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“Sou uma cantora jovem que encontra-se no agora devido aos meus ares antigos”, reflete a revelação FLORA 

“Sou uma cantora jovem que encontra-se no agora devido aos meus ares antigos”, reflete a revelação FLORA 

FLORA. Assim mesmo, em caixa alta e bom som. É dela o estonteante álbum A Emocionante Fraqueza dos Fortes, lançado em 2020 via LAB 344. É um disco que nos chama para uma dança envolvente, que emana um vocal esparso e suave, um contraste evidente com a intensidade do que FLORA canta. A vida que vai pulsando sem aviso, os giros que a vida dá e como a gente vai se moldando nesses movimentos todos.

Tem alguma coisa de Caetano. E de Roberto também. Uma essência brasileira que brinda outras fronteiras, abrindo espaço na cabeça e coração de quem ouve. Não a toa ela foi uma das indicadas da APCA deste ano na categoria revelação, um passo importante para quem já vem andando muito bem pela cena independente nacional, tendo como ponto de partida a cidade onde se fez, Maceió (AL).

Neste mesmo CEP, aliás, FLORA divide cena com artistas como Arielly Oliveira, Ítallo e Bruno Berle, nomes que ao lado dela estão presentes no Sala de Ensaio, série de sessões de estúdio que estreia nesta quinta-feira (23), como parte da programação online do Festival Carambola 2021. O evento, que colocou Maceió no mapa dos festivais musicais brasileiros, realiza uma programação totalmente digital este ano, gratuita e com transmissão via seu próprio canal de YT.

Zé Ibarra (RJ) e FLORA (AL), em dueto inédito para o Festival Carambola (Crédito: Felipe Miranda)

Junto ao carioca Zé Ibarra, FLORA se apresenta no Sala de Ensaio desta quinta-feira (23), a partir das 20:00. Junto a isso e na esteira do seu lançamento mais recente, o clipe “Saturno” [veja abaixo], a cantora bateu um papo exclusivo com a SÊLA – Mulher na Música sobre o atual momento da carreira, o tempo, sua participação no festival e a presença e o que vem moldando sua personalidade artística até aqui.

Abra as janelas, leia a entrevista e fique de olho nas tantas pinceladas sonoras que FLORA ainda nos oferecerá. Um quadro vivo e em constante desenvolvimento, gostoso de ouvir e bonito de ver acontecer.

FLORA, em “Saturno” você passeia por um acervo artístico que pertenceu ao seu tio-avô, certo? E a própria concepção da letra evoca a ideia do tempo. Paralelo a isso, recentemente você foi indicada como revelação na APCA. Percebe-se uma movimentação temporal desenvolta sobre sua trajetória, que evoca o passado, mas de modo extremamente atual. Como você sente isso? É uma cantora jovem que renova o passado, ou é uma cantora de ares mais antigos que encontra-se no agora?


Quando eu era criança, um espírita disse que eu tinha uma alma antiga, velha (risos). Eu estudo história da arte na universidade e fiz teatro por um bom tempo, então acredito que isso diz bastante sobre mim. O fascínio que tenho não é pelo passado em si mas pela história, e história se faz com memória… precisa de tempo. Eu cheguei aqui há 31 anos, num lugar que começou a ser habitado pela nossa espécie cerca de 300 mil anos atrás, como não olhar para o passado? Seria imprudência, não? (risos)
O acervo artístico do meu tio-avô guarda muita história e foi palco perfeito para “Saturno” embora infelizmente a cidade de Maceió não tenha acesso à visitação, devido à falta de incentivo e investimento na fundação que segue abandonada pelos governos que aqui passaram, então fica difícil manter as obras e as peças nas devidas condições. Isso é uma enorme tristeza não só para a família como para cidade, que perde muito com isso.
Atualmente o que vejo no Brasil é uma grande crise de identidade é esse abandono e geral. O apagamento histórico-cultural que sofremos  desde a colonização até os tempos de hoje tem consequências severas, como por exemplo o racismo, o extermínio dos povos indígenas, o desmatamento desenfreado das nossas florestas e tantas questões que não caberiam aqui, agora.
A ideia do tempo é uma constante enquanto se está vivo, é a maior angústia e a maior dádiva da humanidade. Quando você faz análise por exemplo você precisa elaborar a sua história seja ela trágica ou não e a partir daí construir algo novo, seguir uma nova direção, então eu diria que sou uma cantora jovem que encontra-se no agora devido aos meus ares antigos. 

Você participa do Festival Carambola deste ano numa parceria inédita com o carioca Zé Ibarra. Como foi criar em dupla? O que sente que mais te atravessou vindo dele e vice-versa?


O Zé tem uma presença linda, ele parece que brinca fazendo a coisa mais difícil, a intimidade dele com a música e os instrumentos (eu que sou mais da palavra, da letra) me leva para um lugar muito sensível, e acho que a gente (quase sem ensaio) deu as mãos ali e foi. 

O Carambola é um festival conduzido por três mulheres e trouxe várias outras para a programação deste ano. Aqui na SÊLA – MULHER NA MÚSICA a gente sempre fala sobre a presença da mulher na música, seja em cima ou atrás dos palcos. Da sua experiência até aqui, quais foram os momentos chaves em que você entendeu que era uma mulher na música? E a partir dessas vivências, quais dicas você daria para nossas leitoras que também querem seguir nesta cena como intérpretes e/ou cantoras-compositoras?

Me entender enquanto uma mulher na música é me entender com autonomia, força, fraqueza, liberdade, cura, luta, respeito e identidade. É saber que sou uma mulher e por isso eu POSSO. Enquanto tiver em qualquer lugar do mundo uma mulher que não pode seja por uma religião, um país, um homem, uma sociedade a nossa luta estará incompleta e a humanidade seguirá doente. 



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