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Uma fazedora de seu tempo: entrevista com Sarah Mascarenhas

Uma fazedora de seu tempo: entrevista com Sarah Mascarenhas

Sarah Mascarenhas é uma mulher de ação, palavra e paixão . Unidas a partir da música, campo de atuação de ambas, já se somam anos de parceria e atividade cultural e política realizada conjuntamente entre ela e eu. Foi Sarah quem me convidou ao fazer radiofônico (até então, eu trilhava um caminho mais intenso nos bastidores da música e na pesquisa musical), sendo provocada de volta a outros fazeres e saberes, e assim consecutivamente – de maneira que as possibilidades se ampliassem para ambas. É levar a sério a expressão “uma puxa a mão da outra”. Sarah Mascarenhas é essa agente que conecta mulheres e as provoca positivamente. Hoje, é a principal responsável pelo programa de rádio Hora do Sabbat, integra o coletivo Radialivres, atua em diversas frentes culturais e feministas, escreve, canta e produz. Modificando o presente sem se esquecer de saudar sua trajetória, ela é uma fazedora de seu tempo. Conversamos sobre música, memória, carreira, ativismo e projetos.

Relação pessoal com a música – quando o gosto virou profissão?

A relação com a música existe desde sempre, cresci numa casa com a mãe e o pai músicos e produtores. Aos 8 anos comecei a tocar contra baixo, fiz aulas de piano também. Na época as pessoas ficavam surpresas com uma garotinha tocando contrabaixo por varias razões, meu tamanho, por ser menina, pelo tamanho e peso do instrumento, mas eu sempre gostei de desafios e lembro que o Sergio Dias, guitarrista dos Mutantes sempre se hospedava em nossa casa, por causa do estúdio e amizade com meus pais, sempre elogiou minha pegada e facilidade para tocar baixo. Lá pelos 12, por um machismo desmedido, meu pai deu o instrumento que eu tocava pro meu irmão mais velho, ele virou um músico fantástico e eu decidi cantar, partindo da premissa que minha voz faz parte do meu corpo e isso ninguém poderia tirar de mim! Cantei dos 14 aos 28, e nesse período me joguei em tudo que envolvia fazer um show, toda parte de produção, de divulgação. Óbvio que tudo isso era influência forte da casa onde cresci. Meus pais idealizaram uma produtora de eventos, um selo, um estúdio e uma casa de shows na década de 90. Em 2006 abri um bar com um amigo com o intuito de ser uma casa de shows que conseguisse trazer artistas independentes. Naquele período a rede Fora do Eixo ganhava força e no interior paulista se falava muito em ter uma agenda coletiva, então o bar veio com o objetivo de ser um espaço de fruição. Com o fechamento do bar, passei a colaborar como articuladora/produtora/comunicadora para o Fora do Eixo, a primeira edição do Grito Rock fiz a produção sozinha com apoio de divulgação da Rádio UFSCar (recém inaugurada em 2007).

Cantei dos 14 aos 28, e nesse período me joguei em tudo que envolvia fazer um show, toda parte de produção, de divulgação. Óbvio que tudo isso era influência forte da casa onde cresci. Meus pais idealizaram uma produtora de eventos, um selo, um estúdio e uma casa de shows na década de 90.

Em paralelo a isso, eu ainda me aventurei por muito tempo, 15 anos, com participações especiais cantando em alguns shows, e também com uma banda de covers. Gravei vocais em 2 discos de artistas históricos da cidade de São Carlos, As músicas Café do centro de Mih Marchetti e Pimenta do compositor e cantor Paulo Pardela. Ah, não posso deixar de dizer, que em 2021 gravei uma canção do compositor Caio Bars e agora posso dizer que tenho música no Spotify (risos). Porém foi em 2010, já cursando jornalismo na UNIARA, Araraquara, que me despedi dos palcos, da produção executiva e decidi que me dedicaria a ser uma profissional da comunicação para a música. Dali em diante o jornalismo se tornou minha forma de atuação, idealizei um portal de jornalismo cultural chamado RodaMob (uma base de dados de artistas, espaços culturais e eventos realizados entre os anos de 2012 e 2017). Hoje moro em Santos atuando em estações de rádio com o programa Hora do Sabbat fortalecendo o espaço de expressão e visibilidade para as mulheres da música e outras áreas.

