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Em “Carta ao Tempo”, Luísa Gouvêa estreia na cena e se joga de vez na arte

Em “Carta ao Tempo”, Luísa Gouvêa estreia na cena e se joga de vez na arte

“Uma andorinha que quer o verão”. É assim que Luísa Gouvêa, atriz, cantora e compositora, abre seus caminhos na cena autoral paulistana com seu single de estreia, “Carta ao Tempo”. Este é o primeiro verso, a primeira ideia que a artista lança suavemente às ouvintes – e olha, a gente recomenda que você seja uma ouvinte desavisada, viu? Pare de ler esse texto agora e ouve a música dela antes, sério:

Desculpa a truculência do parágrafo anterior, cara leitora. Mas se a gente entregasse o jogo logo de cara, capaz da sua paixão pela música de Luísa não acontecer assim, de bate pronto e numa intensidade arrebatadora como temos certeza que aconteceu.

Uma bossa nova de carinha jazzy, com traços de pop e samba é infalível para quem anda buscando uma nova voz e toada na música brasileira contemporânea. Por isso a importância de se ouvir Luísa Gouvêa pela primeira vez o mais crua possível de ideias e referências: o surpreendente aqui é aceitar que sua voz nos leve “Carta ao Tempo” adentro, revelando cada timbre e cada acorde com aquele gostinho de descoberta que mora no fundo dos ouvidos.

Bom, dito isso, acho que agora não corremos mais perigo, risos… Vai lá leitora, sobe a tela de levinho e pode dar play de novo, mas dessa vez a gente te convida a continuar por aqui, lendo o papo que tivemos com Luísa, por e-mail, dias atrás. Agora que você já descobriu a voz e poesia, tá na hora de conhecer mais da artista também.

Eu sempre vejo tudo conectado, as ciências sociais, a arte, para mim elas estão caminhando juntas na minha vida. 

Luísa, sua infância foi marcada por uma aplicação extrema aos estudos, o que resultou na sua formação superior em Ciência Sociais. Mas a arte esteve sempre ali de butuca, como um hobby. Depois, aos poucos, foi ganhando cada vez mais espaço na sua vida, correndo livre por duas direções: o teatro e a música. Como você explicaria que essa dedicação aos estudos moldou também seu fazer artístico atual e, ao mesmo tempo, como a arte também te auxiliou a se manter sempre focada nos estudos? Para você, a arte é também um estudo sem fim?

Eu não afirmaria “aplicação extrema aos estudos”, risos, sendo bem sincera. Eu escuto alguns amigos lembrando da experiência escolar e percebo como fui privilegiada. Eu amava a minha escola, cresci em Santos (SP), estudei em um colégio construtivista, onde eu me sentia muito à vontade para aprender. Era uma boa aluna, gostava de aprender, respeitava demais meu professores… Isso não quer dizer que eu tenha passado ilesa pelas dificuldades, principalmente de aceitação e amadurecimento na adolescência, mas de modo geral, eu tenho lembranças muito boas desse período. A verdade é que eu sempre gostei de aprender, e se o assunto me cativava, pronto! Eu mergulhava completamente.

Música é um desses casos. Eu comecei a gostar muito nova, então sempre quis estudar. Quando bem pequena eu queria estudar piano, mas meus pais não tinham condição de comprar um piano (era bem caro, e na época não tinha as opções digitais), então me propuseram escolher outro instrumento. Eu escolhi o violão, porque via minha mãe tocando, e também porque queria cantar enquanto tocava. Uns cinco anos depois iniciei os estudos de clarinete, instrumento que me apaixonei depois de assistir uma peça tocada por uma Orquestra na TV Cultura. As Ciências Sociais aconteceram porque, assim como a música, eu sempre tive interesse em história e acabei me envolvendo quando jovem em um projeto social voltado para a juventude, o que me abriu portas para enxergar a complexidade da nossa vida em sociedade.

