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Bettina e Giovanna: mãe, filha e um papo sobre processos criativos

Bettina e Giovanna: mãe, filha e um papo sobre processos criativos

A cantora Giovanna Moraes tem a quem puxar. Filha da artista plástica Bettina Vaz Guimarães, Giovanna sempre teve a arte como contexto de vida. Sua vida tomou rumos diversos da infância à juventude. A compositora paulista por vezes se distanciou da arte, mas eis que a vida deu seus pulos e em 2018, com seu primeiro disco no ar – Àchromatics -, Giovanna escolheu a música para trilhar seus passos de vez.

O caminho vem acontecendo até o momento presente, marcado por bons lançamentos e movimentos inspiradores de uma artista que tá sempre inventando coisa nova. Azul Pintado de Acústico, uma dobradinha que Giovanna divulgou no último mês de Setembro, revelou as faixas “He Said, She Said” e “Boca da Noite”, acompanhada de um vídeo-registro da cantora reproduzindo no violão ambas as canções. A escolha do cenário foi a instalação Azul Pintado de Azul, de sua mãe, Bettina, compondo um arco afetivo-artístico entre as duas carreiras.

Confira a apresentação na íntegra a seguir:

A SÊLA – Mulher na Música achou essa história toda demais – mãe e filha, artistas e que agora cruzam suas histórias também por meio de suas respectivas criações. Isso rende prosa boa, né? Daí veio a ideia: que tal um bate papo entre Giovanna e Bettina sobre arte, processos criativos e outras coisinhas mais? Pra nossa felicidade, elas aceitaram o convite e o resultado dessa conversa você lê na sequência.

Bettina: “A partir de que momento vocês sentem que começam a criar?” Hum, posso falar o que eu acho? O meu processo inicia na observação. Na observação do mundo onde vivemos, pode ser na rua, pode ser  paisagem ou pode ser por casualidade que acontece sem muito planejamento, sem o meu planejamento. As coisas acontecem sem querer e às vezes  você tem um encontro de duas cores, principalmente na rua… Uma pessoa vestida com uma roupa azul cruza uma pessoa com uma roupa amarela e esse momento de encontro das cores, eu observo muito. São pinturas casuais que acontecem na paisagem e eu catalogo esses encontros, às vezes fotograficamente, às vezes na memória ou às vezes em anotações. Acabo usando muito no meu processo criativo.

Giovanna: “Eu acho que tem muito esse negócio da observação mesmo, tipo, eu acho que eu sou uma colecionadora de palavras. Então às vezes eu tô aqui falando com você e você falou alguma coisa e eu penso ‘olha que palavra esquisita’, ‘olha o som dessa palavra’. E eu anoto, em vários bloquinhos que eu tenho. Na hora de compor eu pego várias dessas palavras e penso: ‘o que elas têm em comum?’ Um grande começo da história vem disso… Olhando essas palavras que eu coleciono em livros, numa série, na rua. Eu ouvi e nem sei a pessoa que tá falando, tô em um café e ouvi uma moça falar alguma coisa no celular…

Bettina: É, eu acho que aí tem uma coisa em comum entre eu catalogar e eu colecionar encontros de cores e você colecionar palavras, expressões e sons. Eu acho que o som entra muito como a cor.

Giovanna: Eu concordo. Acho que o som entra como uma cor, ele é uma paleta, né? 

Bettina: Sim, eu sou muito influenciada com frases. Principalmente na hora que eu vou dar o nome pra obra, que era uma coisa que eu não costumava fazer, e hoje em dia tem me dado um prazer danado. Isso eu acho que é influencia sua, porque escutando a tua música, conversando com você e às vezes você até me ajuda a dar nomes… Acho que isso daí passou a ser uma coisa muito prazerosa pra mim. 

Giovanna: É, você tem aquele projeto que você fazia algumas pinturas baseadas em frases que cê ouvia. Eu acho que isso tem muito haver com meu processo também, de colecionar frases, sons, expressões que saem um pouco do jeito que eu penso, do jeito que eu falo e trás uma influência um pouco de fora… Acho que tem tudo haver.   

