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Ana Larousse está de volta: single novo é produzido por Érica Silva

Ana Larousse está de volta: single novo é produzido por Érica Silva

O último single lançado pela Coletânea SÊLA é muito especial. Simboliza o retorno da compositora e cantora Ana Larousse na cena (após o sucesso estrondoso no vídeo de “Oração”, parceria com A Banda Mais Bonita Da Cidade, e de rodar o país com seu primeiro disco). Também marca a evolução da maga Erica Silva (Mulamba) na produção musical. “Muro” é uma das faixas mais políticas que lançamos até agora e gira em torno do conflito israelo-palestino.

Gravada em parceria com o Colina Studios, nave de outra produtora/artista incrível chamada Rosie Mankato, reflete um pouco do que está sendo feito no Estado do Paraná (terra natal de Ana, Erica e Rosie). A música foi finalizada no Estúdio T-RECS em São Paulo, do selo Hernia de Discos. Na ocasião, Larissa Conforto gravou a bateria e Desiree Marantes pilotou a mesa.

Pode ser que a Coletânea SÊLA continue investindo em singles inéditos nos próximos meses. Por enquanto, só temos a agradecer.

Leia as entrevistas com Érica Silva e Ana Larousse:

1) Como foi o processo de gravação da música para a coletânea SÊLA? Qual programa usou? Quais instrumentos tem na música? Comente um pouco.

O processo da gravação de “Muro” foi muito doido. É incrível como as parcerias deram super certo, parcerias inclusive entre estados. Sobre a instrumentação temos quarteto de cordas (violino, viola, violoncelo e baixo), guitarra, teclas e synths e bateria. Sou de Curitiba e aqui temos pouquíssimos estúdios de gravação com minas no comando, felizmente a querida Rosie Mankato topou entrar no trampo, na amizade mesmo. Lá fizemos a captação das cordas e guita. Passamos o dia no estúdio, numa casinha super fofa e tranquila em Balsa Nova, que fica a 40 min de Curitiba. O lugar perfeito pra passar uma tarde, sem sinal, longe da loucura urbana e fazendo música. 

Pras cordas escrevi o arranjo, ensaiamos enquanto acertávamos o som e a captação. Decidi gravar todas juntas (que falando em cordas sempre é um risco haha, mas decidi correr esse risco) e fiz uma dobra dos graves cello e baixo. Gravar a guita foi incrível! Levei cerca de 17 pedais de efeitos pra experimentar diversas texturas e gravei várias faixas com conceitos diferentes: apenas harmonia, apenas notas fora, apenas timbres mirabolantes e afins. Tudo isso pilotado pela Rosie utilizando o Pro Tools, meu programa preferido pra edições.

As vozes gravamos com o Vini Nisi, na casa dele, Ana Larousse viajou só pra gravar e deu boa, no fim das contas eu também participei um pouquinho. A bateria inteligente foi gravada pela Larissa Conforto no estúdio T-Recs da Desirée Marantes em São Paulo. Como eu não podia viajar pra acompanhar o processo, enviei umas referências e expliquei o que eu e Ana alinhamos, e as gurias foram certeiras. A captação da Desi super arrojada somou perfeitamente com o timbre característico da batera da Larissa, e resultou numa bateria extremamente autêntica, praticamente sem necessidade de processamentos na mix. 

E pra ligar tudo isso as teclas e synths gravados pela Lilian Nakahodo, que sou muito fã. Apenas passei as cifras com o ritmo harmônico e ela complementou com sensibilidade os acordes propositalmente incompletos das cordas. Sem falar da dedicação já que ela me enviou muitas opções de timbres pra construção da música. 

Apenas passei as cifras com o ritmo harmônico e ela complementou com sensibilidade os acordes propositalmente incompletos das cordas. (Érica Silva)

Com tudo isso eu precisava de uma mix ágil, artística e inteligente, os ingredientes estavam todos ali, era só começar a construção. E nisso o Vini Nisi foi excelente. Passamos algumas horas limpando as tracks, decidindo o que fosse realmente ser utilizado até o momento de deixar ele levantar uma mix criativa. Posso afirmar que a mixagem fez parte da instrumentação, pois ela poderia levar a música a vários caminhos.

A Ana foi presente nas decisões e foi aí que percebemos nossa afinação quanto a preferências estéticas da edição da música, gosto musical e da vida, sem ela também o tempero não estaria completo pra chegarmos a esse resultado, resultado que representaria sua composição. 

Na mixagem das vozes temos o querido Vitor Pinheiro. Vitor mixou comigo o álbum da Mulamba e sua sensibilidade, gentileza e percepção me fizeram chamá-lo a fechar esse trampo. Por motivos de viagem a trabalho do Vini, o Vitor finalizou pra gente a construção iniciada pelo Vini, com muito respeito e delicadeza.

2) Porque você se assumiu produtora musical? Demorou muito? Comente um pouco. 

