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D’Água Negra: projeto amazonense em auto-entrevista inédita

D’Água Negra: projeto amazonense em auto-entrevista inédita

Um novo trio musical emerge das profundezas do Rio Negro, no Amazonas, para provocar ouvintes de todo o globo terrestre. Com o EP de estréia, Erógena, recém lançado, Clariana Arruda, Melka e Bruno Belchior mostram uma sofisticação pouco usual, misturando referências que passam pelo jazz, o indie rock e a música posicodélica brasileira. a audição de Erógena é um deleite para os sentidos. Indo ainda mais longe, te convidamos a mergulhar no projeto não somente sonoramente, mas por meio de uma auto-entrevista exclusiva para o portal Mulher na Música. Vocês conferem na íntegra um papo entre Clariana e Melka sobre produção musical, canto, composição e mais.

Melka entrevista Clariana

– Então Clari, há pouco menos de dois anos tu começaste na produção musical dos vera, né? Conta ae como foi esse caminho até chegar no EP Erógena e o que ainda tá por vir?

Foi e continua sendo um caminho de muita experimentação. Comecei a produzir no Ableton vendo o processo criativo do meu irmão, o Rafael Arruda, que também é produtor musical e Dj live de trance music. 

Depois resolvi fazer um curso de produção de beat com o Victor Xamã, onde desenvolvi mais meu work flow e direcionei minhas produções para beats de rap. 

Fui produzindo beats, mas sempre deixei guardado na gaveta. Passou um bom tempo, a pandemia veio e esse processo criativo que acontecia nos intervalos da rotina, começou a tomar conta do meu tempo. Era a forma que eu tinha de escapar um pouco do cenário caótico.

Comecei a pirar um pouco em casa e ia mandando os beats pro Belchior, ficávamos horas imaginando letras, roteiros, cores e cheiros, e assim fomos construindo histórias por cima das melodias que eu produzia. Numa dessas surgiu YOGA GOTA BOCA ARDENTE, uma das faixas do Erógena. 

A pandemia deu uma afrouxada, foi aí que a gente pôde se reencontrar, começar novos projetos. Nos juntamos com a Melka, e fizemos a demo de “ Espelho d’água “.

Depois disso eu me mudei pra Portugal, então houve mais um momento de hiato nesse grupo. Foi quando voltei a produzir sozinha e experimentar outras sonoridades. 

E então tive a oportunidade de fazer um curso de Produção Musical e discotecagem em Porto, na DancePlanet. Foi aí que eu comecei a encarar a produção musical como algo que vai além das minhas próprias criações. 

Tenho muita vontade produzir beats para as Mc’s de Manaus. Todas as vezes que entrava em Studio, era sempre um homem sentado na mesa de produção. Quero criar um ambiente em que seja possível produzir música com uma ficha técnica majoritariamente feminina. 

Além disso, e do D’água Negra, continuo produzindo e-music. A expectativa é que eu solte algumas dessas tracks individuais em 2022. 

– Tem muitas referências por aí que eu seeei… O que tu ainda pretendes trazer pro D’água Negra em trabalhos futuros?

Eu cresci em um ambiente muito fértil à pesquisa musical, acho que tenho agradecer meu pai por isso, ele é um canceriano apaixonado por rock e blues. Quando criança lembro dele me acordar com as músicas do Eric Clapton, e de me levar para escola ouvindo Jethro Tull  (pra ter certeza que acordei).

Foi na adolescência que meu violão teve um caso seríssimo com a MPB, foi uma fase em que me distanciei um pouco da música de fora e comecei a buscar mais referências brasileiras de composição. Teve bossa de 3 acordes, minha garganta estranha também cantou muito hino sapatônico, rezei Bethânia, bebi Tim Maia, mas foi pela Drica (Adriana Calcanhoto) que me apaixonei, e sigo aprendendo muito sobre composição musical com ela.

Atualmente minha pesquisa tem se voltado para artistas que conseguem transcender métricas pré-estabelecidas pelo mercado da música, e artistas que conseguem mesclar ritmos diferentes. Nos últimos meses tenho escutado muito breakbeat, Nu disco, soul e umas nostalgias. A música eletrônica e a discotecagem acabam sendo palco dessas infinitas possibilidades, ser Dj, além de produtora, é estar nesse constante estudo. 

Para trabalhos futuros? Hmmmm…Virgem com ascendente em gêmeos, né ? Eu gosto de uma salada musical bem temperada, acho que é isso, para os próximos trabalhos não posso prometer nada além de diversidade musical e costura sonora. 

– Agora a pergunta de milhõõões: é arte visual ou plástica? Papo (rs), o que o Erógena representa pra ti?

É tudo aquilo que pulsa, sabe? Aquilo que você sabe que pulsa e que move mundos dentro dos teus instintos mais abissais. Até pula, vem pra superfície, “ricocheteia nas paredes”, e pá! 