Giovanna:Organização de ideias e referências, essa etapa ocorre antes ou durante o processo criativo?

Bettina: Iniciação de ideias eu já coloquei na primeira questão, as referências… O que eu acho das referências? Eu tenho algumas referências… Eu tenho referências que poderiam ser referências de alguns artistas que são referências pra mim. Eu acho que uma das referências muito importantes atualmente, em cor, é o Joseph Albers.

Giovanna: É bem legal o trabalho dele, você adora mesmo.

Bettina: Ele é uma referência, porque ele combina a cor de uma maneira muito boa, uma maneira muito maravilhosa e tal… Mas não só ele como a mulher dele, a Annie, e também tem outros… Tem milhões de pessoas que trabalham com pintura e, principalmente, com cores. Eu gosto bastante do Paulo Pasta. Cada fase que eu tô, de obra, eu tenho uma referência grande. Essa referência eu pesquiso, mas geralmente depois que eu tô com um processo de criação que eu falo ‘ah, essa pessoa fazia ou fez uma coisa semelhante a isso de você’. Então, ela serve como mais um item pra você conhecer como uma pessoa chegou numa coisa, se existe semelhança ou um caminho parecido.

Giovanna: Eu concordaria com isso. Acho que, pra mim, a organização das ideias vem quando eu tenho algum tempinho. Às vezes eu pego várias dessas frases, dessas palavras que eu já separei e daí eu sento e falo ‘tá, o que elas têm em comum, quem é que tá falando, quem é o narrador?” E aí vem uma organização meio que durante ou antes. A parte da referências, eu diria que vem mais depois… Que nem você falou, de conhecer alguma coisa e falar: ‘ah, quem que fez uma coisa parecida com isso? Como que eles resolveram o problema na parte do clipe, visual?’ Entendeu? Vem depois que eu já tenho desenvolvido alguma coisa. 

Bettina: Eu tenho só uma coisa pra comentar, essas referências podem acontecer pra mim quando eu tô vendo, sei lá… Hoje em dia, a gente não faz muito isso, mas antigamente, a gente olhava uma revista ou eu tô Instagram olhando imagens, fotografias e tal e eu vejo também encontros de cor, de duas coisas que eu posso achar interessante. Mas de qualquer maneira, eu gosto muito de trabalhar com cor e eu faço muitas misturas com cores. Então, às vezes é um pequeno… Vamos dizer, mostrar um pequeno caminho. Não é um caminho que eu vou seguir loucamente. Acho que isso daí o processo criativo faz, muitas vezes, você dar estagnadas e dar uma mudada nesse processo.

Giovanna: Total. Achei interessante que você falou que cada fase sua tem referências diferentes. E eu acho que isso é também pra mim, cada fase tem referências diferentes… Eu gosto também dessa ideia do projeto atual guiar o que você tá procurando de referência, acho que tem muito isso de… Tudo é referência, né? Você olha e vê no mundo e aquilo vira semente de alguma coisa. Depois você cria e daí cê procura outras pessoas que já criaram coisas semelhantes pra entender como dialogar com teu trabalho, como fazer a apresentação dele de um jeito que aquilo que você ta apresentando fique mais palpável. Que fique dentro daquele vocabulário.

Bettina: Sim. E depois eu acho que, por exemplo, eu já passei por algumas fases, meu trabalho já mudou muito. Inclusive o seu também, não é uma coisa que você segue uma linha veemente pra sempre. Você sempre muda também. Então, por exemplo, quando o meu trabalho se iniciou, ele era figurativo, entendeu? Então as minhas referências eram artistas que eram figurativos. As referências que eu tinha eram objetos e eu, muitas vezes, via em casas de amigos ou via em lojas ou via na rua… Então, isso tornavam-se referências e é completamente diferente do trabalho que eu tô fazendo atualmente.

Giovanna: Total, mas eu acho que  pra quem vê de fora, mais de longe pode não entender como as suas fases, uma alimenta a outra. Mas eu, como acompanho de perto, eu consigo entender a trajetória que cê faz. Essas referências que você tinha por ativas, ainda são algumas referências do seu trabalho, queira ou não queira. Mesmo se não é tão explícito, porque iniciou a tua jornada como artista. Então eu acho muito interessante isso, como você vira sua própria referência, sabe? Como o trabalho se desenvolve a partir de um monte de informação, obras, que alimentaram esse processo todo.

