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“Nobre Mulher”: Aiace traz a pluralidade do feminino e a luta pela equidade de gênero

“Nobre Mulher”: Aiace traz a pluralidade do feminino e a luta pela equidade de gênero

No single, Aiace convida Manuela Rodrigues, Mariana Guimarães, Marissol Mwaba, Natália Matos, Brina Costa, Rhaissa Bittar e Siamese para denunciar a violência do dia a dia e cantar um mundo com equidade de gênero.

A composição é de Manuela Rodrigues com citação do poema “Mulher”, de Mariana Guimarães e Pok Ribeiro. “Nobre Mulher” ganhou um clipe incrível dirigido por Rhaissa Bittar e que está disponível no Youtube.

Com exclusividade para o Mulher na Música, você confere entrevistas com as artistas. No primeiro bloco falam Aiace, Manuela Rodrigues e Brina Costa. Confira!

Por muito tempo eu segui descontente as regras que você me impôs, patriarcado violento
Mas agora é diferente e eu vou lhe mostrar como é
É que eu nasci mulher, você me entende?

Trecho do poema “Mulher”, de Mariana Guimarães e Pok Ribeiro

Aiace faz parte da nova geração de cantoras baianas e também integra o grupo musical Sertanília. Solo, ela apresenta uma linguagem contemporânea, utilizando elementos da Música Popular Brasileira, jazz e elementos do universo pop e rock, mas sem esquecer as raízes ancestrais afro-baianas. Em suas músicas, canta sobre temas que são atemporais, levando o ouvinte a um lugar cheio de nuances e texturas que dialogam com as referências musicais mais diversas, vestidas pela doçura e expressividade da sua voz.  

Aiace
Foto: Vini Ribeiro

Seu primeiro disco solo chamado “Dentro ali” traz as participações especiais de Luiz Melodia e Lazzo Matumbi, grandes nomes da música popular brasileira. O álbum esteve presente entre os melhores lançamentos de 2017 por sites especializados, como O Embrulhador. Dentre algumas de suas apresentações destacam-se: Festival Atlantikaldia 2018 (Espanha),  Festival Psicodália 2019 (Santa Catarina), Festival Virada Salvador 2020 (Salvador). Atualmente, lançou os singles “Amarelocura”, “Quando a gente se vê” (Feat. Mestrinho) e “Se você se for”, anunciando o seu segundo álbum solo intitulado ‘Eu Andava Como Se Fosse Voar’. O álbum está  previsto para 2022.

Conte brevemente como foi receber a letra da música. Quando leu a primeira vez, teve alguém/alguma situação que veio automaticamente na sua cabeça? 

Eu conheci a canção quando compartilhei com Manu o meu desejo de gravar uma música dela nesse meu novo disco. Ela, então, me mostrou “Nobre Mulher” e a identificação foi imediata. Lembro que ao escutar e ler o texto os sentimentos se misturavam: o choro ao ouvir tudo o que eu precisava naquele momento, como um aconchego que diz “Você não está sozinha, eu te enxergo e sinto o que você sente”; e o encorajamento que me moveu a querer cantar essa canção para que outras mulheres também pudessem se sentir como eu me senti. Na cabeça, lembrei automaticamente de muitas situações onde eu me calei por medo e onde fui desacreditada e agredida simplesmente por ser mulher.

Qual parte da canção mais te toca e porquê. 

A canção inteira me toca mas acho que o verso “Uma sobe e puxa a outra” me move ainda mais a acreditar e buscar construir novas redes a partir da união das mulheres. Acredito que essa é uma via potente de transformação.

Quando foi gravar a música, qual foi o maior desafio para você? 

Para mim o maior desafio foi encontrar um caminho interpretativo que representasse os antagonismos em ser mulher, nas diversas vozes e dores que trazemos, nos sentimentos complexos e intensos que transbordam junto com a gente diariamente e na diversidade de sermos quem somos. Tentei trazer isso na minha interpretação ao cantar sozinha, pois todas tivemos que gravar um take completo individualmente. Mas percebi que essa ideia acabou se evidenciando de forma muito natural ao juntarmos todas as vozes. E o que a princípio parecia um desafio muito maior, já que as gravações ocorreram em estúdios completamente diferentes e com formas de captação diferente, acabou trazendo essa complementaridade a partir da individualidade e diversidade das nossas vozes e histórias. Cada uma sentiu de um jeito e isso trouxe uma dinâmica muito rica, como o retrato das nossas vidas. Há muita diversidade na experiência de ser mulher.

Nesse novo disco, assuntos que permeiam a vivência da mulher estão muito presentes. O que despertou a vontade de trazer essas temáticas para esse novo trabalho?

Gosto de falar sobre o que eu sou, em como me descrevo e encaixo socialmente e ser mulher faz parte disso. Dentro da minha experiência de vida, foi uma das primeiras coisas que descobri, me identifico e gosto. Apesar disso, percebo que muitos obstáculos que enfrentamos socialmente, dentro desse sistema patriarcal, estão muito atrelados ao gênero que trazemos e dentro disso percebo discriminação com muitos dos signos que representam o feminino e que resulta em mulheres invisibilizadas, agredidas ou até mortas. Precisamos falar sobre isso e mudar esse cenário e vejo a música como um caminho.

