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“É preciso assumir a gestão da carreira” Suzi Mariana lança novo EP

“É preciso assumir a gestão da carreira” Suzi Mariana lança novo EP

A cantautora Suzi Mariana lançou na última sexta-feira (26 de Novembro) seu segundo EP de carreira, Pagando o Preço. Roqueira e potente, sua voz ecoa sobre letras sinceras, que refletem temas como solidão, tensões sociais e o amor, entre outros. A partir do sertão alagoano, de onde a cantora parte – e vive até hoje -, Suzi evoca uma canção pop de fácil acesso e identificação, além de se revelar uma produtora cultural em constante formação.

A SÊLA – Mulher na Música tá ouvindo esse EP no talo já faz alguns dias e por isso mesmo foi irresistível não pedir um papo com a cantora aqui pro site. A seguir é possível conferir nosso papo com ela, que rolou por e-mail e veio recheado de detalhes sobre a trajetória da artista até aqui. E o melhor e tudo: contado por ela mesma.

Suzi, esse EP já é o segundo na sua discografia e sua carreira já tem uma movimentação de alguns anos já. Em que momento da sua carreira estamos te conhecendo agora? O que a Suzi Mariana já fez até aqui e o que ela quer fazer a partir de agora? 

Minha jornada profissional na música iniciou em 2012. De lá pra cá fui cantando em bares, eventos corporativos e festivais que foram muito importantes para dar visibilidade ao meu trabalho, tanto como intérprete como cantautora. Em 2016 foi lançado meu primeiro EP, “Suzi Mariana” e nos últimos três anos gravamos dois vídeo clipes e dois singles. Em 2018 tive minha primeira experiência como produtora cultural. Meu primeiro evento foi na garagem de casa (risos), onde fiz um pocket show  cantando músicas autorais.

Foi aí que acabei idealizando o Pub Abajur, onde  produzi eventos culturais  durante o ano de 2019 com shows de vários artistas, exposições e recitais. Nessa fase também  criei e organizei o projeto Sessão Abajur no qual fiz quatro shows com convidados especiais. Essa experiência me possibilitou chegar mais perto do meu público e com a venda dos ingressos conseguimos um recurso financeiro que nos  permitiu gravar o single ‘Mar Solidão’ (2020).  Mas a pandemia não teve dó de ninguém, então tive que pausar tudo. 

Hoje estou trabalhando no lançamento do meu novo EP, “Pagando o Preço” que conta com quatro faixas inéditas e de uma live session autoral que gravamos em julho e iremos lançar no You Tube, dia 5 de Dezembro. Nesse momento da minha carreira estou me reorganizando e reerguendo aos poucos, assim como todo artista independente.

Nessa fase eu trago tudo aquilo que aprendi desde o início da minha trajetória musical até agora. Estou focada em fazer aquilo que gosto e sinto que devo fazer. Esse período de pandemia me trouxe tanta reflexão, sabe? Esse meu novo EP escancara muito isso.  E daqui pra frente, até quando eu respirar, quero continuar estudando canto/música,  compondo, cantando e continuarei buscando espaços, ouvindo novos sons, testando novas possibilidades sonoras para minhas letras. Mas acima de tudo, quero espalhar meu novo trabalho. Espero chegar a novos lugares através dele.

Você está territorialmente localizada no interior alagoano, mas sonoramente falando, teu EP dialoga com referências diversas, do Brasil e de fora dele. Quais são as principais linhas sonoras que você considera seguir em suas criações e como você sente que as imprimiu neste novo trabalho?  

Eu iniciei minha carreira seguindo uma linha mais folk. Gostava de compor, de cantar músicas com essa pegada. Com o passar dos anos fui me rendendo a outras escutas e experiências musicais. Eu gosto de tanta coisa que quando vou criar algo não sei fazer muito essa separação do que eu tô seguindo ou não, rsrs… Tudo que escuto fica guardado na mente e depois reverbera de forma natural.

Mas para construirmos esse novo EP  (e digo isso no quesito letra, interpretação, melodia e arranjos) busquei me inspirar em cantores, cantoras e bandas que gosto muito e  venho ouvindo de forma mais  constante nos últimos 3 anos  como por exemplo, Rory Gallagher, Queen, Led Zeppelin,  Zé Ramalho, Creedence Clearwater Revival, Suzi Quatro, Rita Lee , Anneke van Giersbergen, Larkin Poe, Alabama Shakes, Ana Galganni (Divina Supernova), Dani Black, Sérgio Sampaio, entre outros.

Sonoramente falando, bebemos muito da  fonte de grandes bandas de rock e blues dos anos 70, acho que fica  bem perceptível quando a gente escuta os timbres de guitarra por exemplo. Igor Gnomo (produtor musical) e o Felipe Urso (baterista) tiveram bastante cuidado com a gravação da bateria, para que soasse o mais próximo possível àquela sonoridade mais seca, referente ao rock setentista ou como também era conhecido o rock de Arena. Tudo isso impresso através de letras bem diretas. 

