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“O importante é se orgulhar do que está lançando para o mundo ouvir”, reflete Marina Reis, da PLUMA

“O importante é se orgulhar do que está lançando para o mundo ouvir”, reflete Marina Reis, da PLUMA

De cores intensas e num flow divertido, o clipe de “Mais do Que Eu Sei Falar”, lançado neste final de Julho, é um ótimo retrato da banda PLUMA, criada em São Paulo, originalmente como um grupo de TCC e que neste ano começa a dar seus primeiros passos dentro da cena independente brasileira. Com referências a um neo jazz com ares psicodélicos e indies, a PLUMA também decora sua sonoridade num pop eletrônico, apostando num uso criativo de synths e beats.

Essa miscelânea de elementos musicais pode ser explicada a partir da própria formação da PLUMA: uma mina e três caras. Marina Reis é a vocalista e também compositora. Diego Vargas, Lucas Teixeira (O Grilo) e Guilherme Cunha também compartilham algumas das composições, construção de arranjos e ideias de produção, afinal, estamos falando de uma banda de quatro produtores.

“Nosso processo de composição e produção sempre foi muito democrático e coletivo. Algumas músicas começaram a partir de uma composição minha ou do Dizzy [apelido de Diego Vargas], mas também já construímos outras a partir de uma linha de baixo ou alguma ideia rítmica”, revela Reis em entrevista exclusiva para a SÊLA-Mulher na Música. “Quando a gente gosta de uma ideia e decide levar ela até o final, nos juntamos no estúdio e terminamos de compor e arranjar tudo em grupo”.

Prestes a lançar o EP de estreia da carreira, Mais do Que Eu Sei Falar, a PLUMA já revelou o single clipe-homônimo e um anterior, “Esquinas”, que veio acompanhado de um lyric-vídeo realizado e totalmente embebido pelo contexto do isolamento social. Reis também participou do processo de edição do vídeo, reforçando um dos aspectos mais evidentes da PLUMA: o “do it yourself” levado a às últimas potências.

A seguir, leia o papo completo que tivemos com Marina Reis e fique de olho na PLUMA, que vem chegando com uma sonoridade envolvente e colorida para furar o desbotado desse ano tão complicado.

Marina, a Pluma nasceu dentro do curso de Produção Fonográfica, como um projeto de TCC. A partir disso, surgiu a curiosidade sobre a sua história pessoal, o que vem antes dessa graduação. Como e desde quando a música entrou na sua vida?

Na verdade, antes mesmo de cantar, eu comecei a fazer aula de violão quando eu tinha nove anos. Até hoje toco bastante, mas já faz uns quatro anos que a voz passou a ser meu instrumento principal. A música desde sempre esteve muito presente na minha vida, cantava no coral da escola quando era menor, sempre amei cantar. Mas foi em 2017 que decidi levá-la como carreira. Estudei durante um ano pra entrar na Berklee College of Music e passei. Como não consegui pagar a faculdade, acabei cursando produção musical aqui em São Paulo [na Faculdade Belas Artes] e foi aí que comecei a descobrir meu interesse pela área da produção.

Agora que você já nos contou sua história pessoal, a gente volta pro momento presente, pra falar da PLUMA. Como que acontece esse processo criativo entre quatro produtores formados? Alguém dentro da banda compõe mais e os outros vão afinando outras ideias por cima ou é uma onda mais coletiva?

Nosso processo de composição e produção sempre foi muito democrático e coletivo. Algumas músicas começaram a partir de uma composição minha ou do Dizzy [apelido do Diego Vargas], mas também já construímos outras a partir de uma linha de baixo ou alguma ideia rítmica. Quando a gente gosta de uma ideia e decide levar ela até o final, nos juntamos no estúdio e terminamos de compor e arranjar tudo em grupo. A gente nem sempre chega em consensos imediatos, mas as discussões e os desentendimentos geralmente levam ao melhor resultado possível.

Por mais que ainda seja evidente a disparidade entre os gêneros nesse ramo, eu vejo cada vez mais mulheres fodas, que me inspiram, ocupando seus devidos lugares no mercado como produtoras, técnicas de som, compositoras, etc

Aqui na SÊLA-Mulher na Música, como o próprio nome já adianta, a gente fala muito das mulheres que atuam neste setor, em cima ou atrás dos palcos, as que operam da house mix ou numa mesa de estúdio. Trazendo esse recorte de gênero, a gente queria ter seu relato enquanto produtora formada, que traz essa perspectiva inclusive mais acadêmica da área. Você tinha bastante colegas de sala também mulheres? Atualmente, identifica que tipo de situações ao redor do ingresso de mulheres no showbizz?

Na minha turma da faculdade a diferença entre a quantidade de homens e mulheres era bem evidente. De mais ou menos 60 alunos, 8 eram meninas. E no final do curso sobrou apenas eu e mais duas. Depois de me formar, comecei a cursar o IAV [Instituto de Áudio e Vídeo] que abrange um lado mais técnico da produção fonográfica. E lá também, de mais ou menos 25 alunos, só 4 eram mulheres. Por mais que ainda seja evidente a disparidade entre os gêneros nesse ramo, eu vejo cada vez mais mulheres fodas, que me inspiram, ocupando seus devidos lugares no mercado como produtoras, técnicas de som, compositoras, etc. Além disso, a cada semestre eu vejo mais mulheres ingressando nos cursos de produção musical, o que me deixa otimista.

PLUMA (Foto: Amanda Oliveira)

Ainda nesta área de produção musical, é comum primeiros projetos acontecerem por meio de gravações caseiras, músicas compostas e produzidas num quarto ou numa sala. E, ao mesmo tempo, muitas bandas e artistas solos não dispõe de recursos para uma mix ou master de qualidade, o que pode prejudicar no acabamento e, consequentemente, no alcance dessa música. Como produtora e artista independente simultaneamente, que dica você daria pra mulherada que tem demos na gaveta e não sabem se soltam ou não? Um pós-acabamento faz a diferença nestes primeiros lançamentos ou essa estética lo-fi mais espontânea pode ser algo a se explorar também?

Acho que as duas possibilidades podem ser verdadeiras. No nosso caso a mixagem das músicas, feitas por Hugo Silva, transformaram e consolidaram nossa estética sonora e fizeram toda a diferença para que a gente pudesse lançar um conteúdo do qual nos orgulhamos muito. Ao mesmo tempo, cada vez mais o dinheiro deixa de ser uma necessidade para se chegar numa sonoridade legal e a estética lo-fi está aí para ser aproveitada, caso seja a intenção da artista. O importante é se orgulhar do que está lançando para o mundo ouvir, e para isso muitas vezes não é preciso uma enorme produção ou um grande investimento. Acho que falta de dinheiro nunca deve ser um motivo para não lançar um trabalho pessoal, mas é importante ter certeza de que ele está sendo lançado da melhor forma dentro do possível.

Por fim, uma pergunta que não pode faltar: quais mulheres tem rolado mais nos seus fones de ouvidos e que você poderia indicar pra gente? Brasileiras ou gringas, atuais ou de outras gerações, a gente quer saber o que tem rolado nos seus players por aí

Algumas artistas brasileiras que tenho escutado muito esses últimos tempos são Maria Beraldo, Letrux, Maria Rita, Ana Frango Elétrico, YMA, Jadsa… La Leuca, uma banda feminina que descobri recentemente e gostei demais. São apenas algumas das várias musicistas e produtoras femininas que me inspiram e abrem o caminho para outras que ainda virão.



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