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Victoria Saavedra é pura renovação em “Peripécias”

Victoria Saavedra é pura renovação em “Peripécias”

A colombiana Victoria Saavedra, radicada no Brasil, mais especificamente em São Paulo (SP) tem muito a nos ensinar. Em suas redes sociais a gente encontra conteúdos diversos, sejam curiosidades sobre um típico desayuno (café da manhã) colombiano, sejam dicas de flerte em espanhol. A personalidade de Victoria pulsa uma latinidade única e divertida, algo que ela soube explorar em seu mais novo single, “Peripécias”:

Victoria traz uma potência de voz que somada à sua interpretação pessoal imprime em “Peripécias” um tom alto astral e ao mesmo tempo ancestral, como uma dança sobre as veias da América Latina. Em entrevista por e-mail à Mulher na Música – SÊLA, Victoria nos contou sobre reviravoltas nas ideias, dificuldades e esperanças no fazer musical e sobre fazer as pazes consigo mesma. Tudo isso e mais um pouco você lê a seguir.

Após o lançamento de Remanso Entre Raízes (2017) , houve um período que ficamos sem movimentações suas na música. “Peripécias” chega com tudo agora, não só pela produção contagiante e envolvente, mas também porque te traz de volta à cena após um tempo sem lançamentos inéditos. Em que sentido esse tempo te preparou para “Peripécias” e o próximo trabalho que está por vir? 

Opa, dessa pergunta poderia sair um livro! Remanso Entre Raízes foi um grande aprendizado de tudo, tenho um carinho imenso pelas portas que ele me abriu e o tanto que eu aprendi e cresci com esse trabalho. Foi o meu primeiro disco e cada passo que eu dava era meio chute no escuro. Afortunadamente a galera que me guia e me acompanha parece que não deixa eu fazer ‘muuuuita’ bagunça como acho que poderia acontecer, se não fossem por eles me acompanham. De Remanso eu sai cansada, me vi trabalhando para o meu trabalho e sem energia, nem tempo, nem grana para mais nada. Por algum motivo, Remanso conseguiu se sustentar sozinho por pelo menos mais um ano e meio. Juro! Depois de 2017, que foi o ano de lançamento e de maior movimento, eu não sentei um dia para fazer ligações, parcerias, mandar material ou fazer venda alguma, não queria saber e nem tinha muita vontade de tocar o trampo, ele andou sozinho por um  tempo – e isso também foi um aprendizado. Nos finais de 2018 eu tinha decidido largar a música e ir embora do Brasil. Iria me despedir com dois singles e era isso. Fiz todos os movimentos possíveis para que assim fosse, entreguei apartamento, vendi ‘tuuuuuudo’ o que eu tinha, comecei a ver opções de trabalhos na Colômbia, em outras áreas. Detalhe: eu não verbalizava que eu fosse sair da música, ninguém sabia. Conclusão: 2019 foi uma zona. Treta com a família, relacionamentos amorosos bem malucos e confusos, trabalho, amizades… Tipo, coisas que sempre andavam muito na paz saíram total do meu controle. E como não, se eu tava tretando com a minha paixão maior, a música? Então sim, Peripécias é um disco de reconciliação entre a música e eu, é um projeto de muita sinceridade comigo, é o resumo de vários aprendizados e várias quedas. Estou bem apaixonada por esse novo trabalho.

Você é parceria musical de uma galera muito boa e já reconhecida na música brasileira atual, como Luedji Luna, Anna Tréa… E na Colômbia, você também possui conexões musicais ativas? Se sim, pode nos indicar alguns nomes interessantes pra gente incluir em nossas playlists?

Tenho conexões na Colômbia sim, eu comecei a estudar música bem nova e a minha vida social se reduziu por muitos anos aos colegas, professores e mestres que a música apresentava, principalmente aos que pertenciam ao que se chama de “novas músicas colombianas”, que era o movimento forte que estava rolando na época. Vários desses ‘serzins’ estão na minha vida até agora e outros novos tem chegado, mesmo eu morando longe. Aqui deixo uma listinha de alguns projetos musicais muitos legais e reconhecidos dos quais alguns desses amigues fazem parte hoje em dia… Tem um pouquinho de tudo! Choc Quib Town , Grupo Bahia, Puerto Candelaria, Mojarra Electrica, La Mambanegra, Mosieur Periné, Orito Cantora, Andres Correa, La perla, Totó la Momposina, Gregorio Uribe, Lucio Feuillet, Los Rolling Ruanas, Nidia Gongora, Phonoclórica…

Faz quanto tempo que você está vivendo no Brasil? De lá pra cá, se você pudesse fazer um balanço geral de tudo que viveu, gerou e recebeu daqui, coisas boas e ruins, quais momentos ou sensações você destacaria?

