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“Amar não é algo pronto”, constrói o duo Transe em nova fase

“Amar não é algo pronto”, constrói o duo Transe em nova fase

O nascimento como ponto de virada – ou de partida. A conexão com o ambiente, com o que nos circunda, para conduzir um novo fazer e, ao mesmo tempo, versar sobre as diversas gestações que podemos ter na vida. É voando e se jogando nessas brisas que o casal Francesca Pera e Fernando Zorzal, de Vitória (ES), estão criando seu disco de estreia, que sairá por completo bastante em breve.

Por enquanto já podemos viajar junto com eles nos singles-clipes “Greta” e “Floresceu”, este recém lançado e com um feat. potente da também capixaba GAVI:

Em entrevista ao Mulher na Música, a Francesca (Fran) bateu um papo sobre o atual momento da dupla, os processos criativos, entre outros assuntos mais. Leia a seguir:

Curiosidade. Você e Fernando se conheceram por causa da música?

Eu participava de um grupo de amigos compositores e escritores independentes aqui em Vitória e esse grupo tinha um bloquinho de carnaval, de onde também saíram algumas bandas, um coletivo chamado Los Conquistadores del Nada. Ferdi [apelido do Fernando] tinha sido convidado por uns amigos em comum a participar dos ensaios do bloco de carnaval. Morávamos todos numa mesma rua no centro da cidade e dentre outras coisas ficávamos curtindo por lá. Num desses dias de ensaio e organização do bloco um amigo veio me falar assim, ‘vem cá que eu quero que você escute um cara’. Era o Ferdi, meio tímido, sentadinho no meio fio da calçada, tocando uma das composições dele, era tão doce e rítmico. Olhinho deu aquela brilhada, hahaha… Falamos sobre música e composição, daí em pouco tempo começamos a compor juntos. A composição foi o que nos aproximou. A coisa foi se alongando naquele frenesi de criação, flerte pra lá e pra cá e fomos ficando, ficando, até nos tornarmos um casal.

O processo criativo da Transe rola como? No dia a dia da casa, rotina da família e tudo mais ou existe um momento de pausar afazeres, sentar e compor?


Em geral não é muito protocolar. Já estamos juntos há um tempo, então já tivemos várias fases de composição. No início da nossa relação Ferdi trazia músicas com bastante coisa e eu fazia mais a letra, apesar de já compor com melodia também em outros momentos. Era o trabalho solo dele e  dessa leva de composições algumas entraram no EP e no disco Cidade Alta. Na Transe a gente foi reconfigurando nosso processo, nossa família, nossa relação. Hoje em dia acontece de criarmos coisas em separado e apresentarmos um ao outro. Cai a noite, cozinha, um pito, Pilar dorme, vinhozinho, cantar, tocar… Quando rola essa vibe, maturamos juntos a música, letra, harmonia e  melodia, discutimos também pra onde vai o arranjo instrumental, qual vai ser a levada, cantamos juntos pra criar o arranjo vocal. Muitas vezes flui bem e rápido, outras brigamos pelos interesses individuais que cada um tem pra música. Também temos momentos total orgânico, temos uma carga horária grande juntos, nós dois e a Pilar. Temos momentos lullabies que acabam surgindo coisas novas também.

Vocês já lançaram “Greta” e “Floresceu”. E as duas músicas trazem esse contexto de nascimento de certo modo, do germinar para uma renovação. Do que mais vocês falam nesse álbum que vem vindo aí? 

O disco narra a trajetória de nascimento, a ordem das músicas vai das contrações, da loucura, do período expulsivo, da primeira hora do nascimento (a “Golden Hour”) que é o primeiro momento depois de ter passado o portal da vida (ou da morte, depende de como você vê). Na faixa “Me Erre” a gente fala da queda da ilusão de um mundo bom, de medo, de angustia, de sensação de perseguição, da tentativa de destruição de um modo de vida. Terminamos o álbum com “Você Me Ensina”, falando de como aprender a amar. Amar não é algo pronto, a gente não nasce amando, vamos nos tornando capaz disso (tem gente que não adquire nunca essa capacidade, né?). E pra amar não dá pra ser cool o tempo todo, não dá pra ter medo do singelo.

