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Malu Maria floresce e se expande em novo single, “Ela Terra”

Malu Maria floresce e se expande em novo single, “Ela Terra”

Em seu disco de estreia, Diamantes na Pista, Malu Maria nos chamou para dançar, impulsionando nossos passos com arranjos pop e ares psicodélicos. De lá para cá ela seguiu criando e seu novo single, “Ela Terra”, brota agora, neste momento de quarentena e incertezas.

O que podemos receber como um bom e apertado abraço. Em “Ela Terra”, Malu nos presenteia com uma canção madura e sensível, atando mãos com uma existência mais sustentável, não só do ponto de vista do consumo e produção, mas essencialmente da perspectiva do ser e estar aqui e agora. “Voltamos nossas atenções, por uma questão de sobrevivência até, a valores essenciais, necessidades básicas, empatia, afeto, cuidado com o outro. Estamos todos resinificando também o mundo virtual, entendendo como este pode ser um aliado, diminuindo as distâncias/trânsitos  e aumentando possibilidades de troca, por exemplo”, reflete Malu em entrevista exclusiva para a Mulher na Música.

Acompanhado de um clipe de beleza estonteante, gravado no litoral catarinense e bem antes do isolamento social acontecer no Brasil, “Ela Terra” é também o primeiro single do segundo disco de carreira da cantautora, que será lançado por completo em breve.

Interessada cada vez mais pelo diálogo e crescimentos coletivos, o vídeo homenageia e inspira-se nos povos indígenas, incluindo uma poderosa fala inicial na voz da poeta Marcia Kambeba. (Na próxima sexta-feira, aliás, dia 5 de Junho, Malu promove uma live no seu instagram batendo um papo com Kambemba, às 20:00. Imperdível!)

A seguir, confira o clipe e a entrevista completa com a Malu.

Malu, teu clipe é daqueles que a gente bate o olho e sente muitas referências presentes e, ao mesmo tempo, não sabe listar todas ou explicar como elas estão colocadas ali. Acho que isso é parte fundamental da concepção criativa do clipe, que no press release indica que você é uma das colaboradoras também. Pode revelar pra gente que história o clipe conta, quais as principais referências que estão ali e como ela se conecta à musica no seu ponto de vista?

A ideia principal foi fazer uma bruxaria na natureza. Ir de encontro a terra, deixar ela nos transformar e as imagens e paisagens falarem. Tínhamos um roteiro claro e a condução que a própria canção nos dava, mas, acima de tudo, estávamos prontos para escutar o que a terra queria. Trabalhamos com alguns símbolos como a ampulheta nas dunas e os gestos das mulheres na praia. Dividimos como se fossem cartas de tarô que vão se abrindo a cada cena. E os personagens apareciam como arquétipos. Quem alinhavou tudo com olhar de feiticeires foram Sillas H. e Vini Poffo que também filmaram, editaram e fizeram os figurinos.
O mais importante , desse trabalho é que consegui viver por trás das câmeras a mesma magia que conseguimos passar nas imagens. As mulheres que aparecem são muito importantes pro clipe, cada uma traz em sua presença, um tipo de força, uma beleza, um olhar, uma sabedoria, um arquétipo.Tenho entendido cada vez mais que a alquimia dos encontros e os processos são extremamente importantes e caminham lado a lado com o resultado final. Essa música é uma ode a terra, a mulher, a natureza, seu clipe é uma reverencia a tudo isso. No inicio do clipe, mostramos uma mulher presa, sendo solta pelas mãos de uma outra mulher (da querida Isabela Sucher) e em seguida falamos da relação do tempo, nas dunas, e o vento que transforma e esculpe as superfícies terrestres. A catarse se dá no mar (deve ser alguma influência glauberiana) com a chegada das outras mulheres e a libertação. Essa libertação é proposta tanto pra terra quando pras mulheres, uma vez que “Ela Terra” trata dessa relação. 

“Ela Terra” (Foto: Sillas H e Vini Poffo)

Ficamos curiosas sobre o processo de composição da faixa, sobre a revelação das montanhas como ponto de partida das ideias. Viver na cidade grande te distancia da natureza ou você acha que mesmo vivendo em São Paulo consegue manter essa relação? Se sim, como você segue mantendo esses laços com a terra? A música te ajuda nesse sentido?

