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Alice Marcone estreia o Travanejo no Brasil

Alice Marcone estreia o Travanejo no Brasil

Conheci Alice Marcone através do Gabeu, o rei do Pocnejo. Nós três, juntes, estamos criando e produzindo o Fivela Fest, o primeiro festival Queernejo do Brasil (aguardem mais infos pós Corona). Pra minha admiração, Alice não só é uma excelente produtora como uma multiartista impecável. Ela acaba de lançar seu primeiro single/clipe “Noite Quente” dirigido por Filmes da Diaba. Minha vida mudou naquele momento que eu dei PLAY. Ao longo do vídeo fiquei paralisada, principalmente, com o roteiro. Agora, pasmem mais ainda: escrevendo esse texto descobri que Alice não só é roteirista desse clipe (ao lado da Camila Maluhy e do Octavio Tavares) como também já escreveu roteiros para HBO, Amazon Prime e Canal Brasil!

Meu processo de composição musical é sempre meio atravessado por um pensamento narrativo. (Alice Marcone)

Perguntei à Alice como foi roteirizar, atuar e ser a trilha sonora desse clipe:

Eu já estou no mercado audiovisual há alguns anos, trabalhando como atriz, roteirista e trilhista. Já escrevi e atuei em séries pra HBO, Canal Brasil, Amazon Prime, etc e também fiz a trilha sonora de séries e curtas. Quando comecei a compor as músicas do EP – Noite Quente é o primeiro single de um EP de cinco músicas -, esse pensamento dramatúrgico veio junto, automaticamente. Um EP, um álbum ou mesmo uma música, pra mim, contam uma jornada. E o mesmo vale para clipes. Eu amo clipes muito narrativos, que tem uma história, com começo, meio e fim. Eu, na época escritora de fanfics do Orkut, estava apaixonada pela ideia de que videoclipes pudessem ser filmes. E agora, com uma carreira artística na música e no cinema, entendo que essa é a linguagem perfeita pra exercer integralmente minhas paixões.

Estava apaixonada pela ideia de que videoclipes pudessem ser filmes. (Alice Marcone)

Alice sobre o EP “Noite Quente”

“O meu EP de estreia é um resgate das minhas raízes no interior de São Paulo, na zona rural, vivendo até mesmo sem energia elétrica por alguns anos. Perdi a conta de quantos causos de lobisomem, mula-sem-cabeça, espíritos e outras criaturas eu escutei de meus familiares, vizinhos e amigos. O imaginário do interior está povoado dessas criaturas. Ou pelo menos estava. E eu espero que com os singles desse EP, eu consiga reviver esse imaginário, agora já tão esmaecido por conta da urbanização. Então eu tenho comigo que esse EP terá três singles, e que, conforme os clipes forem lançados, eles serão os capítulos da história dessa menina do sítio, vivendo num universo rural rodeado por criaturas fantásticas e, evidentemente, sertanejo.”

Perdi a conta de quantos causos de lobisomem, mula-sem-cabeça, espíritos e outras criaturas eu escutei de meus familiares, vizinhos e amigos.

Alice se lança como a primeira mulher trans a cantar sertanejo no Brasil. Mantendo a sofrência por amor e o empoderamento feminino como temas principais de suas composições, a ideia é falar de suas vivências de um modo que possa atingir tanto o público LGBTQIA+ quanto o público do sertanejo tradicional. As músicas de seu EP de estreia exploram arranjos típicos do sertanejo universitário dialogando com timbres e ritmos do pop. O produtor das 5 faixas do seu primeiro EP é Fabrício Almeida, que foi músico de Rionegro & Solimões por 10 anos. Atualmente, Fabrício também trabalha com a produção do álbum de Gabeu, artista expoente do sertanejo LGBTQIA+ e que terá participação no segundo single de Alice.

Sobre o roteiro do clipe “Noite Quente”

O single de estreia de Alice Marcone é “Noite Quente”, uma música de sofrência amorosa embalada num ritmo arrocha pop. O clipe conta com a presença de Thomás Aquino, ator de Bacurau, e é dirigido pela Filmes da Diaba, dupla de diretores que já trabalhou com Liniker e os Caramelows, Xênia França, Luiza Lian, entre outros. A música já está contratada como trilha sonora do próximo longa-metragem de Gustavo Vinagre, que teve seu último longa exibido no Festival de Berlim.

“Noite Quente” narra a história de um amor impossível a partir de uma narrativa de libertação. Desde uma perspectiva focada na personagem de uma mulher trans, o filme narra a repetição de um encontro amoroso fadado ao sigilo, onde o abandono e a rejeição são marcas dentro dessa relação. Alice vive, assim, em um limbo afetivo simbolizado pela localização geográfica de sua casa, que ocupa um lugar fronteiriço entre a selva e a civilização – lugar este que lhe foi privado de possibilidades de
existência.

Alice é uma mulher que vive também em uma fronteira de séculos. Seu desejo reside num futuro mas é aprisionada por uma lenda que a mantém no passado. Em noites de lua cheia Alice e um homem misterioso se encontram na floresta para consumar um amor proibido. Ela busca nesse homem um amor verdadeiro, que possa ultrapassar as fronteiras da moralidade e ocupar espaços-tempos além da floresta durante a noite. Esse homem por quem Alice se apaixona é um jovem cantor de sertanejo que se transforma nas noites de lua cheia em um lobisomem.