Olhando para trás, que mudanças vê no cenário da música independente nacional ao longo dos últimos 20 anos?

Há 20 anos atrás eu ainda não era mãe, tinha 21 e estava na graduação em Londrina. Naquela época ainda éramos poucas mulheres no palco/bastidores. Eu vejo mudanças sim, apesar de que os homens ainda tem muitos bloqueios para receber e apreciar a arte ou qualquer coisa feita por mulheres. A depreciação que se faz até hoje sobre o que as mulheres fazem, deveriam ser ou fazer é muito difícil. Sinto uma discriminação forte ainda para toda ação que traga os preceitos de valorizar a mulher. Sei que os homens não consomem a arte feita por elas, seja em qualquer linguagem. Ainda vivemos tempos de dissociação entre “coisa de menina e coisa de homem”. Por outro lado, ainda sinto que é importante a gente seguir fazendo!

A depreciação que se faz até hoje sobre o que as mulheres fazem, deveriam ser ou fazer é muito difícil. Sinto uma discriminação forte ainda para toda ação que traga os preceitos de valorizar a mulher. Sei que os homens não consomem a arte feita por elas, seja em qualquer linguagem.

É lindo ver a nova geração mais empoderada, mais engajada. Percebo que as mulheres contemporâneas tiveram que abdicar muito da feminilidade para chegar a algum reconhecimento. Lembro em 2016, quando surgiu o SONORA – festival internacional de compositoras, meu coração vibrou com a possibilidade de construirmos um cenário favorável para mulheres na música. Na sequência começaram a surgir projetos como a Sêla, este portal incrível, e começou a pipocar iniciativas utilizando a premissa de gênero. Vejo que de 2015 pra frente as mulheres tem buscado mais visibilidade e se encorajado a fazer ações para este público. Apesar de os homens ainda ficarem cheios de “frescuras” para este tipo de arte, conteúdo, é importante trabalhar para ampliar a escuta deste público. Acredito que isso vá mudar, lentamente, mas mudará.

Flora Miguel e Sarah Mascarenhas entrevistam Tiê (ao centro) para o programa Hora do Sabbat

Ativismo feminista e formação de opinião: como utilizar a voz como amplificadora de pautas de equidade de gênero, raça e classe?

Acredito que assim como o espaço para o movimento negro, LGBTQIAP+, o feminismo classista, o ecossocialismo, pautas fundamentais ainda tem pouca visibilidade. Quando me vejo como uma profissional da comunicação, com acesso a veículos, me questiono sempre como ampliar esse espaço de expressão. Como trazer a pluralidade de vozes com mais presença nas mídias que estão abertas para essas pautas. Acredito no jornalismo comunitário, nas produções colaborativas e tento aplicar isso nos projetos que idealizei e executo. Penso que nossa educação foi muito compactada e que buscar outras perspectivas de pensamento e posicionamento tendem a equilibrar a desarmonia social que vivemos. Disse desarmonia para ser bem delicada.

Na sociedade capitalista eu poderia muito bem desenvolver esse projeto enfatizando a minha pessoa, mas sinto que não faz sentido um programa de expressão e visibilidade para mulheres seja uníssono, monotom, por isso hoje são 20 colaboradoras trazendo a diversidade de temas. Costumo dizer que somos uma biosfera, um bioma, complexo, múltiplo e interligado.