Depois de muitas experiências interessantes que vivi por causa desse projeto, que vão desde de participar da organização da primeira Conferência Nacional Infanto-Juvenil pelo Meio Ambiente em Brasília, até ir discutir metas do milênio em um Congresso Mundial de Juventude no Marrocos. Foi esse lado que me levou para as Ciências Sociais. Mas tem uma coisa que é muito legal nessa pergunta e que faz todo o sentido que é sobre o fazer artístico estimulado pelo estudo e vice e versa. Acho que sim, todo artista está sempre estudando, não necessariamente de modo formal, em uma escola ou instituição, embora possa ser também… Eu estudei em várias instituições ao longo dos anos. Mas acho que a arte é resultado de pesquisa, de tentativas, de experimentos, de expressão de sensibilidade, de reflexão, de criação.

Então acho que sim, de certa forma arte é um estudo sem fim. E a beleza do papel de quem ensina também é genial, porque existe uma troca muito forte, de conhecimento, de vivência, de tantas coisas. Somado a isso, acho que o fato de ter estudado Ciências Sociais, teve sim influência em mim, na minha visão de mundo e, em consequência, teve reflexo no meu fazer artístico, assim como meu fazer artístico me aproximou de temas específicos dentro das Ciências Sociais. Eu sempre vejo tudo conectado, as ciências sociais, a arte, para mim elas estão caminhando juntas na minha vida. 


“Carta ao Tempo” é seu single de estreia, a primeira música do seu primeiro disco. Rolou muito frio na barriga com ela indo ao ar? Em que sentido você diria que essa canção “dá a cara” do disco num primeiro movimento? 

Muito frio na barriga, muito mesmo! Esse disco é um projeto de 10 anos, que eu cheguei a duvidar em certo ponto que iria pro mundo. Foi um processo imenso. Então quando o primeiro single foi lançado, eu fiquei muito feliz! E receber o retorno das pessoas, sobre como a música chegou nelas, o que acharam… nossa, foi muito bom mesmo. Acho que escolhi a “Carta ao Tempo” como primeiro single e também como nome do disco, primeiro pelo sentido literal, de ser uma carta ao tempo, um registro meu, da minha música, da música desses parceiros incríveis que eu tenho o privilégio de trabalhar junto, nesse período. E acho que também por eu considerar uma música leve, que traz um pouco do meu modo de ver a vida, que tem balanço gostoso… Achei que poderia ser uma música boa de ouvir nesse momento que estamos.

Como foi o processo criativo por trás da gravação de “Carta ao Tempo”?

Eu escrevi essa música acho que em 2013. Eu estava passando por um processo de entender meu caminho profissional. Fazendo escolhas, assumindo de vez as artes. Tinham muitas coisas envolvidas, eu tinha um emprego estável, já estava há cinco anos nele, recebia bem, mas sempre continuei com os estudos de música e teatro paralelos, eu dava um jeito. Aí quando tomei a decisão de largar foi uma aventura, lidar com a incerteza… Eu sabia que ia demorar alguns anos para conseguir ter alguma estabilidade nas artes, mesmo que fosse dando aulas. Então tem muito disso nela, ao mesmo tempo também tem o meu modo de ver o mundo junto, de acreditar no poder do coletivo, de como somos reflexo do nosso tempo e das nossas influências e como podemos refletir sobre e escolher nossos caminhos individuais e coletivos.

Por último, a SÊLA queria te pedir uma playlist do que você ouviu durante o processo de composição do disco, assim a gente já consegue ir te conhecendo sonoramente e também criando aquela ansiedade pro álbum em si. Sinta-se livre para comentar sobre suas escolhas ou qualquer outro comentário que queira sobre a playlist em si.

Fiz uma playlist com várias referências, músicas que ouvi nesse período, músicas que acho que tem a ver comigo e com como faço música ou tento fazer música, risos… Tem um misto de tudo. Não sei se elas revelam tanto do disco que vem por aí, mas elas sem dúvida me influenciaram!

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