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Indy Naíse é puro amor em nova fase e no feat. com Mulambo: “Meu Sim”

Indy Naíse é puro amor em nova fase e no feat. com Mulambo: “Meu Sim”

De Juazeiro (BA), um canto bonito se estendeu a todo o Brasil. A garganta que o guarda é dona também de uma fala tranquila e suave, carregada de uma energia boa, que a gente sente até mesmo por meio de um áudio de whatsapp. Quem fala? Indy Naíse, cantora e compositora baiana que neste último dia dos namorados lançou uma love song daquelas… “Meu Sim” é um feat. da artista com o rapper, produtor e fotógrafo Mulambo, nome que, assim como Indy, vem cada vez mais despontando na cena autoral brasileira.

Em “Meu Sim” a dupla explora com muita organicidade a canção, que também foi composta pelos dois. E o clipe também não fica para trás, transmitindo uma naturalidade romântica e afetiva em tempos de isolamento social. Feito de uma maneira totalmente caseira e à distância, o truque da edição deixou um de frente pro outro, metaforizando a situação de tantos casais que, por conta da pandemia de Covid-19, não podem se abraçar ou se ver por aí.

“Meu Sim” é também acalanto para o povo solteiro, muito por conta de seu swing gostoso, na medida certa pra’quela dança sensuellen na frente do espelho com uma breja na mão. Só vai:

Lembra dos áudios de whatsapp citados no começo deste texto? Pois bem, foi assim que a Indy respondeu à uma entrevista exclusiva para a Mulher na Música. No papo, a cantora nos revelou toda a história por de trás de “Meu Sim”, comentou sobre a fase atual de sua carreira e tantas outras ideias mais. O papo completo você lê a seguir:

Vamos começar pelo começo: Indy, no “É Questão de Cor” (2018), seu primeiro disco, existe uma Bahia pulsante nas melodias e, ao mesmo tempo, uma universalidade intrínseca às letras. Aquela coisa de falar daqui pro mundo. Praticamente dois anos depois deste álbum, o que mudou em você de lá pra cá? E o que você sente ter colhido, pessoal e profissionalmente  a partir do “É Questão de Cor”?

Quando eu lancei o “É Questão de Cor” eu tinha 25 anos. E na verdade a gente tinha se programado para lançá-lo em 2017 [um ano antes], então eu comecei a pensar nele com 23. E aí por motivos variados, como falta de grana e tempo, ele saiu em 2018, aos quarenta e cinco do segundo tempo. Então eu já era outra pessoa, né? Muita coisa mudou de quando eu gravei até eu lançar o “É Questão de Cor”. Depois que eu lancei o disco, eu amadureci sobre os discursos que eu trago nele, a musicalidade também, do quanto eu gostaria de explorar e tenho me explorado, musicalmente falando. Acredito que tenha sido essa maturação, sabe? Pessoalmente falando, o que eu colhi foi uma visão muito mais ampla do discurso que eu trago no disco. Tanto racial, quanto social. E profissionalmente me abriu muitas portas. A partir desse disco eu trabalhei com grandes nomes, como Emicida, IZA e no próprio disco eu conto com a participação do Rincon Sapiência. Até por conta dessa participação eu e o Rincon formamos um vínculo profissional, estamos planejando lançar mais coisas juntos. Eu tenho muito orgulho do “É Questão de Cor”. É um disco que traz um debate, acredito que futuramente ele terá uma relevância sócio-cultural muito forte. Eu me sinto contemplada e presenteada pelo universo de ter conseguido colocar esse trabalho na rua. E por mais que eu tenha amadurecido e mudado, ele ainda reflete muito de mim. Reflete quem eu sou, de onde eu vim e o que eu fui. Tenho muito orgulho. Foi um disco que me engrandeceu muito, enquanto artista e pessoa. Tô ansiosa para o próximo.

Indy Naíse (foto: Vitor Manon)

Na sua biografia li que você está radicada em São Paulo faz um tempo já. Sente que a cidade te provoca em relação ao seu fazer artístico?

Eu moro em São Paulo a maior parte da minha vida, é muito natural que ela me provoque e me inspire na hora da minha criação artística, né? Tem muito a ver com a minha vivência. Eu cresci na periferia de São Paulo, na Zona Sul, então tudo que eu trago tem a ver com o que eu vivi, né? Com o que eu passei. E também outros elementos. As minhas vivências da cidade de onde venho, Juazeiro, Bahia e as minhas vivências em casa, com uma família que é completamente nordestina, tudo isso acaba se cruzando e se complementando na hora de criar.

