessa era cartesiana de colocar as coisas em caixinhas para poder entendê-las. No meu caso, eu sofria com essa separação: era como se eu tivesse que ser uma pessoa num lugar e outra pessoa noutro lugar. Quando entendi que a única pessoa que me exigia isso era eu mesma, que era melhor eu respeitar minhas escolhas e entender que elas faziam sentido para mim, fui me sentindo cada vez mais inteira e quebrando meu próprio preconceito em dizer que sou espírita. Como você disse, estamos no mundão e é na convivência com as pessoas e nos desafios do dia-a-dia que vamos aprendendo mais sobre nós mesmos.Tocar à noite num bar não contrasta com reger um coral num ambiente de cura quando se tem respeito e se tenta não julgar, apenas viver o momento com a alegria de quem está fazendo o que gosta. O bar, o palco de um festival, assim como a casa espírita, são oportunidades de realização e crescimento para mim e não me cabe julgar o que as pessoas fazem ali, pois todos estamos buscando ser felizes. 

A frase que finaliza a canção diz que “as estrelas não esquecerão”. O que isso significa?

CAMILA –– Essa frase veio de uma conversa com Eliane Gonçalves, a médium da casa Olhos da Luz, em que ela me disse, como estudiosa que é, que tudo o que fazemos gera uma energia que passa a circundar o planeta, uma espécie de memória. Estudiosos chamam essa energia de psicosfera. No momento em que estava compondo a música, falando de se esforçar para superar dificuldades, das boas surpresas que ainda encontraremos no caminho pós tempestade (“outras flores virão”), essa conversa veio à minha mente e fiquei imaginando alguém vendo o planeta Terra de fora dele, como uma astronauta, e pensei que se daqui nós vemos as estrelas, elas também são nossas testemunhas. E por durarem muito mais que nós, elas guardarão essa memória por muito mais tempo. 

Por fim queria que vocês escolhessem uma paleta de cores para o dia que vocês se conheceram e outra para o momento atual. Com que cores vocês se enxergam?

CAMILA –– Talvez tons mais escuros no início e mais definidos e coloridos agora. 

TÁSKIA –– Vermelha, laranja, amarela, roxa.

BELLA –– Acho que quando a gente se conheceu eram cores mais básicas, claras. Agora eu enxergo a gente em tons vibrantes, vermelho, amarelo, roxo e laranja.  E muito brilho, óbvio.

DÉBORA –– Acho que sempre vi cores na Dolores. Tons de vermelho, laranja e roxo. Agora acrescentaria o amarelo e uns brilhos.

Num bate e volta, não vale pensar demais.

O que groova com sal? Pimenta, suor, cerveja. O que groova com mel? Própolis, abelha, mostarda. O que groova com dente? Boca, carvão, riso, mordida. E com língua? Beijo, língua, buceta. E com pau? Pedra, cu, bola. Amor groova com xoxota? Claro, ô, gruda! Xoxota groova com azul? Xoxota groova com tudo. Azul groova com mundo? Sim, é a cor mais quente. 

Fernanda Branco Polse é artista da palavra, imagem & som e seus trabalhos podem ter diversos formatos. Natural do Paraná, Fernanda já morou em São Paulo e atualmente vive e trabalha em Belo Horizonte, onde atua como cantora, compositora, diretora artística e kundalini yogui.  Fez roteiro, direção e edição do videoclipe Astronauta da banda Dolores 602.

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