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In Venus fala sobre novo disco-antídoto, Sintoma: “Entender o que machuca é um caminho para encontrar essa cura”

In Venus fala sobre novo disco-antídoto, Sintoma: “Entender o que machuca é um caminho para encontrar essa cura”

A banda In Venus lançou no último mês de Abril seu novo disco, Sintoma. Definido pelo próprio grupo como algo a partir de uma “pixtinha papo reto“, o disco é verborrágico e nos canta sobre um mundo adoentado, paralisado de dor e violência, trazendo no grito da vocalista Cint Murphy possíveis caminhos para um futuro mais libertador. Ao lado de Duda Jiu (bateria), Patricia Saltara (baixo) e Rodrigo Lima (guitarra) – que completam a formação da banda -, ela passou alguns dias de Fevereiro deste ano numa “gravação-imersão” nos arredores de São Paulo, um período essencial para Sintoma tomar corpo e potência.

Este processo teve a participação da coletiva Formas, “constituída por Adriana Latorre, Brunella Martina, Camila Visentainer, Erikat, Filipa Aurélio, Thais Lopes e Thamu Candylust”, informa o comunicado de imprensa da In Venus. ” [A coletiva] surge da necessidade da banda em compartilhar processos criativos entre artistas, que foram as responsáveis pelos visuais do disco”, completa o texto.

Sintoma apresenta 10 faixas que você não consegue ouvir se não for de uma tacada só. É um disco enérgico, que traduz o nosso tempo sem medir gritos, riffs e viradas. Cint, Duda e Patricia bateram um papo com a SÊLA sobre este novo trabalho, no que ele resgata do que já passou, no que ele converge no agora e se é possível falar de projeções para o que vem pela frente também. O papo completo você lê a seguir:

1) A gente queria abrir com um pedido simples, mas talvez um pouco complexo também: vocês comentarem a discografia da In Venus, do primeiro lançamento (“Mother Nature”, 2016), até aqui. Como era e o que sentia a In Venus de lá atrás e o que vocês são e sentem hoje? O som passou por mudanças? Se sim, quais? A ideia é seguir uma ordem do tempo comentando sobre cada trabalho lançado de 2016 até 2021.

Patrícia: Bom, eu entrei na banda em 2017, depois do lançamento do single “Mother Nature” e pouco antes do lançamento de Ruína (2017). Quando ouvi as músicas pela primeira vez, me surpreendeu positivamente, me identifiquei muito com o som, porém eu já conseguia sentir uma distinção entre as músicas cantadas em inglês em relação às cantadas em português… Parecia que as cantadas em inglês eram mais melódicas e etéreas, e as em português mais papo reto, mais diretas. Quando decidimos compor coisas novas, minhas primeiras composições com a banda, refletimos e decidimos que seguiríamos agora com letras apenas em português, e na minha opinião isso influenciou no som também. As mensagens eram claras e estavam sendo ouvidas, e as massas sonoras não poderiam mais se sobrepor à elas, fazendo com que a gente prestasse mais atenção na composição de cada instrumento a fim de equilibrar as diferentes sonoridades. E assim surgiu o EP “Refluxo”, gravado na garagem do selo Hérnia de Disco, produzido por Desiree Marantes, lançado em 2018. Apesar da música ‘Meu Sangue” ainda ser um tanto melódica e com bastante efeitos sonoros, a música “Eu era ela” já seguia um ritmo mais dançante, mais animado, mais cru de certa forma.  Quando Duda Jiu entrou na banda (bateria), nós fizemos a primeira música ainda nessa vibe do EP refluxo, numa vibe melódica porém densa, apesar da batida rítmica já ser bem diferentona, quebrada e ao mesmo tempo dançante. Essa música se chama “Enxurrada” e foi lançada na coletânea De Profundis – Spatio Socialis em 2020.