Meu primeiro trabalho grande como produtora foi com álbum Mulamba, as meninas me convidaram mesmo sem eu ter experiência com produção, acho que elas enxergam em mim essa capacidade pelo modo como me expresso em relação a música e o meu comprometimento com ela. (Érica Silva)

Não estava muito familiarizada sobre como seria o processo, fui aprendendo no caminho mesmo, fizemos várias reuniões pra que eu pudesse realmente compreender o que elas queriam em termos de sonoridade e talz, fui comprando as ideias e apresentando as minhas também, na empolgação levei até arranjo pronto escrito hahaha. Depois veio a pré-produção, tocar de fato, cobrar estudo, mudar, sair do confortável, enfim, sou professora, então não consigo pensar esses processos sem a didática do lado.

Foi quando terminamos o processo que me liguei que as pessoas estavam me chamando de produtora e que não era brincadeira, antes eu ria, achava um termo muito forte: “não, to só ajudando as gurias…”; mas depois caiu a ficha: “eu produzi um disco!”. 

Eu gostei muito do processo e do resultado, foi muito prestigiado e acho que as gurias também gostaram, então decidi produzir e aprender mais. Esse single pra coletânea SÊLA foi minha segunda produção com esse título: pro-du-to-ra-mu-si-cal. Sempre fui musicista de estúdio, gravei várias coisas, ajudei nos arranjos e gosto de ser dirigida, mas agora eu descobri que tenho ferramentas pra dirigir também. Ainda não sou inteirada da parte técnica, normalmente preciso de alguém pra ser meu técnico hehe, tô aprendendo.


3) Por que você escolheu essa intérprete para o seu single? Vocês já tinham trabalhado juntas antes?

Nunca havia trabalhado com a Ana antes, conheci através das gurias da Mulamba e eu toda tímida demorei pra conversar com ela hahaha. Um dia estávamos Cacau, Ana e eu tocando um violãozinho e a Ana percebeu minha intimidade com harmonia. Ela me mostrou essa música, dizendo que não sabia muito bem qual caminho harmônico seguir. Na hora criei algo e ela curtiu muito. Voltando pra Curitiba eu elaborei a harmonia definitiva, escrevi e se instalou em mim uma vontade de trabalhar com essa música, pensei nas cordas, pensei até em gravar um vídeo e então veio o convite pra coletânea. Perfeito! Convidei a Ana e ela adorou a ideia.

4) O que mudou entre vocês depois que vocês gravaram para a coletânea SÊLA juntas? Quais foram as trocas? 

Depois desse single vieram mais ideias, mais vontade de fazer coisas juntas e nós já  estamos articulando. Ana tem muuuuitas composições, já me mostrou algumas e o conceito. Esse ano vai rolar! 🙂

5) Porque você é produtora musical?
Sempre digo às pessoas que eu tenho um relacionamento seríssimo com a música. E a permissão de manipulá-la é algo que me instiga muito. Mas eu também percebi como posso fazer a diferença, produzindo a música de outra mulheres. Mulheres. Mulheres pretas. Mulheres sem muitas condições de ter um trampo gravado, mixado. Eu me encontrei muito nisso. Quero trabalhar com todos, mas se o que eu puder produzir for de minas, sou muito mais feliz.

percebi como posso fazer a diferença, produzindo a música de outra mulheres. Mulheres. Mulheres pretas. (Érica Silva)

Também entrevistamos a compositora de “Muro”, Ana Larousse

1) Como foi o processo de composição da canção “Muro” e gravação da música para a coletânea SÊLA? Como foi a produção da faixa com a Érica Silva?

Eu estava numa fase obcecada pela História de diversos países do Oriente Médio e, num dado momento, estava lendo compulsivamente livros que giram em torno do conflito israelo-palestino. Quando entro nesses mergulhos profundos de leitura, acaba que minhas escritas são tomadas por eles também. Com “Muro” foi assim. Sentei no jardim com o livro “Fora do Lugar” (Edward Saïd) no colo e a canção veio toda quase que inteira. A letra foi escorrendo de mim como se já estivesse pronta e eu só estivesse ali pra recebê-la, pra segurar a caneta. 

Estava sem violão naquele lugar e sem ter como registrar, então passei dias cantando ela sem parar,pra não esquecer da melodia. 

Fotos dessa matéria por Coagula

Eu nunca componho sem um instrumento, sempre vem a harmonia junto da melodia e letra, então quando me encontrei com o violão pra dar harmonia à canção, achei impossível colocar acordes em cima daquilo que tinha engessado em mim já naquele vazio bonito sem harmonia. Ela passou mais de ano assim. Eu cantando pra todos à capella e nada de acorde que eu achasse combinar com isso. Daí veio a Érica. Um dia, lá em casa, numa das passagens da Mulamba por SP, pedi pra que ela me ajudasse na harmonia. Ela foi impecável e rapidinho me entregou um arranjo pra violão absurdo de lindo, meio que um céu pr’aquela melodia poder voar mais bonito. Gravar a canção com ela não foi diferente. Foram gigantes o cuidado que ela teve com a composição e com as artistas envolvidas, a escuta que ela abriu pra entender minhas visões pra música e toda a sensibilidade dela pra perceber o que a música pedia ali, pra muito além de mim. Entre Curitiba e São Paulo, com pouco tempo, pouco dinheiro e muitas parceiras incríveis, a Érica fez isso aí que dá pra ouvir: uma canção que não tem como não te emocionar. 

