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As plurais corporalidades de Jup do Bairro

As plurais corporalidades de Jup do Bairro

Você já deve ter ouvido Jup do Bairro sorrir. Dona de uma risada única, a gargalhada dela é poderosa no drama – como acontece em momentos dos shows da Linn da Quebrada, de quem é melhor amiga e backing vocal -, e no que é cômico, ou irônico, como pode-se ver no talk show TransMissão (Canal Brasil), apresentado por elas duas.

Jup sorri como forma de potencializar ainda mais seu corpo, com o qual ela se lançou desde a adolescência para a produção artística, despontando de forma autodidata em diferentes linguagens, como a moda, a performance, a escrita e agora, com força total, a música.

A artista paulistana, do Valo Velho, região extrema do Capão Redondo, lançou recentemente seu primeiro single, “Corpo sem Juízo”, com participações mais do que especiais – fundamentais! A primeira delas, a premiada escritora Conceição Evaristo, que abre a faixa lendo um texto de autoria própria. A segunda, Theusa Passarelli, jovem estudante carioca que se dedicava a problematização de “corpos estranhos” na sociedade, era também amiga de Jup. Theusa morreu em 2018, vítima de um cruel assassinato na cidade do Rio de Janeiro. Em “Corpo Sem Juízo” ela vive por meio de um áudio póstumo, enviado à Jup pela irmã de Theusa, Gabe Passarelli.

Em entrevista a Mulher na Música, Jup conta mais detalhes do processo criativo desta canção, que veio acompanhada de uma campanha de financiamento coletivona ativa ainda! – para produzir seu primeiro EP solo, visual e homônimo ao single. 

Toni Morrison dizia: “Se existe um livro que você gostaria de ler, mas que ainda não foi escrito, então escreva”. Insubmissa como ela, Conceição e Theusa, Jup foi lá e criou sua própria narrativa: “O que eu queria mesmo era falar, colocar pra fora questões que me pareciam pertinentes de explorações do meu corpo e autoconhecimento(…) Minhas maiores referências de artistas e arteiros estavam no meu convívio, me apropriei das vivências locais e que incluía a minha e comecei a ver que seria possível viver, criar e apreciar arte fora das galerias e instituições privadas”.

Corpo, mente, voz. Tudo sem juízo. Para transformar e potencializar.

Jup do Bairro por John Halles

Jup, uma das coisas mais interessantes sobre sua carreira é saber do seu autodidatismo: você foi lá e fez tudo sozinha, do seu jeito. Queria que você comentasse um pouco disso, dos seus processos criativos e como você foi criando seu próprio jeito de produzir arte.

Meu encontro com a arte acontece de uma forma quase involuntária. Eu sabia o que estava fazendo, mas até então não tinha um planejamento de carreira ou objetivo direto. Era tudo meio abstrato, o que eu queria mesmo era falar, colocar pra fora questões que me pareciam pertinentes de explorações do meu corpo e autoconhecimento. Depois fui achando que isso poderia ser interessante para outras pessoas também e comecei a produzir fanzines, influenciada por publicações marginais de punks no Centro de São Paulo – e da minha própria quebrada. Esses encontros foram extremamente importantes para a minha (des)formação artística e pessoal. Sabemos como o Estado trata a educação nas periferias, a manipulação de informações para terem maior controle sobre a população pobre, nos afastando de acessos ao lazer e à cultura. Toda a falta de oportunidade me fez perceber que tudo que eu precisava estava ali, a metros de distância. E como era importante visualizar a arte fora da lógica higienista. Minhas maiores referências de artistas e arteiros estavam no meu convívio, me apropriei das vivências locais – o que incluía a minha própria – e comecei a ver que seria possível viver, criar e apreciar arte fora das galerias e instituições privadas.

Em relação ao seu trabalho como ‘blackqueen vocal’ da Linn da Quebrada, o que você sente ter aprendido acompanhando ela e banda de lá pra cá? Sente que Pajubá [2017, disco de estreia da Linn da Quebrada] também traz conteúdos diretamente contribuídos pela Jup? Se sim, quais?

Num projeto como esse seria impossível eu não infectar e ser infectada. A Linn é uma criativa sem limites, seu uso de palavras, intenções subversivas e de articulação sempre me atravessaram muito. Apesar de eu já ter trabalhado com música e ter dado início a minha carreira antes de Pajubá, continuei aprendendo sobre coisas e pensamentos que ainda não tinha vivido e presenciado, e continuo aprendendo. E a mesma coisa ela, que com certeza aprendeu e se atravessou com minhas experiências e colocações. Vejo o Pajubá como um acontecimento coletivo, ele só é o que é por contar comigo, Pininga, BADSISTA, Linn e outras pessoas que fizeram parte de forma direta e indireta para a criação sonora e conceitual. É algo que só nós podíamos fazer juntas, podíamos fazer separadas também, mas seria uma outra coisa.