Suzi Mariana por Pedro Pastor

Na sua bagagem você traz uma carreira de shows em bares, autorais e covers. O que todas essas andanças te ensinaram de mais importante no fazer artístico? E quais as principais dificuldades que você trombou nesse caminho todo?

Cada lugar que toquei até aqui  foi uma escola, desde os bares até os festivais de música. Isso é inegável! Todas essas experiências me mostraram que o fazer artístico vai muito além da vaidade. Nem todos os lugares te receberão da mesma forma, nem todos os lugares ficarão lotados para ver um show seu, mas a gente tem que passar por essas experiências, sabe? A gente que é artista independente vai aprendendo que trabalhar com música não é só ensaiar, tocar e voltar pra casa.

É preciso assumir a gestão da carreira, seja tocando num barzinho para 30 pessoas ou num festival com mais de duas mil pessoas. Precisamos entender de tudo um pouco. Manter a essência, expressar aquilo que vem lá de dentro em todos os lugares que eu for me apresentar, foi isso que aprendi. E claro, haverá muitos perrengues. Muitos bem desagradáveis.

No momento, quando penso em dificuldades no caminho, posso mencionar que foi muito difícil morar longe de lugares onde rolavam eventos que poderiam receber meu som. Há sempre aquela vontade de sair por aí pra expandir nosso trabalho, mas isso nem sempre é o suficiente e nem sempre é possível financeiramente. Então foi por causa dessa dificuldade que Sessão Abajur e o Pub Abajur nasceram em pleno sertão alagoano.

A Suzi produtora cultural surgiu aqui.  Eu quis me dar uma oportunidade, já que era e é muito difícil tê-la passeando por aí. Investimos, fiquei com muito medo de não vingar, mas no final foi uma das melhores experiências da minha vida profissional, pois pude enxergar o fazer artístico com outros olhos, fui me encontrando muito mais. Eu também já trombei com pessoas maldosas, que menosprezaram meu trabalho por eu ser do sertão, por eu ser mulher (já ouvi cada coisa, mas isso fica pra um outro bate-papo), assim como milhares de cantoras eu também tenho medo de ir tocar em algum lugar sozinha e voltar pra casa sozinha. Mas no final a gente segue firme e forte! Que nossa música possa vencer qualquer barreira, qualquer distrato, qualquer preconceito e qualquer medo.

Suzi Mariana por Pedro Pastor

Aqui na SÊLA – MULHER NA MÚSICA a gente evoca muito esse lugar da mulher profissional da música, seja em cima ou atrás dos palcos. Qual dica você deixa para nossas leitoras que sonham em botar sua arte no mundo mas ainda possuem receios ou não sabem como e o que fazer? Existe um ponto de partida para mulheres que querem compor e cantar suas letras?

O medo,  o receio de fazer algo vai estar sempre presente não importa em qual fase da vida pessoal ou profissional vocês estejam. O novo pode ser apavorante, mas é desafiador e faz a gente aprender. Então enfrentem isso, quebrem esses muros, permitam-se  aos erros e aos acertos. Aprendam com boas referências, falo isso no sentido humano, além do profissional.

Cerquem-se de boas pessoas, aquelas que tecem críticas de forma construtiva, que correm do teu lado e nunca parem de estudar conteúdos sobre suas áreas e “metam a voadora nesse mundo cão” (risos). Eu fui aprendendo  isso (e continuo aprendendo)  durante esses anos de vivências musicais. A adrenalina de produzir algo novo e passar por todo aquele processo de escrever um projeto e tirá-lo do papel é  viciante.

Acredito que  o ponto de partida para nós mulheres que escrevemos e interpretamos nossas letras deve ser aquilo que vem de dentro. A gente tem que se perguntar: O que nos move? O que sentimos? O que quero escrever? Não importa o gênero que vocês defendam, apenas façam. Escrevam, gravem seus projetos. Quando falo isso estou trazendo algo que acho muito importante ser mencionado aqui.

Eu já observei que quando compomos sobre temas “não fofinhos”, isso quer dizer, quando não seguimos o padrão que se esperam de uma mulher ou menina até na hora de compor e escrevemos e cantamos sobre nossos desejos, sobre política, sobre traições, ou seja, quando escrevemos qualquer letra mais pungente, sempre tem alguém que diz “eita, eu pensei que tinha sido um homem que havia feito essa música”. Eu passei por isso e vejo muitas mulheres compositoras falando o mesmo, então eu  fico meio sem saber o que responder de tão cansativo que é lidar com  esse pensamento, sabe?

Então é isso, não importa se vocês escrevem um  pop, jazz, blues, rock’ n roll, reggae, samba, uma música fofinha, etc. Apenas cantem a verdade de vocês. Abracem suas histórias, suas sensações, suas revoltas, alegrias e “mandem brasa”. Sigam firmes! Escrevam porque vem de dentro e não porque lhe falaram que você deveria ser de tal jeito, ou escrever de tal jeito. O que vocês precisam fazer é começar e a partir de então é a vida que vai ensinando o resto.

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