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Giovanna Moraes mergulha fundo em suas incertezas no novo single “Devaneios”

Giovanna Moraes mergulha fundo em suas incertezas no novo single “Devaneios”

“Tenho um pouco de medo: medo ainda de me entregar pois o próximo instante é o desconhecido.” Essa frase é de Clarice Lispector, impressa em seu livro Água Viva (1973). É um mergulho na insegurança que todos nós temos, mas que nem sempre nos permitimos sentir e encarar de igual pra igual. É um mergulho que a cantautora paulistana Giovanna Moraes dá em seu vídeo-clipe – e single! – “Devaneios”, lançado recentemente.

A música reflete sobre encarar os nãos que a vida ás vezes nos coloca, a partir de um enfrentamento direto com nossos medos, incertezas ou inseguranças. Em entrevista exclusiva a Mulher na Música, Giovanna relata mais curiosidades sobre a faixa a partir de seu momento atual. Nos conta também das novidades que vem por aí – como seu segundo disco de carreira, Direto da Gringa – e outras inspirações, além de dar boas dicas para passar o tempo nesta quarentena. Leia a conversa na íntegra a seguir:

“Devaneios” é a primeira canção do seu novo disco. Por que ela como primeira faixa a ser apresentada? E o que podemos esperar deste novo álbum como um todo?

“Devaneios” é a primeira canção do Direto da Gringa, é o single que precede o álbum, mas também a primeira música do disco. Além disso foi uma das primeiras que colocamos voz – foi um “first” pra mim – um momento que marcou , onde surgiu pela primeira vez aquela adrenalina de perceber o quão FODA ficaria meu som em português. Por isso sua letra e melodia inspiraram muito o sentimento das outras músicas do álbum. Um sentimento de ser capaz – independente do que vem nas incertezas do mundo – de ser capaz de fazer as coisas do meu jeito e construir o que eu quero para minha vida. Eu sempre gostei de fazer as coisas do meu jeito, não tenho muito paciência pra coisas muito dentro da caixinha. As vezes o que crio causa uma resistência – um sentimento no ouvinte padronizado, aquela sensação de “não pode fazer isso” ou “isso tá errado”. A música e o álbum é uma resposta a todos esses nãos que carreguei, de certa forma minha vida inteira, e que esse álbum me ajudou a descarregar. Tipo um: “ah é não dá, ô se dá, olha aqui queridão rs”.

Giovanna Moraes (foto: Divulgação)

O que você sente que o novo disco traz do primeiro álbum, Àchromatics (2018) e o que ele traz de inédito? Quais foram as principais inspirações – sonoras, temáticas e/ou estéticas – que impulsionaram o processo criativo deste novo trabalho?

É um álbum mais confiante do que meu primeiro disco, transparecem emoções, momentos e processos muito diferentes de criação. Exemplificando como elementos, o Àchromatics é terra: ele trouxe um ecossistema de músicas antigas, canções que me acompanharam como um terreno de catarse, por mais de uma década de dúvidas e transformações. Até finalmente decidir “virar artista” e gravar elas em 2017.  Já o Direto da Gringa vejo como água. A água não tem forma, ela escorre e carrega com ela pedaços de todos os lugares por onde perambulou. Nada segura água: a água passa por cima, a barragem estoura, não aguenta pressão. É um som de enchente. Tem uma urgência nas emoções, nas letras feitas a flor da pele, dentro do que eu estava vivendo enquanto gravava. Água transparece liberdade, liberdade de criação. E houve muita liberdade no Direto da Gringa. As músicas não estavam prontas antes de gravarmos, não teve guia ou pré, o processo de criação e o de produção andaram lado a lado. Isso foi interessante porque o som não tinha formato, ele foi aparecendo. É um som fluido, que explora muitos gêneros musicais, com timbres e harmonias não convencionais, mas ainda de uma maneira leve, pop. Tem algo do movimento tropicalista nisso, de fundir tradição com modernidade sem sucumbir a pressões do popular, de redefinir os próprios parâmetros do fazer musical, expandindo os limites do popular e abrindo caminhos novos para experimentos sonoros e interpretativos na música brasileira. Assim o Direto da Gringa é minha releitura sob música e canção brasileira. 