Inclusive você e Linn agora, além de dividir palco, dividem também o comando do talk show TransMissão, no Canal Brasil (Globosat), certo? Como surgiu essa experiência e o que significa pra ti apresentar um programa de TV?

A proposta partiu dos diretores (que inclusive dirigiram o documentário “Bixa Travesty”, que estreia esse ano nos cinemas), Kiko Goifman e Claudia Priscilla. O filme tem uma parte que simula uma rádio e Linn e eu falávamos de assuntos variados. Em uma exibição do documentário em Berlim, o público levantou a questão se aquele programa de rádio realmente existia e como poderiam ouvi-lo. Isso alimentou as ideias dos diretores após o fim do programa da Laerte Coutinho (Transando com Laerte), que eles também dirigiam. A substituímos na grade da programação. É muito importante frisar que agora são dois corpos pretos e dissidentes no comando de um programa de televisão no horário nobre dos canais fechados no Brasil. Isso é criação de novos imaginários, novas possibilidades. Recebemos a total abertura para convidarmos e falarmos sobre o que quiséssemos e da forma que quiséssemos. Sem roteiros e limitações. Com isso conseguimos fazer um programa que vai além das entrevistas, construímos pensamentos conjuntos, conversas.

Uma vez li nas suas redes sociais sobre o pessoal do seu bairro, o carinho deles contigo e que já te reconhecem. Como é pra você receber esse carinho das pessoas com quem você cresceu, a partir dessa perspectiva de figura pública? A Jup do Bairro se separa da Jup Pires ou são a mesma pessoa?

Eu sou muito bairrista. Passo a maior parte do meu tempo transitando pela minha quebrada e por isso muita gente já me conhecia desde que eu ainda era o “falecido” (risos). Mas com as projeções da minha carreira, muitas pessoas conheceram o meu trabalho antes de me conhecerem ou terem me visto pessoalmente. Vira e mexe me deparo com um “Jup, é você?”, “o que está fazendo por aqui?” ou até um “você é famosa, não é?”. E pra mim é muito curioso, ainda não consigo desvincular a Jup do Bairro com a Jup Pires, pessoa jurídica e física, pois acredito que ainda estou na fusão e ainda são a mesma pessoa. Mas acredito que em algum momento vou precisar separar por maiores responsabilidades e compreensão das cada características de cada uma. Hoje sou referência das minhas referências, é importante saber o que posso fazer com isso e que não seja unicamente egoico e na primeira pessoa.

“Corpo sem Juízo” é o single que a gente precisava. Fala de corpos, de coragem e de liberdade. E traz Conceição Evaristo e Theusa Passarelli (in memoriam), duas vozes e dois corpos fundamentais pro debate de corpo e gênero no Brasil atual. Em que sentido essas participações potencializaram esta canção?

Eu também precisava de “Corpo Sem Juízo”. E foi assim, no momento certo. Essa letra é uma das minhas composições mais antigas e a única que ainda tenho apreço e que ainda faz sentido pra mim. Poder contar com áudios da Conceição Evaristo e da Matheusa Passareli me fez pensar o quão importante foi esse tempo esperando. Sinto que “Corpo Sem Juízo” se tornou uma obra atemporal, fala muito sobre mim, mas não só. Fala sobre o corpo-coletivo, o corpo abjeto, o corpo objeto e as mais plurais corporalidades que podem existir em nós enquanto individual.

Tá rolando uma campanha de financiamento coletivo para a gravação do EP visual de Corpo sem Juízo. Em termos artísticos, você já pode nos adiantar um pouco sobre o formato deste trabalho? E por que a decisão de fazê-lo via financiamento coletivo?

Bom, ainda é uma surpresa até pra mim. Apesar que já ter esboços, vontades, eu quero que seja um projeto vivo e que tenha a participação  integral dos artistas colaboradores que vão participar do disco. A direção musical ficará por conta da BADSISTA, pretendo convidar artistas que fizeram parte da minha formação criativa, artistas atuais que me atravessam e vomitar toda a minha bagagem de performance entre o audiovisual. Vai ser algo inédito, potente e necessário. Algo que só eu, meu corpo, poderia entregar.

Além de TransMissão e do EP, que mais podemos aguardar da Jup para 2019?

Senta, melhor sentar.

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Escrito por

Formada em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero, no momento Izabela trabalha como assessora de imprensa musical. Viciada no assunto, consome música o tempo todo, seja em discos, livros, filmes e ingressos. Muitos ingressos. Feminista e fã de Patti Smith, Izabela colabora no Mulher na Música a fim de escrever boas histórias sobre mulheres incríveis, exatamente como você e todas nós.

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