Pra mim, a pulsão move o hospedeiro até que a própria pulsão possa se mover, até emergir em poesia quântica, descortinando camadas de elétrons, transformando toda lombra mental em luz e ressaca. 

Erógena é tudo que eu esperei esse tempo todo achando que tava tarde demais pra acontecer. É ruptura com os padrões do que eu pensava que a vida tinha me dado. É fruto de muito trabalho, e a materialização de um sonho coletivo, é uma possibilidade de tecer novas histórias, de novos encontros, de reinventar meu fim. 

É todo o clichê que couber aqui sobre acreditar no teu corre.

Clariana entrevista Melka

– Então Melka, muita gente já mergulhou no teu caldeirão de discotecagem, o que esse público da música eletrônica pode esperar da Melka cantora?

Entãããooo, toda essa cantoria vem de um local super recente na minha vida. De alguma forma sempre me rondou, em rodas de samba com amigos, reuniões com violinha e por aí vai. Cheguei a participar de um coral na escola quando criança, mas só fiz uma apresentação.

Aí em 2019, produzindo o Sofar Sounds Manaus, fui convidar a DJ, produtora musical manauara e amiga Guillerrrmo pra participar e rolou a necessidade de alguém no vocal pra transformar o som em algo mais orgânico. Ela lançou a braba pra mim e me joguei. Saiu algo bem experimental, que inclusive deve sair no Youtube ano que vem. No ano passado, a gente repetiu a dose através do selo paulista Mamba Rec, pra uma coletânea chamada Kengaral Eletrohits Vol. 2, e dividi vocais com o Juan Duarte. E no meio disso tudo, foi surgindo o duo D’água Negra e quando dei por mim, já tava gravando a primeira versão de Espelho d’água, levada pela lombra da Clari e do Belch.

Agora em 2021, depois que oficializamos o D’água como um trio, senti a liberdade de experimentar mais a minha voz. No momento, também tenho sido backing vocal da cantora amazonense e amiga Anne Jezini, e há poucos meses atrás, o trio gravou backings vocals pro álbum Brasil Profundo, do cantor Antônio Bahia.

O que esperar da Melka cantora? Eu também não sei hahahahaha. Acho que todo dia, em brincadeiras e treinos, eu venho descortinando as inúmeras possibilidades. Mas sei que tem muita performance misturada nisso tudo, já que eu sou bailarina desde os 11 anos de idade.

– Esse cheiro de anos 80 vem de onde? É você? Conta pra gente um pouco de onde brota tua escrita e as tuas referências?

Culpem meus pais, foram eles!!!! Hahahahaha mas é real! Muitas referências oitentistas brotaram através desse casal adorador de disco, pop rock e mpb. E uma vez que fui jogada nesse universo, tomei gosto e nunca mais saí. Amo a liberdade de criação que surgiu a partir dos anos 60/70 e seguiu expandindo nos 80. O dancefloor, cabelões bafo, roupas coloridíssimas, às vezes nem tanto. A energia dessa época me deixa dooooida! E daí trago várias referências como Grace Jones, Rita Lee, Sade, Madonna, o povo da Tropicália, The Police, The Cure, David Bowie, Technotronic, Kraftwerk e altas doses de disco.

Atualmente, LCD Sound System, KOKOROKO, L’impératrice, Fernanda Abreu, Teto Preto, Carne Doce e Sault são alguns que ecoam direto aqui pelas minhas orelhas. Pra além da música, sou constantemente atravessada pela arte contemporânea da minha terra, pelos movimentos latinos que borbulham aqui pelas redondezas e pela cultura nipônica. Sim, fui uma criança otaku!

Quanto a escrita, só posso falar uma coisa: cura. Todo dia eu escrevo, como um ritual de limpeza, reflexão e evasão. Pra além das composições musicais e dos poemas, o ato se tornou uma necessidade mesmo. Sem a escrita, eu estagno. Se eu estagno, pode me enterrar.

– Você também é produtora cultural né?!  Foi curadora ano passado no Prêmio Natura Musical. Como você vê o D’água negra inserido em um contexto nacional/ internacional?

Tenho confiado muito nos caminhos que estão se abrindo pro D’água. Fechamos com o selo Amplifica Music e o som tá alcançando locais que antes eram apenas sonhos. Tocamos num programa na BBC, que isssoooooo!? Temos uma sonoridade que tende a agradar muitos públicos, e os discursos do Erógena conversam diretamente com muita gente. Quem nunca se sentiu sem saída de alguma forma? Ou marcou um date e ficou ali só analisando o outro? É um EP pra pankear, dançar e flertar. Assuntos universais, tudo muito bem embrulhadinho num pacote de jazz-new-soul-pop-indie.

No momento, estamos focando em espalhar esse EP por todo lado. Quem sabe daqui a pouco já não rola uns shows, no Brasil e fora também. 😉

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