Jarid Arraes, jornalista e escritora, me provocou muito nesse lugar do papel da mulher no jornalismo, como usar o meu lugar de mulher branca classe média para que mais pessoas tenham acesso a oportunidades de crescimento na vida. Por isso o valor da pluralidade de vozes no programa Hora do Sabbat. Na sociedade capitalista eu poderia muito bem desenvolver esse projeto enfatizando a minha pessoa, mas sinto que não faz sentido um programa de expressão e visibilidade para mulheres seja uníssono, monotom, por isso hoje são 20 colaboradoras trazendo a diversidade de temas. Costumo dizer que somos uma biosfera, um bioma, complexo, múltiplo e interligado. O que uma faz ou deixa de fazer afeta o ambiente e reverbera em todos envolvidos. Acredito na provocação que Jarid faz de que as mulheres demoraram séculos para ter o direito de contar suas próprias histórias. Já tinha a atitude, mas me descobri feminista quando comecei a ler sobre. Eu lia e pensava “nossa, já faço isso, então sou feminista!”

Você idealizou o programa Hora do Sabbat, uma revista radiofônica feita integralmente por mulheres, diversa e feminista: o que o projeto representa pra você, profissional e politicamente?

O projeto me representa muito, simboliza reconhecer de onde eu vim, o que sou e quero fazer como mulher. Quando me mudei pra Santos em 2017, queira seguir atuando no rádio e fui buscar por isso. A princípio, queria fazer algo com agenda cultural, mas a vivência aqui foi de conectar muitas mulheres fantásticas, ativistas, artistas, empreendedoras, pesquisadoras, todas muito potentes e fazedoras. Na ocasião, também comecei a ler o livro “Mulheres que correm com lobos” e frequentar rodas de sagrado feminino. Todo esse movimento fazia muito sentido pra mim, olhando para minha árvore genealógica, reconhecendo a história das mulheres que vieram antes de mim, cruzando as trajetórias: tudo isso convergiu no formato da Hora do Sabbat. A principio o programa também servia para dar vazão a ações de assessoria de imprensa, mas quando fechei o escopo em ser um espaço de expressão e visibilidade da mulher, senti que a visão sobre minha atuação também mudou. Aqui em Santos já fui procurada por duas universidades que tem curso de jornalismo para conversar com os estudantes de graduação sobre o mercado de rádio/podcast.

Na ocasião, também comecei a ler o livro “Mulheres que correm com lobos” e frequentar rodas de sagrado feminino. Todo esse movimento fazia muito sentido pra mim, olhando para minha árvore genealógica, reconhecendo a história das mulheres que vieram antes de mim, cruzando as trajetórias: tudo isso convergiu no formato da Hora do Sabbat.

No quesito ativismo, passei a ser vista como uma jornalista referência em falar sobre mulheres aqui na baixada santista, os coletivos/grupos e movimentos passaram a me convidar para estar junta nas organizações de atos e o programa serve como um  veículo de comunicação aliado, sempre recebendo as mulheres para entrevista e outras ações semelhantes. Sobre o formato, o programa foi se tornando uma revista à medida que mais vozes foram se somando. Primeiro reconheci que o programa portava as características de um almanaque, e mais recentemente me dei conta que de fato é uma revista no rádio e mais, é uma produção de conteúdo que aborda notícia, temas essenciais para uma sociedade com menos desigualdades de direitos e que tudo isso era um anseio nos tempos de graduação, de produzir o tal do jornalismo colaborativo ou popular! Enfim, o projeto representa tudo que acredito, seja através dos conteúdos que levam minha assinatura ou mesmo os conteúdos que são provocados a estar no programa e, no caso, a maioria das colaboradoras não tinha essa atuação no rádio ou produzindo podcast.

O que vislumbra para as mulheres profissionais da música, de dentro e fora dos palcos, para os próximos anos?