Para mim, a diversidade que surge a partir desse ponto de encontro potencializa e complementa as nossas histórias, mas ainda temos uma longa batalha pela frente para diminuir os preconceitos que giram em torno dessas ideias

– Aiace

“Nobre Mulher” traz a participação de diversas representatividades dentro do feminino, o que você acredita que todas elas têm em comum?

Acredito que o que nos une é a identificação com o feminino, cultivada socialmente a partir das nossas escolhas, que podem ou não coincidir com o que nos foi imposto no nascimento. Me identifico muito com a Simone de Beauvoir quando ela diz que “Não se nasce mulher, torna-se mulher” e que ao longo da nossa jornada e das escolhas que fazemos vamos moldando quem somos e a nossa identidade. E nesse caminho, não tem como uma experiência ser igual a outra e precisamos também reconhecer a interseccionalidade nessa experiência.
Então, para mim, a diversidade que surge a partir desse ponto de encontro potencializa e complementa as nossas histórias, mas ainda temos uma longa batalha pela frente para diminuir os preconceitos que giram em torno dessas ideias.

Como surgiu sua relação com Manuela Rodrigues (compositora)? 

Manu foi um presente muito querido que eu ganhei durante a minha passagem na graduação na Escola de Música da UFBA. Já nos conhecíamos da cena musical de Salvador, eu já admirava muito o trabalho dela enquanto cantora e compositora, ela já era uma referência artística para mim, mas foi durante a passagem dela como professora substituta no curso de Canto que nos aproximamos mais. Pude aprender com ela durante 1 ano e foi uma experiência fantástica.

Como surgiu sua relação com Pok e Mariana (poetisas)? 

Conheci Mari e Pok através das redes sociais. A força dos poemas delas e a entrega que Mari tem ao recitar um poema me tocam profundamente. Eu e Mari conversávamos algumas vezes pelas redes sociais e eu acompanho muito as postagens dela. Quando Manu me mostrou “Nobre Mulher” lembrei que eu tinha visto a Mariana recitando um poema com a mesma essência e lembrei também de como eu tinha sido arrebatada por ele. Pensei em juntar os dois textos e fui pedir autorização a elas, que para a minha felicidade gostaram da ideia.

Como se deu a curadoria para escolher os feats?  

Busquei artistas da cena independente que eu admirava, que gostava das produções e que achava que poderia dialogar musicalmente com o meu trabalho artístico. Busquei ainda trazer mais diversidade através dos convites, chamando artistas de outros estados, com personalidades, vivências e produtos artísticos diferentes, trazendo um pequeno recorte de toda potência que a cena independente e feminina do nosso país tem. Fiz até uma playlist com os trabalhos de cada uma e outras maravilhosidades, ouça aqui e presenteie seus ouvidos.

Acredito que encorajar mulheres a exercerem a potência que trazem dentro delas, abarcando toda a diversidade que existe em poder experienciar o feminino, as encorajando a usar as suas vozes, criando espelhos onde possam se enxergar e formar redes onde elas possam crescer e se apoiar coletivamente pode ser uma via de transformação.

– Aiace

Como você acha que canções como “Nobre Mulher” podem contribuir para a luta por equidade das mulheres hoje?

Acredito que quanto mais a gente fala sobre as dores que a nossa sociedade traz teremos mais possibilidades para provocar as mudanças que queremos. E precisamos falar sobre a mulher na sociedade porque essa é uma questão de saúde pública, já que de acordo com estudos recentes uma mulher é morta a cada 8 horas no Brasil. Acredito que encorajar mulheres a exercerem a potência que trazem dentro delas, abarcando toda a diversidade que existe em poder experienciar o feminino, as encorajando a usar as suas vozes, criando espelhos onde possam se enxergar e formar redes onde elas possam crescer e se apoiar coletivamente pode ser uma via de transformação. Aqui em “Nobre Mulher” somos 8 artistas multiplicadoras produzindo nessa vibração.


Foto: Sara Regis

Manuela Rodrigues é cantora, compositora, pianista e professora de Canto. Graduada em Canto e com Mestrado em Performance na Ufba. Com mais de 20 anos de carreira, sua discografia é composta por três álbuns autorais, Rotas (Prêmio Braskem), Uma Outra Qualquer Por Aí e Se a Canção Mudasse Tudo (Natura Musical). Em abril Manuela lança seu novo EP Grito, onde Manuela assume sua faceta instrumentista e apresenta canções inéditas, cantando e tocando ao piano.

Conte brevemente como foi compor a letra da música. Teve alguém/alguma situação que veio automaticamente na sua cabeça? 

Compus essa música inspirada na relação de sororidade entre as mulheres. O cuidado de uma mulher para com outra, o cuidado verdadeiro, genuíno é muito poderoso. Já fomos estimuladas a competir –inclusive por homens – e hoje entendemos que isso nos enfraquece. Dessa forma, a letra veio no sentido de enaltecer todas as mulheres, reconhecer a nobreza de cada uma, suas potências e nossas potências.  Uma sobe puxa a outra mesmo. 