Eu tenho muito orgulho do “É Questão de Cor”. É um disco que traz um debate, acredito que futuramente ele terá uma relevância sócio-cultural muito forte.

Agora, chegando mais perto do presente, queria saber de você. Como você está? No geral mesmo. Pergunto isso pois espera-se sempre uma postura de firmeza das mulheres, uma injusta impossibilidade de se deixar desanimar ou entristecer e, num recorte específico sobre as mulheres negras, esta exigência às vezes ganha uma intensidade maior. Como tem encarado os dias? E o que acha que tem aprendido com tudo isso?

Neste momento eu me sinto em espera. Procurando equilíbrio. E muitas vezes não é fácil, justamente por essa pressão de sempre estar bem e se mostrar uma mulher forte… Eu sinto que preciso trabalhar uma calma dentro de mim, tentar trabalhar minha ansiedade. Neste momento de pandemia você não sai, não vê sua família, seus amigos. A rotina é praticamente igual dentro de um quarto, de uma mesma casa, de uma mesma sala. Ás vezes é bastante angustiante e desesperador. Então eu tô tentando trabalhar minha ansiedade. Muitas vezes não é fácil, eu entro em crise. Neste momento estou numa semana ótima, depois de semanas muito conturbadas. E eu sinto que neste momento o que eu tenho aprendido é o autoconhecimento mesmo. Lidar com a própria cabeça não é fácil. São muitas coisas que a gente cria que a gente não sabe distinguir se é real, se é algo que tá sendo criado… E é esse processo, né? De autodescobrimento e autoconhecimento. Tô nesse processo ainda e a quarentena ás vezes tem sido boa nesse sentido, mas ás vezes tem sido angustiante. Mas a gente vai levando, né? Tenho o apoio do meu companheiro, apoio de amigas e tenho o apoio da minha equipe, então quando eu preciso eu tenho um suporte.

É um afago ouvir e ver uma música-clipe como “Meu Sim” no meio desse caos, um respiro de amor mesmo. Queria entender como essa parceria aconteceu. Vocês e Mulambo já eram amigos antes desse feat? O que você levou de você pra música? 

Eu e Mulambo nos conhecemos ano passado. Ouvi o trabalho dele no Spotify após a indicação de um amigo meu do Quebrada Queer e gostei muito. Depois disso eu e Mulambo começamos a conversar sobre fazer algo juntos, a partir dessa admiração. Foi uma parceria incrível com o Mulambo. Ele me mandou o verso dele e um beat que ele pegou na internet e tinha colocado o flow e a melodia dele… E eu tinha uma poesia já guardada, que na verdade tinha sido escrito para um amigo meu. Daí eu só adaptei algumas coisas para fazer sentido numa vida de casal. Mas retrata muito uma vivência de amizade mesmo, cumplicidade. A gente ás vezes tem essa coisa de falar do afeto apenas como uma pessoa que você troca afeto íntimo, mas eu acho muito importante também a gente escrever sobre o afeto da amizade, né? Porque ele também é real, ele também existe. Eu sinto que ás vezes é um tabu essa questão da amizade entre homem e mulher, né? E é muito louco também que a gente precise dessa amizade nas nossas relações, precise nutrir essa amizade e essa cumplicidade nas nossas relações. Achei que tinha tudo a ver. Porque também reflete a minha atual relação. Uma relação de amizade, de cumplicidade, de suporte e companheirismo, então tem muito de mim nessa letra para além de ser uma letra na qual eu falo de amizade, ela acaba também sendo minha vivência afetiva e amorosa.

Frame do clipe “Meu Sim”

Cantar sobre amor te gera quais significados e sensações?

Cara, tá meio nítido que eu estou vivendo uma outra fase da Indy Naíse onde eu tenho escrito só sobre afeto. Acho que porque eu tô vivendo, imaginei e sempre quis pra mim e nunca achei possível, né? Amar e me sentir amada, de uma maneira recíproca. Tive meu primeiro namorado aos 21 anos, mas mesmo assim não sentia que era uma relação de completa entrega. Foi uma relação na qual me sentia muito insegura e na qual eu permaneci por muito tempo por achar que eu não encontraria outra pessoa, que pudesse me amar, me sentia insuficiente de alguma forma, a autoestima era completamente minada. E após sair dessa relação, eu tive outros afetos, comecei a me trazer para o centro dos afetos, né? E comecei a escrever sobre amor. E desde então só tenho escrito sobre isso, tem sido uma experiência avassaladora para mim. Muito significante e verdadeira, é nova também, né? É recente se for parar pra pensar, 2018. Foi aí que eu realmente comecei a colocar nas letras como era estar me sentindo amada, como era estar amando de fato. E tudo isso tinha a ver com a autoestima, porque antes de falar sobre o amor de alguém, veio o amor próprio. Antes disso eu consegui encontrar o amor próprio, me senti autossuficiente após o termino dessa relação. Aí sim eu me senti pronta para amar novamente e pronta para falar de afeto, que era uma coisa muito delicada, eu não conseguia mesmo.