Eu estou no Brasil já faz 10 anos e meio. E com certeza o balanço é positivo. Tem sido muitos aprendizados com relação a mim, ao meu jeito de ver o mundo e o mundo das pessoas que por mim tem passado. Eu não posso reclamar. Tudo o que tenho aprendido mesmo que tenha sido pela dor tem sido infinitamente gratificante. Sensações e momentos para destacar… Nossa senhora!! Lembro muito da época que a minha avó materna ficou muito doente e faleceu, tudo foi bem rápido. Eu não podia estar na Colômbia por mil e um motivos, fui a única da família que não esteve. O louco é que eu me senti muito perto dela e de um jeito ou outro fizemos a nossa despedida. Essa sensação, de estar perto mesmo estando longe, sabe? Com certeza uma coisa que tenho aprendido é a resinificar a saudade e a solidão. Outro momento bem marcante e lindo demais foi o dia da gravação do clipe de “Peripécias”, que em breve vocês vão ver! Esse dia foi uma avalanche de amor e de entrega. Eu não entendi até agora como é que tinha tanta gente animada, trabalhando de lá para cá que nem doido, acordando cedo… Claramente não era pelo cachê, porque esse foi bem reduzido. A galera estava lá pela arte, ou pela relação que tinha com o amigo do amigo, do amigo, que lhe disse que “essa mina” – no caso, eu – era uma cantora muito legal e que ia ser muito massa participar desse clipe… Todo mundo acreditando em algo que não tinham visto. Nem tinham ouvido a música ainda, sério! Inclusive, decidir lançar agora este trabalho foi uma pequena briga interna, mas merecia muito. Prefiro e quero acreditar no tipo de pessoas que estavam naquele dia no set de gravação e nas que fazem parte do disco. Quero pensar que somos mais, quero continuar com a convicção de que a arte movimenta e pode gerar mudanças imensas no mundo e sacar e melhor de nós. 

“Peripécias” exalta um orgulho latino muito vívido e pulsante. A identidade latina atravessa sua sonoridade com muita naturalidade. E, ao mesmo tempo, o Brasil ainda mantém uma certa distância de diálogos e unidades culturais dentro da América do Sul. Como tem sido pra você furar essa bolha a partir da cena de São Paulo?

Olha, vou te dizer que não sei se furei muito alguma bolha não. Sei que rola uma reticência com artistas de fora do Brasil, muito mais se são latinos e ‘muuuito’ mais se não fazem exatamente o que está no imaginário do que, no meu caso, uma cantora colombiana deveria cantar (valha a redundância), deveria fazer, deveria vestir, deveria, deveria, deveria… Acredito que tudo isso só tem me dado muita força e meio que virou uma questão de honra, risos… Meu trabalho sempre tem mostrado de alguma forma a minha identificação e o fascínio com o nosso continente. E não é que todo mundo tem que super se orgulhar de ser latino, claro que não, mas sim, acho importante a gente saber que a gente pertence a uma coisa muito maior, conhecer a nossa história, nos apaixonarmos pela nossa cultura, pelas nossas paisagens, tudo isso fortalece, isso gera segurança e nos dá um chão muito mais firme para podermos andar.  As relações que tenho estabelecido ao longo dos anos com certeza tem sido, porque as pessoas se identificam rapidamente quando eu trago esse assunto à tona, é meio uma luzinha que acende de eu só mencionar o óbvio e o que nos conecta, além claro, da música em si. O mercado tem mudado bastante sim, e hoje em dia o Brasil tem mais interesse pela música dos outros cantos da América Latina, mas ainda tem muita coisa que precisa acontecer e parar de ser encaixotada. Mas vamos indo.

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