Em “Floresceu”, vocês chegam com essa parceria da GAVI. Na produção, a Gabi Deptulski (My Magical Glowing Lens) também vem pra somar. Qual a conexão da Transe com essas artistas? O que vocês sentem que elas agregam ao projeto de vocês?


GAVI a gente já tava acompanhando nas redes, admirávamos ela demais. Fomos ao show e nos apaixonamos de novo. Pensamos em fazer uma música juntos, tínhamos uma música com um refrão e algumas vocalizações. Mandamos pra GAVI e logo ela respondeu que tinha criado algo. Veio aqui em casa cantou pra gente esse feat. maravilhoso, a música tava ali. Depois disso construímos uma amizade. Ver a GAVI voando desse jeito é uma felicidade imensa pra nós. Gabi Deptulski foi um encontro incrível de muito sentimento. Na época, ela puxou um debate sobre mulheres na música e aquilo já tava tão urgente em mim. Sai desse encontro decidida em montar um projeto. Gabi é uma grande inspiração para o meu processo criativo. Daí veio a ideia de que a Gabi teria que ser produtora musical, uma produtora incrível com uma criatividade muito sensível. E trocamos referências, orientações, dividimos casa durante um tempo e aprofundamos nossa amizade.

O som da Transe evoca uma sensação de leveza, como um gesto espontâneo simples, tipo um abraço numa pessoa querida, ou um bocejo antes do descanso. Faz sentido, rs? A partir daí, quais seriam as influências e as brisas que fundamentam a sonoridade da Transe?

Sim, só que nem sempre, rs… A gente curte muito acreditar que é possível ser humano, se conectar com o eu profundo, com o outro, com a consciência de que estamos conectados a tudo, principalmente o ser humano inserido na natureza e na tecnologia (acredito na tecnologia como algo natural e não artificial). Ter uma criança por perto faz a gente desejar e lutar para que as coisas sejam diferentes. Acreditamos que seja possível ter uma sociedade mais justa, socialmente, economicamente e afetivamente, Curto muito as palas da Viviane Mosé. Mas nem só de brisa, né? Não adianta ficar praticando yoga e cheirando flores se você não tá se conectando e entendendo essa realidade social e ambiental escrota que estamos vivendo. Nem ficar buscando uma transcendência viajante, privilégio de classe média pra cima, se o milagre e o horror da vida estão acontecendo diante da gente a todo instante. Enfim, sinto que apesar da leveza a gente também carrega outras paixões. “Greta”, por exemplo, foi bastante influenciada por “Black Star” do Bowie, aqueles coros sinistros lindos, como também a temática, nela estamos falando também de morte. Minha vida foi desde cedo marcada pela morte. Outra influência sonora é Luli e Lucina, que trazem composições ‘diferentosas’, um duo de vozes, mulher cantando também em região grave, sem contar o exemplo de vida: casal lésbico com filhos fazendo música independente. Invisibilizadas, óbvio, os sucessos delas são lembrados pelas vozes dos homens. Enfim, muito inspiradoras. Nos inspiramos muito também no trabalho da Tuyo, Bon Iver, Boogarins, Ibeyi… 

Por fim, uma pergunta capciosa, rs: ultimamente, qual tem sido o transe da Transe?

Tava aqui conversando essa com o Ferdi. Ele ta falando que pra ele é o término do álbum. Estamos bem focados nos detalhes finais e nos preparando para o lançamento. Ficar alí ouvindo e maturando… Pra mim, o palco tem sido o maior transe do momento, parece que ali há uma abertura no espaço e tempo, me sinto real conectada, uma bacante. Quando conseguimos que o público sinta o transe, aí é que o ciclo se completa.



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