Bettina: Você falou uma coisa muito interessante e que acontece muito comigo. Cada pintura que eu faço, muitas vezes, ela serve de referência para uma série de pinturas que eu vou fazer à partir daquilo, Então, eu vou criando famílias de pinturas, né? Eu trabalho muito com séries, então vai criando famílias onde tem uma mãe, que eu falei ‘puxa, essa mãe é uma referência’, que eu vou criando realmente em cima dessa. Não são iguais, não são idênticas, ás vezes não são nem parecidas, mas existe alguma coisa em comum. 

Giovanna: Isso eu acho demais! Realmente eu acho que tem, às vezes, uma obra que você fala ‘Nossa, essa ficou espetacular!’ E daí você faz várias a partir de uma ideia lá que, de novo, talvez alguém vendo mais de longe nem perceba que tem essa manga em comum. Mas eu como acompanho de perto, consigo reparar e falar ‘olha, todos tão brincando com essa forma, todas tão brincando com esse material’. Acho muito interessante isso.

Bettina: Eu gosto tanto do que eu faço que me dá tanta alegria. E eu não tenho vergonha de gostar do que eu faço, sabe? Eu vibro! Quando eu faço um trabalho eu viro e falo: NOSSA!

Risadas de Giovanna e Bettina

Giovanna: Eu também sou assim

Giovanna: E quais os momentos mais difíceis durante um processo criativo?

Bettina: Olha… Em um processo criativo, quando a gente tá produzindo alguma coisa tem muitas horas que não se vê muito o fim do túnel, você não sabe muito bem o que você vai fazer depois. Então você fica meio parada e fala assim ‘puts, o que eu vou fazer agora?’ Muitas vezes gera frustrações, muitas vezes você pensa: ‘eu não sou boa mesmo, sou uma porcaria. Apesar de eu me achar muito bacana e tal”. Então, esses processos em que você estaciona, são processos muito difíceis.  O que eu geralmente faço quando acontece isso, eu falo assim pra mim mesma: ‘faz qualquer coisa, se não der certo depois você sempre pode voltar, sempre pode cobrir com uma outra cor, sempre pode mudar’. Então, você tem que dar aquele ‘que se dane’, entendeu?

Giovanna: Dar o start, né? Eu concordo com isso, acho que a parte mais difícil do processo criativo é o começo ou quando você está estagnado e não sabe exatamente onde ir com isso… Ou quando você acabou de terminar alguma coisa, um projeto muito grande. Pra você é um pouco diferente… Não acho que não, na verdade. Vamos supor que você faz uma coleção pra uma exposição e aí acabou a exposição e você fala: ‘puxa, qual é a próxima exposição?’ Tipo, se eu faço uma coleção pra um álbum ou um EP, eu penso ‘e agora o que eu vou inventar?’ Acho que esse momento do ‘e agora?’ é a parte mais difícil e eu acho que eu até aprendi isso de você, de não precisa colocar tanta pressão em cada decisão. Faz qualquer coisa, que você dá um jeito… é uma massinha, né?

Bettina: Ela vai te gerar outras decisões…

Giovanna: O caminho vai ser revelado. Com aquela primeira decisão, você vai eliminar outras decisões e daí cada decisão, a partir daquela, vai ser um pouco mais fácil de ser feita. 

Bettina: Eu acho que cada decisão que você faz vai gerar uma maneira de fazer diferente, e ela vai comandar para uma próxima ação para uma outra próxima. Então quando eu tenho esses momentos, que eu não consigo nem ir pra frente nem ir pra trás, só faz, entendeu? Qualquer coisa…  Vai em frente, em algum lugar ele vai chegar, e provavelmente vai chegar em um lugar legal. Eu acho que, como o meu e como o seu trabalho, são trabalhos muito espontâneos e isso tem muito dessa sensibilidade da espontaneidade.

Giovanna: Quais são os momentos mais gostosos do processo criativo?  