O lobisomem é a figura construída socialmente de um homem violento que não consegue calcular a dimensão de seus instintos. O desejo sexual violento e impessoal do homem cis se torna perigoso a partir de suas frustrações. O lobisomem representa o homem que não é capaz de exercer os seus desejos de forma livre e à luz do dia, submetendo suas paixões à lugares de marginalidade e impessoalidade. A única forma de afeto que essa besta conhece para se relacionar é o sexo casual e as relações
ocultas ou escondidas, que não são trazidas à luz do dia. Se envolver não é uma possibilidade.

Assim o filme narra o ciclo vicioso de uma relação que acaba sempre com o nascer do dia. Alice vive cotidianamente uma relação destinada à solidão. Ao acordar e voltar para sua casa – na fronteira entre os dois mundos que habita: a floresta e a cidade – Alice realiza pequenas ações com intenção curativa, de renovação, onde se livra das reminiscências da noite anterior e cura as suas feridas causadas pelas garras do lobisomem.

Uma tarde, enquanto Alice costura seu vestido, lava suas roupas e cura suas feridas, ela recebe gestos que aos poucos vão se revelando uma dança que a levará a um estado de libertação própria do sentimento de rejeição e abandono. E nesta mesma noite, Alice volta à floresta, mas antes decide atravessar a cidade e cruzar o pequeno bar onde o homem se apresenta – horas antes de se converter em lobisomem mais uma vez.

Os seus olhares se cruzam, ele aparenta se envergonhar, mas os gestos que Alice repete como em um sutil ritual de magia o fazem sentir algo diferente quando ela passa por ele. Apesar dos olhares julgadores que as pessoas lançam para ela durante sua caminhada, ela mantém seu passo firme, levantando seu vestido branco e revelando suas poderosas botas de cowgirl.

Ao ingressar na selva, Alice identifica diversos símbolos inscritos em árvores e pedras: símbolos que ela mesma colocou para sinalizar o seu caminho. Quando a lua cheia finalmente aparece por entre as nuvens, o lobisomem aparece novamente e eles têm uma noite quente de amor juntos.

Em paralelo, de forma alegórica, diante de uma fogueira, Alice comanda uma coreografia seguida por outras bichas, bruxas e bichos da floresta. Ela ensina os gestos que recebeu em seu processo de autocura para as outras criaturas marginalizadas que habitam o mundo ao lado dela. Neste ritual de magia e afeto, Alice tem uma noite de amor verdadeiro com o lobisomem.

Na manhã seguinte, Alice acorda novamente na clareira da floresta, aparentemente sozinha. Com um sutil movimento de seu corpo se revela a presença do lobisomem já transformado novamente em homem. Diferente das outras noites que se repetiram infinitamente, ele se manteve ao lado de Alice e eles se beijam apaixonados sob a luz do sol.

Ficha Técnica do clipe

Ficha técnica: Realização: Filmes da Diaba Roteiro: Alice Marcone, Camila Maluhy, Octavio Tavares Elenco: Thomas Aquino, Alice Marcone Direção: DIABA (Camila Maluhy e Octavio Tavares) 1ra Assistente de Direção: Marcela Prado Alvarenga 2da Assistente de Direção: Marina Zazá D`Aquino Produção: Maria Continentino Assistente de Produção: Isabella Ribeiro Ajudante de Produção: Juan Herrera Prado Direção de Fotografia: Érico Toscano 1ro Assistente de Foto: André Oliveira Alves e Vini Bock 2do Assistente de Foto: Sabrina Duarte e Ricardo Crespo Chefe de Elétrica: Edvaldo Santos (Grandão) Assistentes de Elétrica: Giulia Peveralli e Jamilson Alves (Ballú) Logger: Zé Luís e Allan Almeida Imagens Aéreas: HFZ Aérieas (Daniel Hafez) Still: Mayra Azzi Arte e Cenografia: Paloma Mecozzi Assistentes de Arte: Coca Latini, Matheus Pockstaller e Chico França Figurino: Gabriella Marra e Mariana Braga Assistente de Figurino: Camilina Costureira: Raquel F. Nunes Caracterização e Beleza: Cacá Zech Maquiagem de Efeito: Marília Martins Caracterização e Beleza de Dançarines e Figuração: Antônio Adriano e Emer Conatus Coreógrafa: Danna Lisboa Dançarines: House of Besher Danna Lisboa, Emer Conatus, Leo Braz, Maluvitta, Paulo Silva, Ric Vidal, Valentina Participações Especiais: Gabeu, Gabe Joie, Leo Fazio, Gabi Jacques, Adriel Maia Edição: Eduardo Resing Color Grading: Marla Colorista: João Moreira Apoio: Gansho, Dcine Digital Cinema, Fábrica Brasileira de Imagens e Monstercam Agradecimentos: Bando Studio, Leandro Hbl, Lucas Rangel, Raphael Varandas, Chico França, Pedro Millan, Zoe Guglielmoni, Carol Lopes, Gabriel Almeida, Monica Gondim, Martin Lanezan, Gabriel Domingues

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Quando criou a SÊLA, Camila entendeu que duas artistas tinham mais força que uma. E que três artistas tinham ainda mais força que duas. Desde então sua carreira solo como cantora e compositora ganhou outra dimensão e por isso tem se preparado para lançar o novo disco como GALI, seu novo nome artístico. Como empresária acumulou funções de publicitária, jornalista, apresentadora, palestrante e articuladora. Criou o mulhernamusica.com.br para estimular o conteúdo feito por elas e está aberta a quantas outras funções forem necessárias para fazer mais por elas.

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