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A tristeza é uma festa: conheça Jozi Lucka

A tristeza é uma festa: conheça Jozi Lucka

Entrevista com Jozi Lucka
por Maria Fernanda Macedo 

Não é em qualquer momento que podemos encarar a tristeza como uma festa. A maturidade permite. A música também. A cantora Jozi Lucka embala o EP com a expressão sem temer parecer a estraga prazeres num contexto social onde a alegria é cultuada a ponto dogmático e a tristeza quase sempre subscrição para um tarja preta qualquer.  O lançamento retoma outra abordagem possível para o sentimento e uma sofisticação que relembra o pop dos anos 80 nos cuidados dos arranjos e na melodia. Relíquia contemporânea, bem situada e interpretada para os dias de hoje. Mesmo!

A faixa-título nasceu da parceria com o compositor Nenung (The Darma Lovers), um velho amigo, presente daqueles que a vida ofertou, e que ainda a apresentou a Moreno Veloso, produtor responsável pelo disco anterior, Brinquei de Inventar o Mundo. Esse como o atual trabalho fazem parte de uma história que se iniciou ainda na adolescência e veio tomando formas variadas pontuadas por oportunidades e escolhas:

“As coisas foram acontecendo. Gravações, tudo muito intenso. Não tinha um planejamento para elas… a música me levava.”  (Jozi)

Esta estrada já rola há mais de vinte anos, com passagens que garantem a Jozi uma senhora trajetória e um belo repertório: inúmeros vocais para gravações de Emílio Santiago (Aquarelas Brasileiras), Danilo Caymmi, Carlos Lyra, Rosa Marya Colin, Maria Creuza, produções para o mercado japonês com o produtor Kazuo Yoshida, participações em faixas de disco de Roberto Menescal (Ditos e Feitos) e até uma conquista no  programa de calouros do Chacrinha (com a música Lua de mel do Lulu Santos, sucesso na época na voz da Gal Costa): “Uma experiência muito divertida”, lembra. 

Nesses encontros fortuitos, Jozi foi apresentada à cantora Nana Caymmi, que a indicou  Roberto Menescal, com quem realizou grande parte da vida profissional: “Com Menescal tive uma grande experiência artística, uma super escola com um mestre da bossa nova que foi muito importante e enriquecedor na minha formação como intérprete,”, conta.

“A música sempre foi um lugar de conforto, cantar pra mim sempre foi natural. Depois de alguns anos como intérprete de canções dos outros eu comecei a compor as minhas músicas no violão, depois no piano. Descobri que gostava de contar as minhas histórias, do meu jeito, as minhas versões, minha sonoridade, a minha paisagem sonora.”  Jozi  enfatiza que se permite não se fechar em apenas um estilo: “Eu gosto de pop, de blues, de música minimalista.” diz Jozi que fez licenciatura em música:

“Gosto de pesquisar sons.” (Jozi)

Como aconteceu o novo EP? 

Quando lancei o “Brinquei de inventar o mundo” eu tinha essa vontade de gravar um trabalho com as minhas parcerias com o Nenung. Temos várias composições, escolhi as que achava ter uma unidade no momento para contar essa história da tristeza, do amor, da vontade, de uma entrega sem amarras.

O que você experimenta nele?

Parti do mesmo princípio da experiência que tive com a produção do Moreno (Veloso, produtor), de ir para o estúdio, tocar a canção na sua pulsação, deixar surgir o arranjo, a poesia, deixar a música ter vontade própria. Sem pressão e pretensão. Fazer o que tem vontade, ficar satisfeito com o resultado e ser feliz. 

A cantora mudou, pode “cantar sem pedir licença”? 

Sim, a maturidade chega e vc se sente mais à vontade para fazer o quer sem se importar com o que os que outros vão dizer, sem expectativas. Estou fazendo o meu trabalho, cumprindo a minha parte e procuro fazer o melhor, faço o que gosto. 