Acho que foi aí que Cint percebeu que poderíamos ir além, e trouxe uma proposta pra banda: de seguirmos essa nova sonoridade rítmica que estava surgindo, porém fazendo algo mais seco, mais direto, com menos efeitos, menos melódico e mais experimental, para ver até onde tudo isso ia nos levar. Confesso que no começo foi difícil, pois já estávamos habituades em um lugar comum de composição em conjunto, porém quando ultrapassamos esses mecanismos de defesa que surgem com novos desafios e fizemos nossa primeira música que sairia no álbum Sintoma, foi uma felicidade muito grande e uma certeza que estávamos no caminho certo pra gente naquele momento. Depois da primeira música, as outras foram fluindo mais naturalmente e foi assim que ocorreram as mudanças necessárias para que a gente gravasse um álbum diferente do que havíamos feito no passado, porém sem perder nossa essência e personalidade – nosso primeiro álbum em vinil – a convite do selo No Gods No Masters e com o apoio da Efusiva. Vale dizer que rolou bastante dedicação para chegarmos nesse lugar, o qual apelidamos carinhosamente de pixtinha papo reto, como pesquisa com sons e referências diferentes, tentativas e erros, longas horas de ensaio, de duas a quatro vezes por semana, com muito foco e atenção. Passamos um ano assim, dedicando quase todo nosso tempo livre com a banda, e o resultado foi um disco que pudemos testar muitas coisas, como que numa imersão musical, com tempo para trabalhar as músicas até ficarmos satisfeites com cada uma delas, e tudo com muita alegria e companheirismo. 

Eu sinto que nossa essência, principalmente nas mensagens que passamos, é a mesma, porém agora com mais maturidade e aprofundamento. Como passamos muito tempo juntes, conversamos muito sobre o ritmo insano de São Paulo, capitalismo, globalização, micro agressões, políticas que excluem e que não cuidam das minorias políticas, e ao mesmo tempo pensando também em pequenas movimentações que cada pessoa pode fazer para amenizar tudo isso, e para isso precisamos primeiro assumir nosso lugar dentro desse sistema, para poder sabotar com consciência e efetividade. Vale apontar que gravamos semanas antes da quarentena se instalar no Brasil, e passamos o ano de 2020 trabalhando na pós-produção do disco ao lado de Helena Duarte (gravação/edição), Malka (mix), Mari Crestani (produção),  Luis Tissot (master) e Erikat (arte), além de toda burocracia envolvida na manufatura do LP junto com o pessoal da No Gods No Masters. Lançamos o single “Ansiedade”, junto com um videoclipe roteirizado por Thais Lopes e dirigido por Brunella Martina, onde transmite muito esse momento de paralisia em relação ao caos, que casou muito bem com o momento pandêmico que estávamos vivendo, e finalmente em Abril de 2021 lançamos o disco completo nas principais plataformas de streaming.

Cint: A In Venus surgiu de uma ideia minha e do Rodrigo de fazermos algo juntos. Em uma conversa com a Camila [Ribeiro, baterista], nós convidamos ela, Priscila e Suka para fazermos uma jam e sentir o que poderia sair disso. Depois de muitas idas e vindas, em 2017 nós gravamos “Mother Nature”, uma participação na coletânea Insubmissas: tributo ao Bikini Kill e o disco Ruína como uma forma de registrar os estudos que estávamos fazendo naquele momento. Depois disso, com a saída da Priscila, a Patrícia entrou para a banda e nós gravamos o EP Refluxo (2018), e a ideia era sair das melodias etéreas que tínhamos e trazer algo mais papo reto, com letras em português. Na ocasião, as letras ainda tinham ideais muito voltadas às questões feministas. 
A Camila saiu da banda no final de 2018 e em 2019, com a entrada de Jiu, nós decidimos que queríamos sair um pouco da nossa zona de conforto. Fizemos a música “Enxurrada” para a coletânea De Profundis – Spatio Socialis, mas ainda estava soando muito melódica. Quando iniciamos a produção do disco, eu insisti para fazermos algo diferente, que explorasse mais a ideia do desconforto. Foi um processo muito interessante, pois cada um trouxe suas próprias referências, que iam do post-punk tradicional ao samba, passando por influências da Vanguarda Paulista e diversas outras sonoridades que estávamos ouvindo na ocasião.