Cresci no litoral, minha relação com a natureza é muito estreita, aprendi o mundo descalça e pelada. Nadando no mar, sacando a bravura de uma cachoeira, aprendendo sobre limites e respeito com os temporais, as correntezas e trombas d’água. Vi muitos plantios e nascimentos de sementes, entendendo sobre o tempo natural das coisas, o amadurecer dos frutos e o seu apodrecer, a morte no mesmo ciclo da vida, uma servindo a outra, retornando a terra como adubo e deixando novas sementes. Coisas muito básicas, mas extremamente necessárias para termos uma tranquilidade , um sensação de pertencimento e harmonia. A natureza nos explica tudo se soubermos ouvi-la e convivermos com ela.  Nela entendi, na entrada da adolescência também, sobre aceitar o ciclo menstrual, da mesma forma que sentia as fases da lua e sua influencia no comportamento dos animas, da plantação, das marés. Na maré cheia a gente pescava, muito mais peixe, por exemplo.  Na natureza nos entendemos, nos enxergamos e nos aceitamos. Sinto que esse distanciamento nos adoece. Gerando desde paranoias, até doenças físicas diversas. Agora mais ainda, estamos entendendo que dependemos e fazemos parte de um único ecossistema. Mas apesar de toda essa relação com a natureza, sempre estive na cidade grande também. Isso me proporcionou um olhar sobre o contraste da selva de pedras e as doenças que o afastamento pode gerar. Por conta disso, sempre mantive meu olhar atento em reconhecer a natureza, por mais camuflada que esteja, soberana  numa árvore, sutil num canteiro, confraternizadora num parque, ou numa boa subida ou ladeira reconhecendo na própria geografia – vales e montanhas , além de me atentar aos rios que correm  em baixo dos asfaltos, ou represados e poluídos beirando as marginais. De uma forma ou de outra, sempre presente.A música “Ela Terra” foi concebida em São Paulo, numa dessa conexões, quando estava na varanda da minha casa na Zona Oeste e vi  uma montanha super longe entre um prédio e outro. Reconheci a mãe terra imediatamente, naquele par de seios/montanhas entendi que não era mera coincidência a terra ser sinuosa e arredondada, como nós, mulheres. A canção surgiu num rebento, como uma declaração de amor a todas as mulheres e a mãe mor , geradora, acolhedora , nutridora. Fazer música é uma dádiva, poder reverenciar a terra e as mulheres em forma de canção foi um presente. Dediquei também essa canção aos povos indígenas e no clipe fomos agraciados pela introdução da indígena Marcia Kambeba, dizendo nos que a terra é de todos e que devemos cuidar dela. 

Essa música é uma ode a terra, a mulher, a natureza, seu clipe é uma reverencia a tudo isso. 

Ainda no tema de conexão com a natureza, na sua opinião, está permitido sermos otimistas em relação a eventuais mudanças de cotidiano social e econômico nessa era pós-coronavírus que se desenha? Como você sente que será o papel da arte – e dos/das artistas – neste novo momento? Já sente alguma mudança no seu fazer artístico a partir deste contexto que estamos vivendo?

Acho que fomos obrigados a nos contextualizarmos melhor em relação ao que somos e o que fazemos no mundo e pelo mundo. O tema mundo, planeta, tem sido muito abordado. Estamos juntos refletindo e analisando a vida, a morte. Todos estão mais sensibilizados, eu acredito. De uma forma ou de outra, as classes privilegiadas entraram em contato com temas como  desigualdade social, fome, falta de moradia e condições de higiene mínimas  trazendo assim a oportunidade para uma reflexão mais humanizadas sobre estruturas econômicas e politicas e sociais. Voltamos nossas atenções, por uma questão de sobrevivência até, a valores essenciais, necessidades básicas, empatia, afeto, cuidado com o outro. Estamos todos resinificando também o mundo virtual, entendendo como este pode ser um aliado, diminuindo as distâncias/trânsitos e aumentando possibilidades de troca, por exemplo.  Sinto que estamos reconstruindo naturalmente valores fundamentais, como por exemplo, a ética, mesmo sem saber ao certo no que vai dar. Não tem como não ser afetado diante desse quadro. Já estamos transformados. Isso certamente reverberará em diversas estâncias.  Em pequenas e grandes organizações. Na noção de indivíduo e coletivo. 

“Ela Terra” (Foto: Sillas H e Vini Poffo)

Por fim, queremos tornar a experiência da quarentena em algo mais criativo/informativo para nossas leitoras. O que você indicaria como conteúdos interessantes para elas neste período? Vale tudo: filme, livro, lives, séries de TV, discos… 

Terminei de ler o livro “A Queda do Céu” uma semana após ter me isolado no dia 14 de março. Achei bem simbólico, pois é um livro escrito por um xamã da tribo yanomami, Davi Kopenawa, onde ele descreve estados sensíveis de conexão com a natureza e nos alerta a possibilidade de enormes catástrofes (queda do céu) caso os homens brancos não respeitem/escutem a natureza. Tenho me alertado a lembrar dos meus sonhos e escreve-los. Vou começar um curso sobre sonhos com o Guilhermoso Wild este mês (quem tiver interesse, corre na página dele do Facebook). Adoro ver as lives da Blubell que rolam aos sábados, 19:00. Além de cantar lindamente, ela está com um programa novo chamado Máquina do Tempo, onde ela entrevista algumas pessoas. Tenho dado aulas de canto com meditação e isso tem me ajudado demais , pois além de meditar e cantar com os alunos, é minha fonte de renda atual. Aproveito para convidá- las. Só me chamar no meu instagram. E por último indico um festival de cinema indígena online, que a Unesco está organizando com cerca de 82 filmes realizados por indígenas, abordando a diversidade cultural dos povos originários em vários lugares do mundo.

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