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Iná Iê não aguenta mais 2020

Iná Iê não aguenta mais 2020

Conheci Iná Iê poucos anos atrás, quando soube da sua campanha de financiamento coletivo para a produção de uma tríade de videoclipes de canções que abordavam diferentes processos de uma mulher ao viver um relacionamento abusivo. Mais do que identificar o abuso sofrido e se libertar da relação, Iná Iê queria transmutar o acontecimento em arte. Corajosa – característica tão importante a uma artista.

De lá pra cá, muita coisa aconteceu e Iná Inê lançou, bem em meio à pandemia do novo coronavírus, seu disco “ABERTA Pelo Amor da Deusa”. Lançou também novos clipes, fez live do disco, inventou versões de músicas. Tudo de casa. Foram tantas ideias dentro do período de confinamento que a artista resolveu desabafar (mais uma vez, em forma de música): “Eu Não Aguento Mais” é uma faixa sincerona, sagaz e moderna.

As mudanças em Iná Inê são notáveis, não só sonoramente como no clipe pop que a acompanha, e, acho, apontam para novos rumos estéticos da sua carreira. Conversei com ela com a sinceridade de quem também não aguenta mais pra saber sobre seu processo criativo durante a pandemia, o momento presente, como será o amanhã e o governo Bolsonaro sob a visão de uma mulher artista. A entrevista na íntegra está aí e o clipe de “Eu Não Aguento Mais” também. Não aguentamos, já deu.


1) Você lançou seu disco em meio à pandemia do novo coronavírus. Que sensações teve dos efeitos desse processo?

No começo tive medo. Até pensei em adiar, mas nossa, já tinha adiado tanto esse sonho que passei a acreditar que era pra ser assim mesmo. Depois do lançamento foi muito interessante observar que, apesar de não ter a oportunidade de fazer shows ao vivo, a pandemia, ou melhor, o isolamento, acabou aumentando muito o movimento nas plataformas de streaming. E meus números de ouvintes e de streamings foram subindo cada vez mais desde o lançamento. Então foi uma mistura de sensações rsrs. Com lados negativos mas também muito positivos em alguns aspectos.

2) Foi também em meio à pandemia que você explorou sua identidade artística, experimentando formatos. O caos é criativo ou foi pura necessidade?

O caos é super criativo com certeza mas também foi como fazer as limonadas com os limões que eu tinha. Nos últimos anos eu tenho explorado bastante os formatos, principalmente dos videoclipes. E foi bem linda a experiência de me entregar ao máximo às possibilidades. Lá no começo do ano me arrisquei nas animações de O Urso e A Lua, e foi um grande aprendizado. Depois experimentei fazer um clipe inteiramente em casa, em Sabiá. E agora no finzinho do ano aprimorei esses aprendizados para Eu Não Aguento Mais. Uma experiência foi levando à outra, tanto no vídeo como na música. Tudo foi se completando de um jeito inesperado e lindo.

3) Seu último lançamento é um desabafo bem humorado que traduz o que todas nós estamos sentindo. Como faixa e clipe foram concebidos?

Sobre a faixa, reforçamos um laço criado lá na mix e master do disco, feitas pela Malka Julieta. Em “Eu Não Aguento Mais”, ela ficou responsável por toda produção musical do single. O resultado ficou incrível! Eu até me surpreendi pois apesar de me animar com o desafio, nunca tinha feito nada tão pop rsrs. Mas saindo do estúdio, depois de ter finalizado o som, eu dava pulos de alegria. E para fazer jus a essa lindeza chamei um amigo querido da faculdade, o Gustavo Bucker, pra dirigir o videoclipe. Eu e o Gu fizemos alguns projetos juntos quando éramos da mesma turma no curso de cinema, e eu já sabia que daria bom. E sou muito grata ao Gu pela dedicação e também à Katha (fotógrafa do clipe) por terem me ajudado nessa aventura. Foi uma equipe super pequenininha para evitar aglomerações, e todes nos dedicamos muito. Sou mto grata!

4) Do que mais sente falta do mundo de antes e o que mais espera pro mundo de amanhã?

Oq mais sinto falta sem dúvida é do contato físico, dos públicos, dos shows… Todas as áreas em que eu trabalho e que eu amo causam aglomerações… A música, o cinema, o teatro… Muitas saudades dos palcos cheios de vida. Oq eu mais espero pro futuro é que as pessoas sejam mais conscientes. Ficou muito óbvio nessa pandemia que não dá para continuarmos assim, né humanidade?! Não dá para continuarmos desmatando, queimando, sustentando um sistema racista, machista, homofóbico, que preza mais o dinheiro do que vidas. Eu tenho real esperança na consciência da humanidade. E vejo que não temos escolha. Pois o universo funciona na base da ação e reação. E se nada fizermos, coisas muito piores que pandemias podem estar por vir.

5) O que significa ser mulher artista no Brasil com bolsonaro?

Uau essa foi forte. Significa estar preparada pra chincha a todo momento hahaha. Foi uma grande decepção pra mim ter este ser como presidente, e tudo que eu mais temia começou a acontecer diante dos meus olhos no quesito gerenciamento do país. Mas enfim, temos que encarar os desafios de frente, então ser mulher artista no Brasil hoje é estar sempre alerta e na luta, para cocriar todas as transformações que desejamos. Como artista sinto que tenho essa missão de fazer com que coisas que não estão sendo vistas sejam percebidas e transformadas. E até por isso falo tanto dos direitos da mulher, da legalização do aborto, das medicinas sagradas, e de tantos outros assuntos “polêmicos” em minhas músicas. Como mulher sinto que tenho o dever de ativar a bruxaria braba, e inspirar as bruxas ao meu redor assim como elas me inspiram, e no meio dessa bruxaria coletiva juntar as forças para construir um novo mundo. Pois não aguentamos maais este assim como está rs. Bora juntas!

6) O que vem depois de Eu não Aguento Mais?

Ah! Eu não posso falar muito rs. Mas prometo que vêm muitas parcerias por aí! E muitos experimentos e mergulhos. No mesmo ritmo dos de 2020, que ao mesmo tempo que sentem as ondas e o baque não se deixam abalar e seguem em frente rumo ao novo, a transformação, a transmutação! Viva!

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Jornalista, assessora de imprensa, escritora e produtora cultural, Flora vive de palavra e som. Tem foco de pesquisa em música independente, é integrante dos coletivos Radialivres e #umjazzpordia, colabora com o site Mulher na Música, mantém um quadro no programa de rádio Hora do Sabbat e nas horas vagas desata amarras sociais.

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