Bettina: Ah… o processo criativo… ele é super empolgante, entendeu? Então quando você tá em um projeto novo,  quando você você tá fazendo alguma coisa,  quando você cria novas regras e começa a se envolver no processo criativo, isso é maravilhoso. A melhor parte é essa.

Giovanna: Acho que quando você tá no flow, assim. Quando você tá tendo várias ideias e pensa ‘nossa, genial’, ‘isso aqui é muito legal’! Acho que quando você tá vibrando ou quando você tá em um momento de super dificuldade, você não sabe direito como vai conectar duas partes… Tem momentos muito prazerosos logo depois de uma grande dificuldade. Tem momentos muito bons. 

Giovanna: O que mais admiramos no processo criativo uma da outra? Eu posso começar essa. O que eu mais admiro no processo criativo da minha mãe é a leveza com que ela trabalha… Acho que ela brinca fazendo obras de um jeito muito maravilhoso. Eu lembro quando eu tava no começo da minha trajetória, me custava muito tempo fazer uma música. Eu passava meses em uma mísera musiquinha e no mês que eu fiz uma música, ela fez uns 200 quadros, sem brincadeira… até mais do que 200 talvez

Bettina: Umas duzentas pinturas sobre papel, acho…

Giovanna: É, eu reparei ‘nossa, tem que ser leve’, tem que ser dando risada. E se daqueles 200, tiverem 10 que eu gostei mais, depois na hora da exposição eu escolho os que eu gostei mais. Mas todos aqueles 200 fazem parte de você conhecer aquela fase, sabe? Mesmo se você não for expor as 200, entendeu? E às vezes, dessas 200, você como artista, escolher 10 que você gostou mais e, eu como alguém que acompanha de perto, posso escolher 10 diferentes, e alguém que acompanha mais de longe pode escolher 10 diferentes… Então, é muito importante ter essa constância, é muito importante ter essa leveza, porque não é você como artista que vai escolher e dizer o que é melhor, sabe? E você aprende muito daquele processo inteiro, então acho que o que eu mais admiro é isso de pôr a mão na massa e não necessariamente sofrer tanto com cada parte do processo. Só fazer, fazer, fazer. E acordar no dia seguinte, independente se tá conseguindo expor ou não, por causa do mundo ou por causa de qualquer outra razão e fazer de novo. Se reinventar cada vez de um jeito mais maravilhoso… tem muita coisa pra admirar na minha mãe

Bettina: Olha, eu tenho muitas coisas que eu admiro em você. No teu processo criativo, eu admiro como você consegue circular entre vários lugares, não  só na parte de sonoridade, de fazer uma composição sonora. Mas quando você escreve uma letra, quando você imagina um clipe pra essa letra… Como você acompanha todas essas parte e acompanha bem. A sua alegria na hora que você tá criando, eu admiro muito. A sua tristeza me apavora!

Risadas de Giovanna e Bettina

Bettina: Quando você tá frustrada me apavora, eu tenho até um pouco de medo e receio. Mas eu admiro também como você sai de um momento em que está muito frustrada para um momento de profunda alegria e energia linda, entendeu? Então, eu admiro isso. Eu AMO as suas letras, a parte de sonoridade eu amo também. Mas, pra mim, a parte das letras, eu acho muito bonito você colocar tanta coisa de você mesma nas suas próprias letras. Isso é lindo, é isso que faz um artista bom, entendeu? Eu vejo muita sinceridade em tudo que você escreve.

Giovanna: Se pudesse resumir a criação artística em uma palavra, qual seria?

Bettina: Praticamente impossível… Acho que tem algumas palavras.. Sinceridade é uma coisa. Acho que persistência também é uma coisa… Acho que curiosidade.

Giovanna: Acho que brincadeira é uma também!

Bettina: Brincadeira! Acho que são várias coisas… Tentativa, erro, espontaneidade. Uma palavra realmente deu em branco aqui, porque a gente não sabia muito o que falar, né?

Giovanna: Sim, a gente foi do jeito que a gente vai e falou qualquer coisa…

Risadas de Giovanna e Bettina 

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