O clipe também é feito todinho por você, né? Qual a parte mais interessante de criar todos estes conteúdos por si mesma? É por uma postura/questão artística pessoal ou acabou sendo resultado deste contexto de quarentena?

Admito que a quarentena ajudou firmar a decisão, mas por hora estou achando legal montar os clipes. Vivemos em um mundo audiovisual, não basta só a música, precisa da imagem, da comunicação do artista com seu público. Todo mundo sabe: tem que ter clipe! Isso já me gerou muita ansiedade no passado, tem que ter clipe, e o artista independente procurando ajuda muitas vezes encara um muro de perguntas: qual música? Tem roteiro? Tem locação? Quem são os profissionais envolvidos? Me dava tanta agonia tentar resolver todas essas vírgulas que hoje tento encarar o fazer clipes como uma extensão da minha arte. Pego uma câmera filmo umas brincadeirinhas dentro de algum tema e aí vou montando e vendo o que acho que falta. Muitos experimentos e muitas camadas. Não é uma baita produção, é parte do processo de criação. E assim eu largo a ansiedade e passo a curtir fazer. O que ajuda é que eu adoro filmar coisinha, filmo de tudo, coleciono muitos momentos e detalhes que capturaram minha atenção. O clipe de “Devaneios” inclusive tem alguns detalhes que capturei em Portugal, no Chile e até no Tahiti! Tem um elemento de vídeo diário nisso que acho muito bacana. Ás vezes acho que estamos esgotados com o ultra produzido, acho que tem uma beleza em saber que aquilo não foi montado ou planejado, acho que tem algo legal em deixar o espectador fazer parte dessa coletânea de momentos.  Esse vai ser um álbum extremamente audiovisual: além de clipes produzidos por mim também conta com uma série bastidores (1 episódio por música) produzida pela Karú Martins, que filmou todo o processo de produção/criação do disco no Tannus Estúdio. Convido assim o espectador a acompanhar e se apaixonar com o processo todo. 

Por fim, queremos tornar a experiência da quarentena em algo mais criativo/informativo para nossas leitoras. O que você indicaria como conteúdos interessantes para elas neste período? Vale tudo: filme, livro, lives, séries de TV, discos…

Recomendo o livro “A Mão Esquerda da Escuridão”, da Ursula K. Le Guin, uma premiada escritora dos EUA, e que conta a história de um rapaz que é representante do seu planeta e viaja até outro planeta para tentar uma coalizão entre esses dois mundos. E neste planeta onde ele chega não existe gênero feminino ou masculino. É interessante porque a população varia ambos os gêneros, você pode ser pai e mãe de alguém ao mesmo tempo, é uma escrita sensacional. A sonoridade da leitura é bem interessante também, dá pra perceber que ela pensa muito em como as coisas serão “ouvidas” na leitura. Outra sugestão é o conto de literatura fantástica que eu escrevi, “As Aventuras de Tim”, que foi musicalizado e pode ser ouvido por completo aqui. Por último indico o livro “A Writer’s Book of Days”, da Judy Reeves. É um livro com ótimos recursos e ideias para você ativar suas escritas e também revela algumas curiosidades sobre estes processos, como por exemplo, a importância da prática diária da escrita. Escrever todos os dias do ano, no tempo que der. Isso vai melhorando o que você escreve naturalmente. Eu o li antes de alguns processos de composição, escrevia com auxílio daqueles timers de cozinha, sabe? Escrevia por meia hora e via o que que acontecia. Meu processo criativo é feito de vários desses momentinhos que fui escrevendo, quase uma coletânea deles.

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