Duda Jiu: Vi In Venus pela primeira vez no Cecília Cultural, não me lembro o ano exatamente, mas imagino que já tenha sido ali perto do Reflúxo, tinha algo de extremamente poderoso e revolucionário na sonoridade e nos discursos de Cint, lembro que fiquei emocionade como se tivesse conseguido canalizar toda minha revolta. Foi uma grande paixão. Quando aconteceu de entrar pra banda foi uma surpresa, felicidade e preocupação ao mesmo tempo, porque apesar de amar a sonoridade da banda, minhas composições na bateria são sempre mais quebradas e cheias de espasmos rítmicos e realmente não sabia se era isso que a banda queria/precisava. Tínhamos uma agenda de shows para cumprir com as músicas que já estavam circulando e lembro que sentia esse misto de alegria e preocupação a cada música que tocamos juntos. A coisa foi ficando toda mais agressiva e tribal, mais suja e isso fez bem pra gente, de certa forma. Quando gravamos Enxurrada eu já estava ali, de cabeça e de fato assumindo meu lugar nesse projeto. Com as composições do disco já havíamos passado um tempo juntos enquanto grupo, amigues e parceires de projeto, já estávamos alinhando nossos desejos, revoltas e também já estávamos nos cuidando enquanto coletivo, enquanto família. Daí pra frente foi uma grande ficção (ao olhar daqui, desse presente futuro perdido), foram dias felizes e cheios de empenho, dedicação, cansaço, alegria, revolta e acima de tudo, companheirismo. O que mudou corporalmente de lá pra cá costumo dizer que foi tudo, exatamente tudo. Mudou como penso, mudou minhas ações, valores. Digo mudou no sentido comportamental, muita coisa foi complementada ao que já existia de mim. Mas de forma geral nós todes crescemos muito, porque estivemos muito juntos, nos ouvindo e nos dando suporte e isso não acabava só na banda. É uma cena inteira que se movimenta e isso é transformador. Sintoma é o epicentro da nossa angústia, catalizador das nossas ideias e vontades desafiadas por nós mesmes e daí em diante muita coisa há de acontecer.

2) Muito se fala da “cura pela arte”, ou seja, produções artísticas que podem fluir como um antídoto ou bálsamo para aqueles que a usufruem. Na música, em especial, existe a ideia de mantras, canções que transportam quem ouve para outros ambientes. Vocês sentem que, de algum modo, Sintoma pode provocar essa cura/inspiração a partir de uma pegada mais punk? Ou enxergam o álbum indo para outra direção em relação às questões de doenças sociais? Sintoma é antídoto, dedo na ferida ou os dois ao mesmo tempo?

Patrícia: Eu diria que Sintoma é antídoto e dedo na ferida ao mesmo tempo, rs. Acho que a gente só consegue curar algo que conseguimos enxergar, e sintomas no geral, apesar de desagradáveis, são um convite a nos conhecermos melhor, e a percebermos nossos incômodos, e os valores que estão por trás desses incômodos, bem como o que está doente ao nosso redor, na sociedade em que vivemos, que nos afeta de tal maneira que transborde através de um sintoma físico e/ou psíquico. Então, o primeiro passo para um caminho curativo, é apreender esses movimentos, é reconhecer o que nos afeta. Depois desse reconhecimento, o próximo passo é integrar essas percepções em nossa vida, e criar estratégias para que possamos fazer parte da mudança daquilo que nos aflige e nos paralisa. Acho que nosso disco pode colaborar para esse processo de elaboração do contexto social e político, para que inspire uma análise crítica, tanto pessoal quanto coletiva, de forma que possamos nos posicionar melhor diante de tudo que nos cerca. Ao mesmo tempo é um dedo na ferida que pode ser denso e difícil de atravessar, e aí acho que cada pessoa vai reagir e sentir de forma diferente, dependendo do momento que se encontra em sua vida. Independente disso, é impossível não ser afetade pelos questionamentos presentes explicitamente no disco.

Cint: A gente acredita muito no poder regenerativo da arte, a música é a ferramenta que a gente adotou, mas essas expressões podem ser diversas, tanto que isso também fica muito explícito em vários materiais que lançamos (capa, poster, clipe). Eu particularmente sinto que Sintoma é um grande dedo na ferida, mas é um passo importante para entender o que dói, como a Patrícia mencionou. Entender o que machuca é um caminho para encontrar essa cura. Nossa sonoridade é um desconforto em si, as letras e a forma como são cantadas é uma tentativa de extrair tudo que nos afeta direta ou indiretamente. A gente se perguntou muito sobre cada detalhe para exprimir essa sensação de emergência. Em paralelo, construímos um manifesto que explica quais foram os pensamentos em torno das nossas ideias. 