As estimativas da ONU Mulheres são desanimadoras no que diz respeito a atingir a equidade de gênero. Eu como mulher, profissional, mãe de uma jovem de 18 anos, percebo que há uma tendência das mulheres se colocarem mais nos espaços políticos, de fazer artístico, utilizando habilidades com técnicas, atuando nos bastidores. Eu nasci em 1980, onde a libertinagem pós ditadura se fazia muito presente. Cresci num ambiente socialmente hostil, machista, racista e super sexista, onde a XUXA era a rainha dos baixinhos e a presença da AIDS que chocava. Na década de 80 as mulheres ainda não eram aceitas com a abertura que se tem hoje. Fico muito feliz em ver iniciativas como o SONORA, WME, SELA, Escute AS Minas, Planeta Ella, tantas iniciativas lindas! Eu sonho, vislumbro, almejo que os homens sejam mais espectadores dessas ações, que se sintam mais à vontade para nos escutar e quebrar esse padrão do azul e rosa. Eu cresci ouvindo que “você gosta de música de menina”, agora quero que elas cresçam por que eles as escutam!

Conta um pouco sobre seus projetos vigentes e as próximas novidades de suas realizações?

Nossa tô projetando mesmo Flora, por onde eu começo? Entrei pro time das embaixadoras do WME (Woman’s Music Event) e fazer parte disso para celebrar as mulheres da música é uma oportunidade de ampliar a visão que apresento como pesquisadora musical. Com a Hora do Sabbat, agora que estamos em uma estação de rádio física, numa FM que é sediada na capital paulista (Rádio Brasil Atual), é prioridade trabalhar parcerias comerciais, que até então não faziam sentido porque o programa teve origem numa rádio dentro da UNIFESP, como uma programa de extensão. A prioridade está sendo fomentar e aproveitar oportunidades de fortalecimento. Mas tem muita coisa rolando, eu conduzo três quadros de conteúdo no programa e pretendo transformá-los em séries de podcasts por temporada e distribuir este conteúdo separadamente também. Um desses conteúdos eu faço com minha avó materna, a física de 90 anos, ativa e sã, Yvonne Mascarenhas. Essa mulher é a fonte da juventude da Hora do Sabbat, na verdade sem ela nada disso existiria. Desde 2013 a gente alimenta uma parceria que trata de pesquisar mulheres que fizeram a diferença na historia da humanidade. Essa ação surgiu quando eu trabalhava em um jornal impresso e no último ano Yvonne propôs que eu fizesse a locução desses textos. Óbvio que aceitei e inseri no programa. Essa coluna está virando uma série exclusiva e que permite ampliar o formato e alcance, então esperem novidades nesse sentido.

Há planos de fazer uma série de entrevistas com profissionais da comunicação, aliás, já dei o pontapé inicial para isso.

Em 2022, haverá muitas mudanças para essa revista, tenho reelaborado algumas formas de interação, testado parcerias e experimentado mesmo. Há planos de fazer uma série de entrevistas com profissionais da comunicação, aliás, já dei o pontapé inicial para isso. Tenho um projeto mais ousado, que é viajar o país conhecendo de perto as histórias das mulheres da contemporaneidade, uma vez a Lia Rangel, amiga e jornalista, me provocou a pensar na valorização da história de vida dessas mulheres (e é esse o grande mote do programa). Também estou prospectando espaços em rádios nas regiões norte e nordeste. Fora isso, estamos na expectativa de editais do Prêmio Profissionais da Música na categoria melhor programa de rádio. E sempre na busca de ampliar os ouvintes, seguidores, artistas que querem estar no programa!! Porque para mim, como coordenadora desse projeto é importante que as pessoas queiram: ESCUTAR, LER, VOTAR, CONTRATAR E VALORIZAR AS MULHERES, afinal de contas toda vida humana é oriunda do útero de uma mãe.

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Jornalista, assessora de imprensa, escritora e produtora cultural, Flora vive de palavra e som. Tem foco de pesquisa em música independente, é integrante dos coletivos Radialivres e #umjazzpordia, colabora com o site Mulher na Música, mantém um quadro no programa de rádio Hora do Sabbat e nas horas vagas desata amarras sociais.

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