Comecei a me trazer para o centro dos afetos, né? E comecei a escrever sobre amor. E desde então só tenho escrito sobre isso, tem sido uma experiência avassaladora para mim.

O clipe de “Meu Sim” traz um ar íntimo muito propício a esse momento também. Li no press release que vocês adaptaram sua produção dentro do que este momento de isolamento social pede. Como você e Mulambo chegaram às ideias de concepção do vídeo? 

Mulambo e eu tínhamos outra ideia para o videoclipe antes da pandemia. Porém, conforme o tempo foi passando, vimos que não daríamos pra reunir uma equipe, pela segurança de todo mundo envolvido. É um momento que a gente tá pensando muito no coletivo, né? E não cabe a gente se colocar na frente dele por causa de um trabalho. Pra mim isso soa até como um capricho e irresponsabilidade. Daí nós, minha equipe e a dele, começamos a discutir o que era palpável, o que a gente podia fazer. Anteriormente a gente pensou num lyric vídeo, mas não soou suficiente pra gente. Tá, o que a gente pode fazer que ainda não fizeram? E nessa quarentena a gente fez algo que a gente ainda não viu sendo feito, que foi essa questão da interação à distância, né? E também trouxemos casais amigos nossos para participar, pra somar na produção. O que foi ótimo e gerou um resultado que eu tô muito, muito, muito satisfeita mesmo.

Indy Naíse (Foto: Vitor Manon)

Teremos mais lançamentos da Indy em 2020? Se sim, pode nos adiantar algo?

Os planos que tínhamos para este ano tivemos que adiar para 2021. Mas eu tô usando desse momento para me planejar, criar estratégias para estes projetos que tínhamos em mente. E eu ainda não posso adiantar que projetos são esses, quero que seja surpresa, mas são coisas muito bonitas que vão mostrar um outro lado meu.

Por último, uma pergunta um pouco mais ampla: na Mulher na Música-SÊLA, a gente tá sempre promovendo mulheres a seguirem seus sonhos de trabalhar com música, seja em cima ou atrás dos palcos. Enquanto artista independente, que gera sua própria carreira, quais suas expectativas e/ou palpites sobre o mercado musical brasileiro daqui em diante? E quais conselhos você daria para mulheres da música que estão prestes ou a fim de lançar suas carreiras ou primeiros movimentos agora: esperar ou avançar?

Acredito que o mercado musical brasileiro tá tentando entender o que tá acontecendo e procurando se reinventar conforme as ferramentas que nos restaram, né? Eu não tô criando muitas expectativas positivas após este momento passar, porque nós fomos os primeiros a parar, né? Nossos shows foram adiados ou cancelados, nossos eventos… E se a gente tinha projetos, não colocamos em frente, porque não pudemos nos reunir com nossas bandas, nossas equipes… Quem tem home studio tá suave, mas a maioria dos artistas não tem, né? Não tem esse acesso, muita coisa foi pausada. E por isso tudo acredito que seremos os últimos a voltar. Vejo um mercado que após tudo isso vai engatinhar e vai se dar melhor quem tem maior visibilidade, maior público, grandes gravadoras. Artistas como eu, que são independentes, acredito que é isso: usar este momento de agora para planejar e se preparar, para quando tudo isso passar, conseguir voltar à ativa de uma forma que não nos prejudique. O meu conselho inclusive para essas mulheres da música que estão prestes ou a fim de lançar suas carreiras, começar seus primeiros movimentos, delas usarem este momento para criar um plano estratégico para quando tudo isso acabar chegarem chutando a porta. Eu mesma estou utilizando deste momento como uma pausa para analisar e, ao mesmo tempo, não é uma pausa como se eu tivesse sumido, né? Continuo produzindo conteúdos nas minhas redes, conversando com o meu público, porque eu acho isso importante. Então, é tentar usar esse momento o máximo possível a seu favor. Eu acredito que a cautela é a nossa maior arma. A cautela, o cuidado e o foco.

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