Duda Jiu: Sintoma se transforma a cada receptor ativo, nós construímos e chegamos num resultado que se aproxima do que somos/éramos, naquele contexto político sócio econômico de um país de terceiro mundo antes de uma pandemia mundial. Tínhamos urgências para serem gritadas. É triste e ao mesmo tempo absurdo ver que ele soa completamente bem num contexto de mundo inimaginável como esse que estamos atravessando, ainda daqui, do país de terceiro mundo com o pior desgoverno possível para tal realidade. Essa talvez seja nossa maior ficção, no final das contas. Mas o que quero dizer é que não há arte final que transmita exatamente a mesma coisa, mesmo com um disco tão pragmático quanto o que fizemos. Ele é uma denúncia, um limite, uma histeria, mas isso pode aumentar ou diminuir de acordo com quem o escuta e como o faz.

3) O “novo normal” não existe. Pra falar a verdade, é um completo desconhecido, que a gente, aqui no Brasil, não faz ideia de como nem quando vai chegar. Mas se vocês pudessem prever ou desenhar um futuro em relação à cena independente e o fazer musical pelos próximos anos, o que vocês almejam de mais importante para a In Venus e a cena como um todo? Isto é, dessa crise que estamos passando, quais os pontos mais otimistas que vocês conseguem extrair do agora, mirando o que vem em frente?

Patrícia: O meio musical foi muito afetado com a pandemia. Fica muito difícil trabalhar, por exemplo, um lançamento de um disco, como nós estamos fazendo agora, nesse contexto atual. Infelizmente a arte num geral perdeu muito com o descaso político. É muito difícil mesmo prever um futuro, ainda mais extrair algo positivo dele no contexto brasileiro. Eu tenho visto várias bandas americanas anunciando datas de turnê a partir do segundo semestre, isso me deu um desespero por estar nessa situação aqui no Brasil, mas ao mesmo tempo um fio de esperança, de que se formos vacinados em massa poderemos ir voltando aos poucos para esse tipo de atividade. Tenho muita esperança em uma mudança de governo também, e que isso acelere nossa recuperação e reestruturação. Sei que não podemos depositar todas as mudanças que queremos num governo, porém sabemos bem a diferença de estarmos nas mãos de um fascista e genocida em relação a outras possibilidades. Podemos continuar usando a internet como ferramenta de divulgação de nossa arte, e acho que aprendemos muitas coisas boas com isso, porém também aprendemos que não, não é a mesma coisa que um encontro ao vivo, compartilhando ambiente e música no mesmo espaço. O que sei é que, enquanto esse vírus não for minimamente controlado, não vai ter show. 

Cint: Difícil pensar em futuros num país que mal consegue dar conta do presente. Se houvesse investimentos em realidades virtuais/mistas (exemplo do show do Travis Scott no Fortnite) ou coisas desse tipo, poderíamos até visionar futuros para arte onde o presencial não seria 100% necessário, mas a verdade é que estamos trabalhando no completo limbo, sem ou com pouco investimento do Estado ou de empresas privadas, além de nada substituir a presença, o toque, a emoção de assistir algo que você não espera em um palco… Além disso, nós estamos inseridos num cenário completamente DIY, ou seja, se a gente não fizer, ninguém vai fazer por nós. Dá até um frio na barriga em pensar que à curto/médio prazo, não teremos nenhuma possibilidade de estar presencialmente assistindo ou fazendo um shows. Mas temos esperanças de casas de shows lotadas de gente e com muitos artistas se apresentando, mostrando o que colheu desse momento de isolamento. 

Duda Jiu: É uma pergunta muito difícil porque posso responder ela diferente a cada dia, ou mesmo a cada hora. Estamos num momento de completo desamparo político, estamos proibides de sonhar, eu diria. E isso é esmagador. 
Vemos muitas casas de cultura, bares e todo tipo de organização DIY fechando as portas ou lutando muito pra sobreviver. Dois caminhos se abrem nisso porque conseguimos nos articular “bem” enquanto movimento independente. A cena de SP é uma cena que tem sua força e seus meios de combate ao sistema, mas num contexto desses a gente realmente percebe muita coisa ruindo. Então há sim uma preocupação com o futuro e certamente muito para além da arte, há uma preocupação com a vida, na sua forma mais crua. Exatamente hoje não me sobra muito otimismo, pode ser que amanhã algo me movimente mais, mas estamos juntes da forma como podemos, mantendo as articulações firmes e pulsantes e nos agarrando à ideologia de vida que adotamos perante esse sistema cretino branco rico americano europeu escroto. Não há perspectiva de show, não há perspectiva de muita coisa, mas estamos nas micropolíticas tentando cuidar das pessoas ao redor que têm menos acesso ao básico. Força, inteligência e ação para nós, é o que desejo.


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