Ela (a Érica) é tudo o que a gente espera de uma produtora musical e que tão raramente encontra, e ainda tem o bônus de ela adorar games e ser bem nerdinha caseira igual eu (Ana Larousse)

Apesar da composição ter tomado nascimento nos mares do Oriente Médio, ela nunca parou por lá. A gente tem muito muro aqui também e o povo não cai de criar mais tantos outros muros – em especial desses que a gente carrega na cabeça e que matam de verdade. Hoje penso nos muros daqui quando a canto. Hoje dedico ela a esse Brasil machucado (ou aos que são machucados por ele).​

2) Porque você se assumiu compositora? Demorou muito?

Demorou. Demorou porque eu achava (ainda estou tentando desachar) que era preciso que eu mesma cantasse minhas composições para que as pessoas as conhecessem e eu nunca gostei dessa ideia. Confesso ainda não gostar muito. Componho como respiro, como ando, feito num houvesse outro jeito de sentir as coisas e vejo tudo com um olhar que só quem cria obcecadamente tem. Mas cantar nunca foi meu negócio. Tenho voz fraca e tem muitas músicas que eu escrevo que nem ouso cantar porque acredito não ter o pulmão que é preciso pra honrar a fúria delas. Mas quando fui colocada pra mostrar minhas canções por aí (que foi de um jeito meio furacão, sem muito tempo pra pensar), acabou que tomei gosto pelo palco e por poder contar histórias e fazer emocionar, ali, ao vivo, vendo aquilo acontecer. Coloquei o palco até mais à frente, de alguma forma, do que a composição pra ser artista-intérprete, gente de palco e foto. Gostava mesmo era daquela caverninha inteira feita de letras pra compor atrás de compor sem precisar pensar no que mostrar de mim. Hoje, depois de muita estrada como artista-intérprete, me entendo como compositora antes de qualquer coisa. Agora é entender melhor como é que eu encaixo isso no mercado fonográfico. 

Componho como respiro…Gostava mesmo era daquela caverninha inteira feita de letras pra compor atrás de compor sem precisar pensar no que mostrar de mim (Ana Larousse)

3) Por que você escolheu essa produtora para o teu single? Vocês já tinham trabalhado juntas antes? 

Na realidade, quem escolheu foi Érica. Ela foi convidada pela Sêla para produzir uma faixa e eu tive a honra mais que imensa de ter sido a compositora que ela escolheu com quem trabalhar nessa coletânea. Ela já me chamou pensando na canção “Muro”, que ela havia, poucos meses antes, vestido com uma harmonia mais que maravilhosa. A gente nunca tinha trabalhado juntas não. Mas existia uma vontade (acho que) recíproca de inventar algo em parceria. Foi o segundo trabalho que a Érica produziu, depois de ter se jogado na produção musical do primeiro disco da Mulamba. Foi uma honra inenarrável ser uma das primeiras cobaias dessa guria que vai ser – me ouçam só! – uma gigante produtora musical toda poderosa pelo mundo. E ela que me aguente pois vou seguir bem perto!

4) O que mudou entre vocês depois que vocês gravaram para a coletânea SÊLA juntas? Quais foram as trocas? 

Vixi, Já puxei muita sardinha pra ela, né? Vai ficar metida. 

Mas acho que estamos construindo uma amizade muito gostosa, pra além da vontade de trocas musicais.  

Eu fiquei um ano e meio, quase dois anos, sumida do lugar de artista-intérprete, entregue pra minha caverninha compositora e meio que com medo de voltar a sair dela. A Érica, com esse convite, me puxou pra fora de novo. Estou ansiosa como se estivesse começando, como se nunca tivesse me mostrado a público. Me sinto também feliz porque guardar só pra mim essas composições é meio que egoísta – elas são tão bonitas…

5) Porque você é compositora?

Porque pra ser outra coisa, eu precisaria ser outra pessoa. 

Exerço outras funções fora da música também (escrevo, dou oficinas de escrita criativa, faço iluminação…). Mas sou compositora em todas elas. Componho conexões, componho frases, componho conceitos, componho narrativas, componho mundos, componho com letras, sons, luzes, frases, falas ou com o olhar de dentro pra mim mesma. Meu olhar pra tudo é assim. Não vejo nada sozinho. Tudo é outra coisa quando colocado junto de algo. E a cada nova composição, cada coisa se transforma em outra. Eu gosto de brincar com isso. De brincar com os conceitos das coisas e toda a infinitude de sentidos que cada palavra ou pedaço de coisa do mundo tem. 

Sou compositora porque não saberia ser outra coisa (Ana Larousse)

Ouça a Coletânea SÊLA na íntegra:

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