Nobre mulher, moça
Poço da força
Sombra e silêncio e dizem
Louca demais

“Chorei muito quando cantei essa parte pela primeira vez” – Manuela Rodrigues

Qual parte da canção mais te toca e porquê. 

A parte que mais me tocou quando terminei de compor pela primeira vez foi a parte que diz “sombra e silêncio e dizem: louca demais”. Já fui chamada de louca e tenho certeza que muitas mulheres foram, já sofri Gaslighting intencional numa relação, a pessoa queria me enlouquecer mesmo. A sociedade reforça a imagem de louca pra mulher preta e de agressivo para o homem preto, são estereótipos aprisionadores e que sufocam nossas possíveis reações. Já que se eu – mulher preta – gritar eu vou ser tida como louca e se um homem preto reagir vai ser visto como agressivo. Chorei muito quando cantei essa parte pela primeira vez. 

Quando foi gravar a música, qual foi o maior desafio para você?

Acho que foi pensar em fazer uma interpretação que chegasse nas pessoas quando somasse com todas as manas que cantam junto. 

“Nobre Mulher” vem nesse lugar de profundidade, no mergulho nas minhas próprias dores e nas dores das que muitas mulheres atravessam na sociedade 

– Manuela Rodrigues

Como “Nobre Mulher” dialoga com seu trabalho autoral? 

Meu trabalho sempre teve muitas canções para as mulheres e sobre mulheres como “Barraqueira” “Moça de Família”, por vezes de um viés mais humorado, outras vezes com um viés mais profundo. Acho que “Nobre Mulher” vem nesse lugar de profundidade. No mergulho nas minhas próprias dores e nas dores das que muitas mulheres atravessam na sociedade. 

Como você acha que canções como “Nobre Mulher” podem contribuir para a luta por equidade das mulheres hoje?

Eu acho que a arte tem essa função de provocar a reflexão, abrir a discussão, colocar o assunto na pauta. Se a gente não toca em pontos como a fraqueza e a fortaleza de uma mulher e como é importante a sociedade olhar pra isso com afeto e ternura, nós vamos sendo literalmente atropeladas. E quando a gente se junta, se une, a gente forma uma egrégora. Isso é muito potente 


Brina Costa: Artista paulistana, residente no Rio de Janeiro, Brina Costa é uma verdadeira cronista. Suas canções falam de amor, política e do feminino presentes no cotidiano de quem passa. Dona de um olhar sensível, consegue estabelecer um sincero diálogo com quem a escuta. Lançou em 2019 seu primeiro álbum “Anônima” , com o qual circulou por diversas capitais do país com um show-filme produzido e dirigido por ela. Atuou como compositora e diretora musical em diversos espetáculos no Rio e em SP. Compôs a trilha para as peças “Reflexo” em 2017 e “Aquário” em 2021, de Marlene Barreto, em Lisboa. Brina Costa tem um álbum lançado, sete singles, um EP e no primeiro semestre de 2022 lançará o álbum Fora da Palavra.

Brina Costa Foto: Angela Costa

Os problemas ainda estão ai, desde minhas bisavós, a diferença é que hoje conseguimos falar mais sobre as coisas e reagir

– Brina Costa

Conte brevemente como foi receber a letra da música. Quando leu a primeira vez, teve alguém/alguma situação que veio automaticamente na sua cabeça? 

“Nobre Mulher” retrata de maneira muito poética a força feminina. Sempre fico muito reflexiva com as questões do feminino e com um certo inconformismo com essa mudança tão lenta que acontece. Os problemas ainda estão ai, desde minhas bisavós, a diferença é que hoje conseguimos falar mais sobre as coisas e reagir.

Qual parte da canção mais toca você e porquê. 

O trecho “Uma sobe e puxa a outra”, porque essa é a única forma de real mudança. A corrente, a cumplicidade e o amor.

Como surgiu a parceria com Aiace?

Já conhecia o trabalho de Aiace por causa de Paulo Mutti, que produziu meu primeiro álbum e também o primeiro álbum de Aiace, desde de lá ja era fã.

Como acha que “Nobre Mulher” dialoga com seu trabalho autoral? 

Meu trabalho é muito voltado para esse universo, desde o primeiro disco “Anônima” que fala sobre as milhares de mulheres que, como eu,  transformam-se todos os dias em busca de suas próprias asas, quebrando padrões seculares que rondam o feminino. Depois lancei “O Machismo Nosso de Cada Dia”.

É uma canção forte, uma canção que empodera e faz valer a pena acreditar que não estamos sozinhas nessa luta diária que é ser mulher.

– Brina Costa

Como você acha que canções como “Nobre Mulher” podem contribuir para a luta por equidade das mulheres hoje?

É uma canção forte, uma canção que empodera e faz valer a pena acreditar que não estamos sozinhas nessa luta diária que é ser mulher.


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