O que difere dos anteriores? 

Voltei a produzir e cheguei em uma sonoridade diferente dos outros discos, acho que por eu tocar os pianos, ficar mais à vontade para criar arranjos vocais, brincar com os eletrônicos. A contribuição dos músicos Caius Marins, Pedro Mello e Miguel Bevilacqua também foi fundamental. 

Brinquei de Inventar o Mundo 2015 – produzido por Moreno Veloso foi um momento delicioso que pude deixar fluir, tocar e cantar aos olhos e ouvidos de um produtor com delicadeza e respeito pelas minhas canções. Eu e Moreno gravamos praticamente tudo. Tiveram as participações especiais do Nenung, Pedro Sá e Berna Ceppas. 

Eu chegava no estúdio com as canções escolhidas para o dia, gravava um violão e voz base e a partir daí o encantamento acontecia, tudo era permitido a gente experimentava os instrumentos que estavam a disposição, percussão, piano, cello, baixo acústico, guitarras, foi uma divertida brincadeira sonora por noites e madrugadas cariocas. 

E a parceria com Nenung?

Surgiu de cumplicidade e afinidade. Eu sou fã do Os The Darma Lóvers,  banda de rock  dele que possui influência budista, criadora do zen rock. Tive a aspiração de um dia fazer música com ele, enviei algumas melodias e ele escreveu maravilhosas poesias para o meu universo. Fazemos o nosso pop zen. 

Cantar, compor, tocar ou tudo junto? 

Tudo junto, com certeza!

E chegar até aqui, como foi? 

Canto desde de criança; aprendi a tocar violão sozinha aos 11 anos, na época da escola no final dos anos 80 eu tinha uma banda… os garotos tocavam e gostavam de rock mas eu negociava para a gente tocar também MPB. Era apaixonada por Maria Bethânia, Elis Regina e todos os compositores que ela gravou. Eu tinha amizade com alguns músicos que eram um pouco mais velhos e eles me apresentavam todo tipo de repertório, mais instrumental, também internacional, coisas que na época era muito difícil ter acesso, eles eram os pesquisadores e foi assim que conheci Pat Metheny, Renaissance, Janis Joplin, Chick Corea, Fátima Guedes, Joyce Moreno entre outros.

Um dia convidei esses músicos para montarmos um show. Escolhi o repertório dos compositores: Milton Nascimento, Caetano, Chico Buarque, Marina Lima, George Benson, Gilberto Gil e me apresentei num espaço super bacana de shows na cidade de Nova Friburgo (RJ) o Teatro do Centro de Artes. Eu tinha 17 anos. O show foi um sucesso e no mês seguinte eu já estava no Rio com a gravação em fita k7 desse show.  Passeava pela noite carioca, tinham muitos bares com música ao vivo, conhecia os músicos e sempre dava uma ‘canja’. Um dia, um amigo do Rio me apresentou a Nana Caymmi que quis ouvir a gravação do meu show em Friburgo, gostou e me aconselhou a procurar o Roberto Menescal.  Pesquisei o telefone da produtora dele e liguei marcando um encontro. Levei a minha fita, deixei com ele e para a minha alegria recebi uma ligação logo depois me convidando para participar de uma gravação em seu estúdio, 

As coisas foram acontecendo num fluxo de trabalho, gravações, tudo muito intenso e na verdade não tinha um planejamento para elas, simplesmente aconteciam… a música me levava.

Tive muitos momentos especiais e de grande aprendizado em shows e nos estúdios ao lado de vários artistas e o que mais me marcou foi a experiência de cantar com a Orquestra Sinfônica Brasileira sob regência do maestro Isaac Karabtchevsky numa homenagem a Copacabana. Eram 60 mil pessoas na praia e foi lindo!

A tristeza é uma festa?  

Pode virar festa se você aproveitar a chance de transcender. (Jozi)

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